O sol ardia quando Ifi saiu para buscar água no riacho perto de sua casa. Os pés inchados e as dores nas costas anunciavam que o dia do parto se aproximava. Ela exibia um corpo esbelto coberto com um belíssimo tecido de estampa vermelha e fundo amarelo.
Ao aproximar-se do riacho, pegou o pote de barro que trazia na cabeça e o encheu com água. Levantou-se como quem pudesse fazer pouco esforço, colocou o pote na cabeça e seguiu de volta para sua tabanca. As dores aumentavam, mas ela sabia que ainda não era tempo e o fruto da sua cabeça-ventre não deveria vir ao mundo ainda.
O dia passou ensolarado e, com a chegada da noite, a lua cheia despontava no horizonte. Ifi lembrou do que diziam as mais velhas de sua tabanca: “Em noite de lua cheia as crianças se precipitavam em vir ao mundo”. Ela sentiu as dores aumentarem. Era como se a criança quisesse atender aos ditos das mais velhas e ela pediu apoio a mais velha da sua tabanca.
A mulher anciã chegou perto de Ifi. Ela a examinou com a experiência de muitos anos e muitas crianças trazidas ao mundo e acenou para Ifi: era chegada a hora. Com o apoio de outras mulheres experientes na arte de trazer novas vidas ao mundo, iniciou o momento de Ifi trazer aquela criança ao mundo.
As dores eram fortes, Ifi se contorcia e gritava. As mulheres a seguravam, e ela agachada fazia forças, mas já estava exausta quando a anciã lhe disse que já avistava a cabeça da criança e pediu para ela fazer mais força.
Naquele último esforço, Ifi sentiu sair do seu corpo aquela nova vida. A anciã amparou a criança, cortou-lhe o cordão umbilical e o colocou nos braços de Ifi. Ela sentiu uma alegria e já esquecera das dores que sentia. Ela olhou bem para aquela criança em seus braços e lhe deu o nome de Kwame. Aquele era o primeiro filho de Ifi e ela se alegrou profundamente.
O menino crescia forte e gracioso. Era querido por todos da tabanca. Kwame era inteligente e aprendia rapidamente os ensinamentos dos mais velhos. Ifi o ensinava a ser gentil e educado, principalmente com os mais velhos. Ifi admirava seu menino que crescia forte. Ela adorava trançar seus cabelos e enfeitá-los com pequenas conchinhas de mar e búzios.
Kwame se tornou um rapaz respeitado por todos de sua tabanca. Era inteligente e ávido. Aprendera não apenas as línguas de seu povo, mas também a língua dos brancos que habitavam sua terra e isso orgulhou sua mãe que sempre que necessário se fazia valer do aprendizado do filho.
Mas, o coração de mãe de Ifi sabia que chegaria um momento em que Kwame deixaria aquela tabanca. Ele queria aprender mais do mundo que existia além do seu território ancestral.
Até que um dia enquanto trançava o cabelo do filho, ele lhe disse que tinha ouvido outros jovens falarem sobre continuar seus estudos para além da escola da tabanca. Ifi sentiu um arrepio na base da coluna. O dia chegou e ela não poderia deter seu filho e apenas lhe disse que o que ele decidisse, ela apoiaria.
O jovem agradeceu à mãe e disse que iria se informar com um grupo de rapazes que tinha voltado para a tabanca depois de anos estudando fora. Ifi continuou trançando o cabelo do filho e enfeitando com búzios. Kwame estava feliz e foi conversar com os colegas sobre a possibilidade de estudar fora e os jovens falaram de estudar do outro lado do oceano.
Kwame havia aprendido na escola da tabanca que haviam lugares além da sua querida terra. E logo se interessou em saber como estudaria do outro lado do Atlântico. Os rapazes lhe deram as instruções e disseram que lhe ajudariam com a inscrição e documentos. Kwame voltou para casa muito feliz falando para mãe sobre seus planos para o futuro. A mãe escutava enquanto seu coração de mãe disparava no peito pela preocupação com seu único menino atravessando o oceano para estudar em uma terra tão distante.
Mas, ela apoiaria o filho em qualquer que fosse seu objetivo. Afinal, Kwame estava crescido e, dos tempos de menino, ele mantivera apenas o hábito de que ela trançasse seu cabelo e o enfeitasse com búzios.
Finalmente chegou o dia em que Kwame deixaria sua tabanca para atravessar o imenso oceano para estudar. A mãe estava apreensiva. Ela havia dado orientações ao filho e explicou a ele como se portar no novo lar enquanto trançava seu cabelo. O filho atento ouvia a mãe e dizia que seguiria todos os ensinamentos que ela lhe deu ao longo da vida. Ifi viu seu filho partir para o outro lado do oceano e não conteve as lágrimas. Não sabia se ele um dia retornaria a sua tabanca.
*De acordo com Vitorino, este conto “evoca a rica tradição do pan-africanismo e as vivências do Atlântico Negro. Com os seguintes enfoques: ficção histórica e memória: ambientada no século 21, focando na luta anticolonial. Diáspora e identidade: falando das angústias e superações da travessia oceânica como metáfora para o pertencimento. Conceito de escrevivência: narra a jornada por meio da voz e da ótica afrodiaspórica, construindo uma literatura baseada nas dinâmicas de diferentes sociedades africanas.”
**Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.
***A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
