FÉ E POLÍTICA

Criticado por pedir o fim da escala 6×1, bispo pernambucano afirma que ‘a palavra de Deus vem combater as injustiças’

Responsável pela diocese de Afogados da Ingazeira, no Sertão, concedeu entrevista ao BdF e reafirmou posição da igreja

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Bispo Dom Limacêdo, nascido em Nazaré da Mata (PE), é o responsável pela diocese de Afogados da Ingazeira (PE) desde 2023
Bispo Dom Limacêdo, nascido em Nazaré da Mata (PE), é o responsável pela diocese de Afogados da Ingazeira (PE) desde 2023 | Crédito: Diocese de Afogados da Ingazeira

No início de maio, o bispo responsável pela diocese de Afogados da Ingazeira, no Sertão pernambucano, voltou a ser alvo de críticas nas redes sociais e em algumas páginas de notícias da região. Alguns católicos e mesmo fieis de outras religiões o acusavam de “fazer política” na Igreja. O motivo? O líder religioso fez uma fala em que defende a redução da escala de trabalho em que as pessoas dão expediente por seis dias, tendo direito a apenas um dia de descanso semanal. O tema conta com o apoio de 71% dos brasileiros, segundo pesquisa Datafolha, mas a mudança na lei encontra resistência entre empresários e políticos.

O bispo em questão é Dom Limacêdo Antônio, pernambucano de 65 anos, nomeado em 2023, pelo Papa Francisco, para ser responsável pelas paróquias de 17 cidades no Sertão do Pajeú. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele afirma que a garantia de mais descanso para quem trabalha deve contribuir “para que as pessoas tenham mais saúde, mais tempo de conviver com a família, para que pais e filhos voltem a conversar. A falta de tempo não lhes permite mais isso. As pessoas vivem estressadas”, avalia o bispo. “Como Jesus defendeu no seu tempo, eu também tenho que encarnar o meu tempo e cuidar desses oprimidos. É o que fiz a minha vida toda”, contou ele ao BdF.

Parte das críticas considera que, ao tocar em temas quentes do debate político nacional, o líder religioso estaria adotando posições partidárias. O que ele rebate. “Tudo o que aprendi da homilia (discurso proferido durante as missas, após a leitura da Bíblia) é que a gente deve atualizar a palavra de Deus, porque Deus não é coisa do passado, mas do presente. Então eu falo que Jesus, ao encarnar, assume a história humana. E, na história, Jesus sempre combateu aqueles que não cuidavam das pessoas, os que não defendiam a verdade, a solidariedade, o amor, a justiça e a paz”, afirma Dom Limacêdo.

O religioso considera que o problema não está na sua homilia, mas no conflito que algumas pessoas vivem entre sua fé e sua prática. “Essa palavra de Deus muitas vezes questiona aquelas pessoas que não querem deixar o seu status quo”, conclui Limacêdo Antônio. “Mas a palavra de Deus vem reforçar nossa esperança, combater as injustiças, defender os órfãos, as viúvas, os sofridos, injustiçados, os pisados e preteridos da sociedade”, pontua o bispo, que é filósofo e teólogo, mestre e doutor em dogmática pela Universidade Pontifícia de Roma, além de ex-bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife, auxiliando Dom Fernando Saburido ao longo de cinco anos.

Filósofo, teólogo, mestre e doutor em dogmática, Dom Limacêdo foi bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife
Filósofo, teólogo, mestre e doutor em dogmática, Dom Limacêdo foi bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife
| Crédito: Diocese de Afogados da Ingazeira

O líder católico recorda que as tentativas de constrangê-lo tiveram início há seis meses, após a missa de Natal de 2025. “Acabei me colocando contra aquele movimento que destruiu os prédios públicos que representavam os três Poderes [no 8 de janeiro de 2023, em Brasília (DF)]. Algumas pessoas passaram a se manifestar contra mim, como se eu tivesse deturpado a pregação de Natal, que deveria ser uma coisa leve”, recorda Limacêdo. Mas ele discorda dessa visão sobre o papel da pregação. “A palavra de Deus não vem para confirmar loucura, insensatez e irresponsabilidade”, pontua.

A primeira manifestação questionando a atuação do bispo partiu de dentro da Igreja, com carta pública escrita por um coroinha de Serra Talhada, município que integra a área de atuação do bispo. “Causa-me profunda estranheza que um homem tão preparado decida abordar política em uma missa de Natal. Esse equívoco me fez refletir sobre sua autoridade espiritual”, diz o texto divulgado em sites de notícias da região. “Não deveríamos nós, católicos, viver sob a lei de Deus antes das leis dos homens?”, questiona o jovem.

O texto deu início a uma série de questionamentos, que ganham as redes sempre que Dom Limacêdo Antônio toca em algum tema de relevância política. Nos últimos meses, o bispo questionou a correção do projeto de lei apelidado de “dosimetria”, que reduz penas daqueles que colaboraram, entre 2022 e 2023, com a conspiração golpista que envolvia assassinatos do presidente eleito, Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, além de Alexandre de Moraes, juiz no Supremo Tribunal Federal (STF). “[Alguns políticos] defendem as pessoas que atacaram a nossa democracia. Esses não merecem seus votos. Procurem saber quem são”, disse o bispo na homilia.

