Lagoa Seca será palco, entre os dias 29, 30 e 31 de maio, do 4º Encontro Estadual de Lideranças Negras(os) da Paraíba, que terá como eixo central o debate sobre reparação econômica e justiça racial. Realizado no Centro de Formação Elizabeth e Joao Pedro Teixeira, o evento, coordenado por Marli Soares, reunirá lideranças comunitárias, movimentos sociais, pesquisadores e gestores públicos para discutir a dívida histórica do Estado brasileiro com a população negra e a necessidade de políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades estruturais ainda presentes no país.

“Nosso objetivo é criar um espaço de diálogo profundo sobre a reparação econômica, considerando que a abolição da escravidão foi decretada sem políticas de inclusão social e compensação financeira”, explica Marli Soares, coordenadora do evento. “Precisamos reconhecer que a ausência dessas medidas contribuiu para o racismo estrutural que ainda persiste em nossas cidades, bairros e instituições.”
Propostas de políticas públicas e justiça racial
Durante o encontro, serão debatidas ações afirmativas, incentivo ao empreendedorismo negro, acesso a crédito e desenvolvimento territorial. Representantes de organizações como a União de Negros pela Igualdade, a Frente de Mulheres Negras da Paraíba e o Conselho Estadual de Igualdade Racial reforçam a importância de políticas públicas voltadas à equidade.
“O fortalecimento dessas iniciativas não é apenas uma questão de justiça histórica, mas uma estratégia fundamental para o desenvolvimento sustentável de nossas comunidades”, afirma João Carlos da Silva, pesquisador em políticas públicas. “É um chamado para que sociedade civil e governo atuem de forma coordenada e efetiva na promoção da igualdade racial.”
“Estamos preparando mesas temáticas que abordarão desde o impacto socioeconômico da escravidão até propostas concretas de empreendedorismo e crédito para populações negras”, comenta Ana Paula Mendes, representante da Frente de Mulheres Negras. “Queremos gerar resultados práticos, não apenas debates acadêmicos.”
Unidade, homens e mulheres negros
“Bom, o quarto encontro de lideranças negras, ele tem, de fato, um dos principais propósitos do nosso movimento, né? Porque nós passamos, durante muitos anos, após a morte de Balula, por um movimento parado, um movimento sem nenhuma perspectiva, embora existisse um grupo de mulheres negras, mas estava faltando a ideia da unidade, homens e mulheres negros juntos por uma única luta.”
Marli afirma que a construção do encontro nasceu da necessidade de fortalecer a articulação entre lideranças do sertão, litoral e regiões metropolitanas. Ela relembra que, a partir de 2019, o movimento passou a identificar a urgência de ampliar sua organização política.
“Em 2019, surgiu um dos maiores desafios para o nosso povo negro, né? Para mostrar, de fato, que nós não temos medo de morrer, porque eles estão preparados para nos matar, mas a gente teve que mostrar que nós temos força, temos lutas, temos armas, né, para não morrer.”
A coordenadora também destaca que o encontro tem como eixo central a reparação econômica, entendida como uma pauta histórica ligada aos efeitos da escravidão e da ausência de políticas públicas efetivas após a abolição.
“Estamos fazendo um encontro, como se diz, uma reparação, né? É uma reparação, quando colocamos como principal tema, é uma reparação econômica. Buscamos uma reparação econômica. Essa reparação, na verdade, é desde, ou até muito mesmo, antes da abolição da escravidão.”
Um verdadeiro quilombo
O evento ocorrerá em Lagoa Seca, no Centro de Formação Elizabeth e Joao Pedro Teixeira, local escolhido, segundo Marli, por sua posição estratégica e pela possibilidade de reunir os participantes em um espaço voltado ao debate, à formação e à convivência coletiva.
“Esse encontro, na verdade, escolhemos Lagoa Seca por ser mais um local estratégico, onde a gente possa se concentrar nos debates, porque, na verdade, vai ser um verdadeiro quilombo. A gente tem que reconhecer que essa dívida que foi deixada precisa ser paga.”
A programação começa no dia 29, a partir das 16h, com abertura e debate sobre reparação econômica. Também estão previstas mesas de discussão, homenagem com plantio do Ibaobá, arco cultural com artistas de Campina Grande e uma mesa de incidência política no domingo. De acordo com Marli, o encontro conta com cerca de 80 inscritos, incluindo participantes de diferentes cidades da Paraíba.
Entidades apoiadoras e patrocinadores
O evento conta com o apoio da Marcha da Negritude Unificada da Paraíba, MST, União de Negros pela Igualdade, Frente de Mulheres Negras da Paraíba, Conselho Estadual de Igualdade Racial, Secretaria de Estado da Educação, e patrocínio do Governo da Paraíba e de empresas privadas engajadas na responsabilidade social. “A participação de cada entidade é fundamental para consolidar a reparação econômica como prioridade política”, reforça Marli Soares.
Medidas estruturais ainda são insuficientes
A reparação econômica à população negra é tema recorrente no Brasil, em debate desde a abolição em 1888. Segundo o IBGE (2023), negros e pardos representam mais de 55% da população, mas ainda enfrentam desigualdade em renda, educação e oportunidades de trabalho formal. Iniciativas de reparação econômica, como cotas raciais em universidades e políticas de fomento ao empreendedorismo negro, são consideradas instrumentos de equidade, mas especialistas alertam que medidas estruturais ainda são insuficientes para reduzir a lacuna histórica.


