Nascida no Quilombo da Caçandoca, em Ubatuba (SP), Eloiza Lourenço é makota do terreiro Ilé Àsé Omo Guian Ati Oya e Aldeia Caboclo Tupinambá. Ela integra a Associação do Movimento Afrodescendente de Ilhabela (Amai), fundada por Noemi Petarnella, que é responsável pelo Museu da Cultura Afro-Brasileira da cidade. A instituição fica na histórica Fazenda Engenho d’Água, um marco educativo que resgata a presença africana no Brasil.
Com uma trajetória marcada pela luta por território, resistência e preservação da memória ancestral, a ekedi mais velha também exerce o cargo de diretora de Patrimônio Histórico e Cultural de Ilhabela, mobilizando casas de matriz africana e demais comunidades tradicionais do litoral.
No Dia de Iemanjá, a rainha do mar aqui no Brasil, Eloiza esteve à frente da organização de uma grande festa. Realizada desde a década de 1970, a Festa de Iemanjá de Ilhabela consolidou-se como uma das principais celebrações religiosas e culturais da região, integrando o calendário oficial do município.
Em 2 de fevereiro de 2026, o terreno da Fazenda Engenho d’Água foi palco de um grande xirê que reuniu vários terreiros da cidade. A festividade terminou na praia em frente ao prédio histórico, onde dezenas de devotos da orixá enfrentaram uma chuva que não deu trégua e ventos fortes para entregar balaios com flores, frutas e outros objetos sagrados aos pés de Iemanjá, no mar.
Para o candomblé e a umbanda, religiões brasileiras de matriz africana, a chuva é sagrada. Conhecida como a mais velha das divindades, Nanã Buruquê é a senhora das águas paradas, dos pântanos e da lama. A chuva é regida por ela, que faz a água cair do céu, umedecendo a terra e dando origem à vida. Naquele 2 de fevereiro, ekedi Eloiza e todos os presentes foram agraciados pelo mar de Iemanjá e pela chuva de Nanã, inclusive a reportagem do Brasil de Fato.

Viajamos até Ilhabela para documentar a Festa de Iemanjá e a história de ekedi Eloiza, que dão o tom ao quinto e último episódio da série documental “Terreiros Urbanos em São Paulo”, do Brasil de Fato.
A série está disponível no YouTube do BdF e aborda o cotidiano de lideranças que, entre a periferia, o interior e o litoral do estado de São Paulo, mostram que o terreiro é, antes de tudo, um centro estratégico de tecnologia social, acolhimento e produção de saber.
Confira os principais trechos da entrevista:
Brasil de Fato: Qual é o seu cargo dentro do terreiro?
Ekedi Eloiza: Sou makota. Makota é a pessoa mais velha da minha função de ekedi; é só um nome que se dá, né? Ekedi, de modo geral, é o braço direito da mãe de santo ou do pai de santo. É quem ajuda a conduzir, a organizar. Tem várias ekedis divididas. Ninguém fica cansado, cada um faz um pouco. Não é só essa a função da ekedi, a gente também tem a obrigação de tomar conta do terreiro quando a mãe dorme. Quando a gente fala que a mãe dorme, é quando ela incorpora a energia da entidade, do orixá.
Se precisar que eu auxilie, quando vem alguém para a consulta, dou banho no consulente, vejo que folha tem que pegar… Eu vou lá, pego essa folha e explico como é que tem que rezar, como é que tem que tomar o banho. Então, a função da ekedi é isso, é administrativa, mas é uma administrativa dentro do espiritual. A gente administra dentro do espiritual todo o terreiro.
Como o Museu da Cultura Afro-Brasileira de Ilhabela nasceu?
A dona Noemi queria fazer um espaço para contemplar as histórias aqui da nossa Ilhabela, das pessoas ancestrais da cidade e também do país. E ela montou uma galeria na época, com o pessoal do Movimento Negro e comigo. Aí eu falei: “Dona Noemi, por que a gente não faz o museu?”. Cheguei para o prefeito da época e conversei, fui checar com o secretário.
E aí, a gente foi montando um museu, ligamos para um, para outro e montamos o espaço. E, agora, o Museu Nacional está pedindo que, para a gente ampliar, temos que entrar nas regras. Isso é, para poder entrar como museu. A gente conseguiu catalogar como o primeiro daqui da nossa região e segundo do estado de São Paulo, mas tem umas regras para cumprir, então a gente vai fazer outros núcleos. Tudo por partes. Vai ser um conjunto, a fazenda inteira vai ser um conjunto de histórias de todo mundo que passou ali e todo mundo que trabalhou no engenho. A história de todo mundo, desde os caiçaras, indígenas, africanos… vai contar um pouco de cada um.
E, agora, eu entrei em um outro plano espiritual e carnal, dentro da questão de terreiro, e trabalho como diretora de patrimônio. Eu entrei já pensando em como fazer essa estrutura e as pessoas entenderem sobre o afroturismo, porque tem várias coisas dentro do município para a questão turística. Assim como tem em São Sebastião, Caraguatatuba, Ubatuba, Bertioga.

O chamariz é sempre a praia, porém, hoje em dia, a gente sabe que as pessoas estão procurando outras praias também. Então, não dá mais para fazer venda turística de praia. Precisa de conteúdo. E a Festa de Iemanjá é um conteúdo cultural e um conteúdo turístico, não só religioso, né?
Então, eu estou indo para esse lado do meu trabalho, comecei a pensar que, se a gente não juntar todo mundo… Falei para o pessoal: “Vocês podem fazer um final de semana inteiro de dança, de apresentações, trazer gente de fora. Mas vocês precisam entender que vocês fazem parte disso. É turístico, cultural, artístico, e vocês fazem parte. Não é só religioso”.
Qual é o papel social do terreiro na comunidade onde ele está inserido?
Eu comecei a observar, não só no meu terreiro, mas nos outros terreiros também, como eu ando por eles e faço um trabalho político e social, como tem mães solo. Eu ando pelos outros terreiros não para a incorporação, mas para visita, para conversar. E eu observo que tem muitas mães solo, muitas mesmo. E eu vejo também que os meninos, filhos dessas mães, começam a crescer e o orixá é o pai deles. Esses filhos que são de mães solo têm essa ligação com o orixá, não fazem nem questão de ter o pai biológico.
Vejo muitas mulheres abusadas também, e o terreiro tem esse acolhimento. Você tem o direito de fala. Nas igrejas, você não tem esse direito, é vergonhoso. No terreiro, não, você consegue falar sobre isso. No terreiro, a cada semana vem morar uma pessoa aqui. Às vezes, o aluguel atrasa, não tem como pagar, então, aqui vira casa. Se tem gira, põe a cama para dentro, depois monta de novo. E por aí vai.
A gente precisa de pessoas que invistam, que cheguem aqui e falem: “Vamos investir em um terreiro igual investimos nas outras religiões”. Porque a gente quer muito fazer os projetos sociais que fazemos com os nossos filhos. A gente quer fazer para as crianças da comunidade. Trazer aula de capoeira para elas, ensinar sobre a comida africana, que é deliciosa, sobre o linguajar dos ancestrais. Viemos de uma tradição de povos que sofreram muito, eles têm que ser respeitados.
“Terreiros Urbanos em São Paulo” é uma produção do CPMídias e Brasil de Fato, com realização da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo.
