A divulgação nesta semana de indicadores macroeconômicos e sociais recolocou o Brasil sob os holofotes do debate sobre o desenvolvimento. Embora as recentes projeções apontem para a consolidação do país no ranking das dez maiores economias do mundo, o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), adverte que é preciso cautela ao interpretar esses dados isoladamente.
Segundo ele, a importância relativa da economia brasileira dentro do chamado Sul Global sofreu uma forte retração estrutural nas últimas décadas, especialmente quando comparada ao avanço avassalador da China e da Índia.
Para compreender o tamanho desse recuo, Oreiro resgata o panorama de 1980, ano que marcou o último ciclo de crescimento acelerado do país. Naquela época, a soma dos Produtos Internos Brutos (PIBs) da China e da Índia não superava o tamanho da economia brasileira isolada. Atualmente, contudo, a realidade dentro do bloco dos Brics se inverteu: o Brasil ocupa a quarta colocação econômica entre os membros fundadores. A depender do critério de conversão — dólares correntes ou paridade de poder de compra —, a produção nacional é expressivamente menor que a chinesa e a indiana, equivalendo-se, mas podendo ser ligeiramente menor ou até um pouco maior que a da Rússia.
Essa perda de espaço faz com que o país não usufrua do mesmo peso político e econômico que detinha, por exemplo, na década de 1990, quando seu PIB ainda superava o indiano. Apesar do enfraquecimento relativo no bloco em desenvolvimento, o cenário internacional desenhou novas brechas estratégicas para a diplomacia e a economia brasileiras, à medida que o chamado Norte Global racha por dentro. De acordo com o professor da UnB, o Norte Global deixou de ser uma categoria política coerente — embora ele ressalte que um ente unificado nunca tenha existido de fato. Essa ruptura foi catalisada diretamente pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos.
As ações unilaterais de Washington acabaram por redesenhar as relações multilaterais mundiais. O monitoramento dessa conjuntura indica que as decisões de blocos e nações desenvolvidas estão cada vez mais distantes.
Houve um desmonte multilateral com o governo de Donald Trump, que acabou por dinamitar organismos de concerto internacional fundamentais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
Os interesses geopolíticos e de mercado dos Estados Unidos e da União Europeia tornaram-se claramente divergentes no cenário contemporâneo e a falta de alinhamento mútuo entre as potências do Norte acabou servindo de alavanca para acelerar processos que antes eram travados, como o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.
Do outro lado, diante da divisão clara entre os EUA, de um lado, e o bloco formado por União Europeia, Japão e Coreia do Sul, do outro, o Brasil ganha margem para arbitrar entre essas sub-regiões de acordo com seus interesses nacionais.
Paralelamente ao rearranjo geopolítico, o debate econômico internacional se debruça sobre as metodologias de aferição da riqueza das nações. José Luis Oreiro pontua que existem duas formas clássicas de mensurar o PIB: por dólares correntes ou por paridade de poder de compra (PPC). A escolha do indexador altera profundamente as posições dos países nos rankings globais. Sob o critério de dólares correntes, os Estados Unidos permanecem na liderança isolada, seguidos pela China. No entanto, quando aplicada a metodologia de paridade de poder de compra, o país asiático assume a primeira posição do planeta.
Essa divergência técnica alimenta um rico debate contemporâneo entre economistas de renome internacional, exemplificado pela disputa recente entre os acadêmicos Paul Krugman e Philippe Aghion sobre a mensuração exata da produtividade na União Europeia em relação aos Estados Unidos. A lógica por trás da paridade de poder de compra baseia-se no fato de que, conforme a renda de um país se eleva, cresce a demanda interna por serviços, que são bens não transacionáveis internacionalmente. Isso leva a um aumento inevitável do preço dos serviços locais.
Oreiro ilustra a distorção cambial de maneira didática ao comparar o custo de vida cotidiano: o preço cobrado por um café expresso na Suíça é muito mais alto do que o valor do mesmo produto em uma cafeteria de Brasília. A renda per capita mais alta da Suíça encarece os serviços locais, o que exige o uso do cálculo por PPC para corrigir as assimetrias no poder de compra real da população. No entanto, para fins de projeção de poder internacional e soberania, os dólares correntes mantêm uma importância central, sendo a métrica que mede, por exemplo, a capacidade de financiamento de indústrias de defesa e do poder militar de uma nação.
Mesmo diante das complexidades metodológicas que dividem a academia, o professor da UnB enfatiza que o Brasil encontra-se muito bem posicionado e resiliente em ambos os critérios de avaliação. O avanço recente demonstrado pela atividade nacional marca uma retomada consistente após um longo período de oito anos de estagnação econômica vivido entre 2014 e 2022. Para Oreiro, o retorno do país ao grupo das dez maiores economias do mundo funciona como uma importante credencial de “soft power” em fóruns multilaterais, provando que o país recuperou relevância e está oficialmente de volta ao jogo internacional.
