Com a operação desta terça-feira (26), o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), foi duas vezes alvo da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero. O foco dessa fase da operação da PF são os investimentos realizados pelo Rioprevidência no Banco Master, responsável por gerir a aposentadoria de mais de 235 mil servidores do estado. A operação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a cientista política Vera Chaia, pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que os desdobramentos vistos nesta terça-feira (26) não surpreendem, mas adicionam uma camada ao escândalo, porque evidenciam um esquema maior.
“A gente já está sabendo que o Cláudio Castro está envolvido em uma série de escândalos políticos. O grande problema não é só o Cláudio Castro, mas a relação dele com a família Bolsonaro. Estamos recebendo uma bomba explodindo no Rio de Janeiro sem qualquer condição de parar essa bomba, de eliminar a bomba. Devem surgir mais casos. Castro foi um deles, mas precisamos lembrar dos vários governadores do Rio que foram presos. Cito Garotinho, Rosinha, Sergio Cabral, Pezão. O Rio de Janeiro é um exemplo extremamente negativo de uso político dos postos políticos para benefício próprio e de grupos políticos. O que estamos vendo agora é o rompimento de todas essas barreiras éticas e uma mistura entre o interesse particular e o interesse público”, afirma.
Chaia destaca que o elemento que adiciona mais gravidade ao episódio é o fato de a investigação apontar suposto desvio de dinheiro do funcionalismo público. “O caso é mais grave ainda porque ele aplicou dinheiro de funcionários públicos do Rio de Janeiro que não tinham conhecimento desse fato em um banco e em notas extremamente complicadas. Essa ligação entre Daniel Vorcaro [dono do Master] e esse grupo político é extremamente complicada.”
Questionada se todo esse contexto pode servir como uma espécie de lição que fomente no eleitorado do Rio a possibilidade de melhores escolhas, Vera Chaia aponta que um esquema de corrupção sistêmica dificulta uma mudança de fato. “Nós estamos vendo as milícias e as organizações criminosas, no caso do Comando Vermelho, muito intrincados com a política do Rio de Janeiro. Ou seja, é mais difícil você pensar numa limpeza da corrupção a partir do momento em que esse movimento represente não só nos políticos, vide o Rodrigo Bacelar, que foi preso e cassado, que era presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e tinha um envolvimento muito grande com o Comando Vermelho. É muito difícil você pensar numa limpeza nesse naipe. Alguns políticos são muito importantes e bons no Rio de Janeiro e assim espero que eles sejam contemplados com o voto do eleitor. Mas existe esse referencial desse envolvimento da milícia e das organizações criminosas no mundo político do Rio, e é importante dizer que não só de lá”, pontua.
A cientista política considera pouco provável que uma CPI se instale na Alerj e aponta o caráter político desse tipo de investigação parlamentar. “Quando aconteceu a eleição indireta do Douglas Ruas [para o lugar do Rodrigo Bacelar], a gente teve uma votação só da situação. A oposição se absteve de votar, porque teriam um comprometimento com essa roubalheira e esses escândalos que acontecem no Rio de Janeiro. É difícil pensar num rearranjo quando a gente fala de uma CPI. A gente sabe que a composição da CPI vai de acordo com interesses políticos. Quem vai ser o relator? Quem vai ser o presidente dessa CPI? Não é alguém que denuncia que vai ocupar essa CPI. O mesmo acontece no Congresso. Não vai haver CPMI [do Master]. Isso mostra o nível dos nossos políticos e da extrema direita que se organizam de tal forma que brecam o avanço das investigações. As investigações só são feitas quando envolvem a situação”, pondera Vera Chaia.
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