Apagamento

Endrick, Igor Thiago e o Distrito Federal que insistimos em não ver

Criados em cidades do Entorno, os dois agora são celebrados como representantes do “DF” na Seleção Brasileira

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Os jogadores Endrick e Igor Thiago foram convocados para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo 2026
Os jogadores Endrick e Igor Thiago foram convocados para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo 2026 | Crédito: Rafael Ribeiro / CBF

Os jogadores Endrick e Igor Thiago, do Distrito Federal, ou, mais precisamente, do Distrito Federal que insistimos em não ver. Criados no Entorno, em cidades como Valparaíso de Goiás e Cidade Ocidental, os dois agora são celebrados como representantes do “DF” na Seleção Brasileira. 

A apropriação simbólica é reveladora. Quando o sucesso emerge, a origem é rapidamente absorvida pela centralidade política e midiática da capital. No entanto, quando se trata de políticas públicas, investimentos e reconhecimento institucional, o Entorno volta a ser invisibilizado. Trata-se de um processo clássico de apagamento territorial e social. 

A contradição não é nova. O Entorno do Distrito Federal é hoje uma das regiões que mais cresce no Brasil. Municípios como Águas Lindas e Valparaíso registraram crescimentos populacionais superiores a 40% na última década, muito acima do ritmo do próprio DF. Além disso, a Região Integrada de Desenvolvimento do DF e Entorno (Ride) já se aproxima de 4,8 milhões de habitantes, consolidando-se como uma das áreas metropolitanas que mais crescem no país.

Mas esse crescimento não foi acompanhado por infraestrutura, planejamento urbano ou políticas sociais proporcionais. 

Mobilidade: a reprodução da desigualdade 

A mobilidade urbana é talvez o exemplo mais evidente dessa desigualdade estrutural. Mais de 200 mil moradores do Entorno se deslocam diariamente para o DF, em trajetos longos, caros e precários. 

Para muitos trabalhadores e estudantes, isso significa sair de casa antes das 5h da manhã para conseguir chegar ao destino no horário, uma rotina que evidencia não apenas a precariedade do transporte, mas uma violação concreta do direito à cidade. 
 
Do ponto de vista sociológico, esse cenário confirma a tese de que o modelo urbano de Brasília, planejado, segregado e fortemente dependente do transporte individual, produz e reproduz desigualdades socioespaciais. A periferia (geográfica e política) é condenada à dependência funcional do centro, sem acesso pleno aos benefícios que sustenta. 

Saúde e serviços: dependência estrutural

A precariedade não se limita à mobilidade. No campo da saúde, cerca de 21% dos moradores do Entorno ainda dependem diretamente do sistema público do Distrito Federal para atendimento. 

Esse dado revela um paradoxo: embora residam fora do DF, essas populações continuam integradas funcionalmente à capital. Trabalham no DF, estudam no DF, fazem tratamento no DF, mas não são plenamente consideradas nas políticas públicas do DF. 

Essa dinâmica pode ser interpretada à luz da sociologia urbana como um caso de “metropolização sem governança”. Ou seja, existe uma metrópole real, integrada e funcional, mas sem coordenação política equivalente entre os entes federativos. 

Crescimento sem inclusão

O próprio processo de formação do Entorno ajuda a explicar o problema. A região foi marcada por uma urbanização acelerada e desordenada, impulsionada pela expulsão indireta de populações de baixa renda do Plano Piloto e de áreas valorizadas do DF. 

Esse movimento gerou cidades-dormitório, com baixa oferta de emprego local, infraestrutura incompleta e forte dependência do centro. Embora haja avanços recentes, como maior oferta de serviços locais, ainda existem centenas de milhares de pessoas que precisam se deslocar diariamente para trabalhar fora de seus municípios. 

O resultado é uma periferia metropolitana que cresce rapidamente, mas carrega déficits históricos em saneamento, mobilidade, saúde e oportunidades. 

Apagamento simbólico 

É nesse contexto que a narrativa sobre Endrick e Igor Thiago ganha relevância. Ambos são frutos de um território periférico que sustenta a capital, econômica, social e culturalmente. Ainda assim, suas origens são frequentemente reconfiguradas para caber na identidade do “Distrito Federal”. 

O mesmo já ocorreu em outros campos, como na música, com artistas do Entorno apropriados como produtos culturais de Brasília. Não se trata apenas de erro geográfico, mas de uma operação simbólica: o centro absorve o mérito, enquanto a periferia permanece associada à carência.

Pierre Bourdieu chamaria isso de disputa por capital simbólico, a capacidade de definir quem pertence, quem representa e quem é reconhecido. Já Henri Lefebvre apontaria para a negação do “direito à cidade”: o direito não apenas de acessar, mas de ser reconhecido como parte legítima do espaço urbano. 

Um território indistinguível, e ainda assim desigual 

Hoje, a expansão urbana tornou praticamente impossível distinguir, na prática, onde termina o DF e onde começa o Entorno. A mancha urbana avançou, as fronteiras tornaram-se difusas e as dinâmicas sociais são completamente interdependentes. 

Ainda assim, a desigualdade permanece nítida. 

O Entorno não é apenas periferia geográfica, é periferia política. Cresce mais, recebe menos. Contribui mais, aparece menos. 

Por isso, a pergunta que fica não é de onde vêm Endrick e Igor Thiago. A pergunta é: por que o lugar que os formou só é lembrado quando produz excelência? 

Reconhecer o Entorno não deveria ser um gesto oportunista em momentos de vitória, mas um compromisso permanente de justiça territorial. 

*André Pires é administrador (UnB), comunicador, midiativista e morador do DF.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


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Editado por: Clivia Mesquita

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