Sobre os episódios e as críticas, Dom Limacêdo afirmou, em entrevista à Rádio Pajeú, que “o Evangelho não nos desliga da vida e não é um calmante. O Evangelho é provocador e deve levá-los a pensar sobre o que é o bem da sociedade e do povo de Deus. Se o seu Evangelho não trabalha com a verdade, com a valorização da vida, da comunhão e do respeito, então está no caminho errado”, avaliou. Ele disse que fica “triste” com o fato de setores se levantarem contra sua homilia. “Se eu estivesse defendendo algo fora da moralidade ou da normalidade, entenderia. Mas estou defendendo a democracia”, pontuou na entrevista à rádio. “É preocupante”, conclui.

Coletividade x indiferença

O responsável pela diocese de Afogados da Ingazeira reflete que a sociedade tem enxergado a vida com menos reflexões coletivas e sob uma perspectiva cada vez mais centrada no indivíduo. “Queimam livros, tiram a filosofia do currículo escolar, negam as universidades como espaços de formação de opinião e consciência. É uma demonstração de que querem destruir a dignidade da pessoa humana na sua raiz, que é a cultura de comunidade e participação. As pessoas estão se alimentando de egoísmo. E os jovens têm sido vítimas disso”, avalia Limacêdo Antônio. “O Papa Francisco falava do risco que corremos da universalização da indiferença. Mas a Igreja precisa ser sinal de alegria, união, sermos uma família”.

Nesse quesito, ele elogia o ambiente social e cultural de Afogados da Ingazeira e região, elogiando a influência de Francisco Austregésilo de Mesquita Filho, bispo daquela diocese por 40 anos (1961 a 2001), chamado de “Profeta” por alguns fiéis na região. “Enquanto Dom Hélder Câmara evangelizava no Recife, este homem defendia os trabalhadores rurais aqui no Pajeú. Defendeu até que esses trabalhadores tinham direito de entrar nos prédios onde estavam os silos cheios de alimentos e levassem parte para casa. Era o saque que ele permitia e defendia. E era um homem formado em Direito, sabia o que estava dizendo”, explica Dom Limacêdo.

União entre fé e vida em Afogados da Ingazeira

Ainda em conversa com o Brasil de Fato, o católico pontua que a indiferença sobre o mundo deve dialogar também com as formas de vida não-humanas, mencionando a questão do desmatamento da Caatinga. “Me preocupo com a defesa do bioma Caatinga aqui no Pajeú e com o rio Pajeú. A natureza na região é uma coisa belíssima e precisamos defender essa casa comum. Sem árvores, como vai ter chuva e alimento?” questiona. “Deus fala conosco, diz como Ele é, através de suas maravilhas”, completa. Limacêdo avalia que a natureza e as questões sociais e jurídicas do país também são assunto da Igreja, já que esta deve se preocupar com a vida do seu povo devoto.

No dia da Consciência Negra, em novembro de 2025, Dom Limacêdo passou o dia na comunidade quilombola do Feijão, em Mirandiba (PE)
No dia da Consciência Negra, em novembro de 2025, Dom Limacêdo passou o dia na comunidade quilombola do Feijão, em Mirandiba (PE) | Crédito: Diocese de Afogados da Ingazeira

Há apenas três anos liderando a diocese de Afogados, o bispo avalia que o legado de Dom Francisco “foi base para a formação de muitas pessoas na região”, resultando numa sociedade local que vive “uma união muito positiva entre fé e vida”. E a consequência, diz ele, é a quantidade de manifestações de apoio que tem recebido. “Às vezes as pessoas me param na rua e dizem: ‘Estamos com o senhor. O senhor está dizendo a coisa correta’. Isso me confirma que estou no caminho certo, da missão de Jesus”, considera Limacêdo Antônio, reafirmando ainda que não possui interesses partidários.

Manifestações de apoio

Com a elevação do tom das críticas, especialmente entre os meses de abril e maio, lideranças e entidades passaram a manifestar publicamente sua solidariedade ao bispo. Uma das cartas foi escrita pelo padre Izidório Batista de Alencar, da Igreja de Salgueiro (PE). “É importante recordar que a Igreja não pode fechar os olhos às dores do povo. (…) É do coração do Evangelho de Jesus Cristo que ecoa o clamor por justiça, dignidade e vida plena para todos, especialmente para os pobres, os esquecidos, os que mais sofrem as consequências das desigualdades”, escreve o padre, destacando a passagem de “João” (10:10), em que Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham vida em abundância”.

“Ao levantar sua voz diante dessas questões, Dom Limacêdo não faz politicagem, como injustamente acusam alguns setores. Antes, ele exerce sua missão de pastor, profeta e discípulo de Jesus de Nazaré, assumindo a responsabilidade de iluminar a realidade social à luz do Evangelho e da doutrina social da Igreja. Silenciar diante das injustiças seria negar a própria essência da missão cristã”, conclui o padre Izidório Batista de Alencar, da Igreja Diocesana de Salgueiro.

A Cáritas Diocesana Regional Nordeste 2 também se manifestou em apoio ao responsável pela diocese de Afogados da Ingazeira. “Defender dignidade, justiça social e melhores condições de vida para trabalhadores e trabalhadoras é compromisso com o Evangelho e com a vida do povo. (…) Dom Limacêdo representa uma Igreja que caminha ao lado dos pobres, das comunidades e das lutas por direitos. Sua voz profética fortalece nossa missão de promover solidariedade, esperança e transformação social”, conclui.

Editado por: Rostand Tiago

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