Os crimes de maio, ofensiva da polícia do estado de São Paulo contra ataques realizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que deixaram mais de 560 civis mortos, completam 20 anos. A violência policial aconteceu em todo o estado, mas foi mais aguda na capital paulista, grande São Paulo e baixada santista.
O episódio mobilizou mães que perderam filhos nessa ação comandada pelo Estado a formar o grupo Mães de Maio, que desde então, luta por justiça, memória e reparação. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Débora Silva, coordenadora do Mães de Maio, destaca que de lá para cá pouca coisa mudou na política de segurança pública, que segue com a lógica máxima de um inimigo a ser combatido, vitimando, majoritariamente, a população negra e periférica.
“Essa justiça paliativa que não nos enxerga, como mulheres negra, como mulheres de favela do território marginalizado, nos coloca em 20 anos sem resposta. E na véspera, praticamente, da prescrição desse massacre vergonhoso que aconteceu no estado de São Paulo, sobre o qual nem o estado e nem nosso país dão uma resposta para essas mães. A gente vem nessa luta árdua, uma luta com várias pesquisas, com evidências da academia, tanto dentro como fora do Brasil. E a gente fica o tempo inteiro falando que é preciso repaginar esses crimes para que isso nunca mais aconteça”, defende.
“O que a gente viu ao longo desses 20 anos é que houve um padrão provocativo para que a as operações de vingança aconteçam, desencadeando as mortes de meninos pretos, pobres e que não têm acesso à Justiça. A gente continua vivendo uma política de morte”, afirma.
Silva destaca que grupos de mães vítimas da violência de Estado, como é o Mães de Maio, são organizações que continuam crescendo porque a violência não parou. Para ela, a importância desse tipo de iniciativa é, além de acolher e orientar as mães, criar espaços para construção de conhecimento e resistência.
“Essas mulheres, elas viraram pesquisadoras como eu, elas viraram advogadas, assistentes sociais, psicólogas… Mas a gente vê que também não tem um espaço nem para o acolhimento quando acontece esse luto. Nós ganhamos, agora em fevereiro, uma política do governo federal que tem esse olhar para essa demanda [de acolhimento e olhar para a saúde mental], que é uma demanda nova, uma demanda que precisamos também como mães, de fazer formações nos profissionais que não estão preparados para atender a essa demanda. Profissionais da mente, da psicologia que não têm um olhar diferenciado para a mãe preta, pobre, moradora de favela, que está ali querendo entender o por que o Estado mata seus filhos. Então a gente veio para mudar essa realidade”, explica Débora Silva.
A fundadora das Mães de Maio defende uma reforma urgente no Judiciário, que, segundo ela, age de forma classista e racista. “O Judiciário não pode nos julgar pelo CEP, não pode nos julgar pela cor do pigmento. O Judiciário precisa entender que nós somos todos iguais perante a lei e ele é o que mais mata com a canetada pedindo arquivamento de vidas humanas, que é uma causa pétrea da nossa constituinte”, afirma.
Débora Silva destaca, por fim, que é importante chamar o episódio de maio de 2006 de crimes de maio. “Depois de uma semana, o Ministério Público divulgou uma carta falando que foi restabelecida a ordem. Que ordem foi restabelecida? Até o dia de hoje eles continuam matando. A farsa do ataque do PCC rotulado pela grande mídia, que foi uma farsa também. Nós fomos, democratizamos a mídia, falamos para ela que era crime de maio, que os faccionários não mataram nossos filhos. A guerra dos faccionários era contra o Estado”, defende.
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