A cidade de São Paulo recebe a 15ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema 2026, considerado um dos principais eventos audiovisuais da América do Sul dedicado a debates socioambientais contemporâneos. O festival oferece uma programação totalmente gratuita em 28 salas da capital paulista, incluindo Reserva Cultural, Centro Cultural São Paulo e mais 26 espaços do Circuito Spcine. Ao todo, serão exibidas 104 produções de 27 países, trazendo um panorama denso de reflexões críticas.
A ocupação cultural deste ano aposta fortemente no protagonismo das mulheres atrás das câmeras. De acordo com a organização do evento, são dirigidas ou codirigidas por cineastas mulheres 59 das obras selecionadas, o que representa 56% do total da grade de exibições. O festival busca promover o cinema como um espaço de engajamento, conectando a crise ecológica global com as suas profundas implicações sociais.
A grande homenageada desta edição é a produtora paulista Zita Carvalhosa, falecida em 2025, nome de imensa relevância para o audiovisual brasileiro e para o “Cinema Verde”. Zita assinou a produção executiva de 59 séries, longas e curtas-metragens, além de ter comandado o icônico Festival Kinoforum. A Mostra resgata seis de suas principais produções de temática socioambiental, incluindo os premiados longas “O Cineasta da Selva” e “Carvão”.
Para além da homenagem histórica, a programação internacional contemporânea traz títulos de grande impacto que contam com a produção executiva de celebridades do cinema mundial. O ator Leonardo DiCaprio integra a equipe de produção de “O Grande Lago Salgado”, documentário que retrata o colapso ambiental em Utah. Já o aclamado diretor Ang Lee é um dos responsáveis por “À Deriva: 76 Dias Perdido no Mar”, que reconta a saga de sobrevivência de um velejador no Atlântico.
No plano da produção nacional, um total de 51 títulos brasileiros recentes foram selecionados para integrar as mostras competitivas do festival. O levantamento mapeia o cinema feito em todas as regiões do país, representando o Distrito Federal e mais 19 Estados. Essas obras dividem-se em diferentes categorias de premiação técnica e voto popular.
O principal eixo competitivo nacional é a mostra “Territórios e Memória”, voltada a curtas e longas-metragens que debatem de forma explícita as questões sociais e ambientais do Brasil. Para esta categoria, a curadoria selecionou 12 longas e 19 curtas.
O estímulo às novas gerações de realizadores ganha fôlego com o “Concurso Curta Ecofalante”, uma competição exclusiva voltada para obras audiovisuais produzidas por estudantes do ensino superior, técnico, livre ou médio. Nesta edição de 2026, foram selecionados 20 títulos de dez estados diferentes. Os filmes de estudantes pautam temas relacionados aos direitos humanos, como questões étnico-raciais, moradia digna, ativismo LGBT+ e a defesa de terras tradicionais.
O festival também promove o resgate da memória cinematográfica por meio de seu Panorama Histórico, que este ano é dedicado ao Flaherty Film Seminar, iniciativa sediada em Nova York que é referência mundial para o documentário independente. Intitulada “The Flaherty Way e os Contra-cinemas”, a retrospectiva exibe cinco obras icônicas que desafiaram a estética dominante, como o clássico “Nanook, o Esquimó” e o documentário premiado com o Oscar “Harlan County: Tragédia Americana”.
A educação e a formação de novas plateias completam as frentes de atuação da Mostra por meio do programa “Ecofalante Educação”. Realizada de forma permanente, a iniciativa integra cinema e cidadania nas escolas e universidades, contando com exibições em unidades dos Centros Educacionais Unificados (CEUs) e espaços da rede pública. Em 2026, o programa exibe 12 produções, incluindo uma mostra especial voltada à reciclagem intitulada “Narrativas do Clima: Caminhos para o Lixo Zero”.
Destaques da programação
Quinta-feira, 28 de maio
Mesa “Emergência Climática & Crise Ambiental”: Às 21h, o físico Paulo Artaxo (USP), a pesquisadora Érika Pires Ramos (Resama) e o climatologista José Antonio Marengo (Cemaden) discutem os impactos do colapso ecológico. A atividade ocorre logo após a projeção do documentário espanhol “Bangladesh Submersa”, de Natxo Leuza, marcado para às 19h30.
Sexta-feira, 29 de maio
Mesa “Colonialismo, Território e Povos Originários”: Às 21h, a cineasta Cristina Llumipanta, a antropóloga Majoí Fávero Góngora e o historiador Paulo Henrique Martinez debatem a expropriação predatória de terras. A sessão prévia, às 19h, exibe “Nossa Terra”, longa de Lucrecia Martel sobre a resistência da comunidade Chuschagasta.
Segunda-feira, 1º de junho
Mesa “Oriente Médio: Conflitos, Guerra e Memória”: Às 20h30, a professora Safa Jubran (USP), o cientista político Reginaldo Mattar Nasser (PUC-SP) e a pesquisadora Mariana Duccini analisam o arquivo como instrumento de resistência política. Antes, às 19h15, é exibido “Você Me Ama”, da cineasta Lana Daher, sobre a memória audiovisual do Líbano.
Terça-feira, 2 de junho
Mesa “Democracia, Ética e Justiça”: Organizada em parceria com a Anistia Internacional Brasil, a mesa das 21h reúne a ativista indígena Txai Suruí, a médica Jurema Werneck e a quilombola Selma Dealdina. Às 19h45, a tela recebe “O Silêncio da Terra”, de Frank Gutiérrez, focado no assassinato de defensores ambientais latino-americanos.
Quarta-feira, 3 de junho
Mesa “Palestina: Apagamentos e Resistências”: Às 21h, a jornalista Soraya Misleh, o professor Salem Nasser (FGV) e o cineasta Carlos Adriano debatem a preservação da memória contra o genocídio. A exibição das 19h30 traz “Partition”, de Diana Allan, que cruza arquivos coloniais com áudios de refugiados.
Quinta-feira, 4 de junho
Mesa “Feminismos, Corpo e Lutas de Gênero”: Às 19h30, as pesquisadoras Karla Bessa (Unicamp), Mariana Delfini e Daniela Auad (UFSCar) debatem o corpo como experiência política. A sessão das 18h apresenta “Escrevendo a Vida – Annie Ernaux pelos Olhos dos Estudantes”, documentário de Claire Simon.
Sexta-feira, 5 de junho
Mesa “Vidas Exaustas: solidão, trabalho e a reconstrução do comum”: O encerramento do ciclo de debates, às 20h30, reúne o psicólogo Tales Ab’Saber, a socióloga Ludmila Costhek Abílio e a médica Maria Maeno. O gancho visual é o longa dinamarquês “Querido Amanhã”, de Kaspar Astrup Schröder, projetado às 19h.
