DEBATE CLIMÁTICO

Do trauma à resistência: Porto Alegre sediará primeira edição da Semana do Clima

Evento reunirá organizações sociais, universidades, gestores públicos e representantes da COP30

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Evento acontece entre os dias 20 e 26 de julho
Evento acontece entre os dias 20 e 26 de julho | Crédito: Janaína Kalsing/Themis/Divulgação

Dois anos após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, deixando 185 mortos, milhares de pessoas desalojadas e transformaram a vida de centenas de milhares de famílias, Porto Alegre receberá, entre os dias 20 e 26 de julho, a primeira edição da Semana do Clima. O evento reunirá debates e atividades voltadas à construção de soluções diante da emergência climática, abordando temas como direitos humanos, igualdade de gênero, resiliência urbana, segurança alimentar, cooperativismo e cadeias produtivas sustentáveis.

O lançamento oficial da programação ocorreu nesta quinta-feira (28), no Multipalco Eva Sopher, do Theatro São Pedro, com a presença do presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago. A atividade foi conduzida pelas enviadas especiais da COP30 Denise Dora e Jurema Werneck, reunindo autoridades, pesquisadores, representantes de movimentos sociais e organizações da sociedade civil.

Após a cerimônia, o embaixador visitou a Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde conheceu a exposição “Arpilleras: memória e resistência na crise climática”. A mostra reúne bordados produzidos por mulheres atingidas por barragens e eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul e em outros estados brasileiros, integrando as atividades que marcam os dois anos das enchentes de maio de 2024.

Mais de 30 entidades participam da organização da Semana do Clima, entre elas Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, Anistia Internacional, Instituto Preservar, Cáritas Internacional, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Elas pelo Clima e cozinhas solidárias.

‘Capital gaúcha viveu concretamente os efeitos da mudança climática’

A advogada Denise Dora, enviada especial da COP30 para direitos humanos e transição justa, e conselheira diretora da Themis, destacou que a Semana do Clima nasce da necessidade de conectar a experiência vivida pelo Rio Grande do Sul ao debate climático internacional. “A Semana do Clima de Porto Alegre responde a duas questões: uma bem local e uma global.”

Segundo ela, o Rio Grande do Sul experimentou de forma concreta os impactos da emergência climática nos últimos anos. “Localmente, a gente viveu, experimentou o efeito das mudanças climáticas. Uma grande emergência climática em 2024, mas também em 2023. Então nós somos uma população que tem uma experiência muito concreta dos efeitos da mudança climática, do aquecimento do planeta, de como isso pode ser devastador na vida das pessoas.”

Dora destacou que o evento busca aproximar o debate global das experiências locais vividas pela população gaúcha. “É importante que o debate global encontre a experiência local de Porto Alegre. Tanto nós coletivamente temos para oferecer para o mundo muitas soluções que foram pensadas e vividas aqui, como a gente precisa que esse debate global aterrize em Porto Alegre, nos mostrando novas soluções, novos caminhos e novas formas de fazer adaptação climática.”

Ela lembrou que as enchentes seguem presentes na memória da população atingida. “As chuvas começaram em Porto Alegre no dia 3 de maio e nunca mais pararam. A impressão que a gente tinha era de um chuveiro aberto permanentemente.” Segundo a conselheira, milhares de famílias ainda convivem com perdas irreparáveis. “Muitas pessoas não voltaram para suas casas ainda, nunca mais vão conseguir ter as suas fotos de família.”

Conforme pontuou a advogada, as enchentes agravaram desigualdades sociais já existentes. “As pessoas que majoritariamente perderam suas casas são as pessoas da periferia. Pequenos negócios nunca mais conseguiram remontar suas atividades.” Para ela, a agenda climática precisa ser pensada junto à agenda de direitos humanos.

Ao falar sobre os dois anos das enchentes, Dora afirmou que a principal lição deixada pela tragédia é a urgência da preparação preventiva. Ela alertou que, sem planejamento e medidas estruturais, novas tragédias poderão provocar novamente mortes, desaparecimentos e perdas materiais. “Ou a gente senta e pensa quais são as medidas que a gente tem que tomar do ponto de vista da sociedade, dos municípios, das câmaras municipais, da Assembleia Legislativa e do governo do Estado, ou a gente vai ser pega de novo de surpresa.”

‘A mudança do clima, de certa forma, está orientando o que há de mais avançado na política moderna’, ressaltou André Corrêa do Lago  | Crédito: Janaína Kalsing/Themis

‘Porto Alegre virou símbolo da adaptação’, diz presidente da COP30

Durante sua fala e também em entrevista à imprensa, o embaixador da COP30, André Corrêa do Lago, destacou a urgência das ações climáticas e defendeu o papel da ciência e da cooperação internacional no enfrentamento da crise ambiental. “Nós acreditamos em ciência e sabemos hoje que temos relativamente pouco tempo para combater aquilo que está afetando de maneira muito significativa a mudança do clima.”

Ao contextualizar os desafios atuais, o embaixador relembrou o acordo internacional que enfrentou o buraco na camada de ozônio, apontando o episódio como exemplo de articulação internacional baseada em evidências científicas. “Um bando de países se juntou, diplomatas trabalharam juntos, encontraram mecanismos de financiamento e transferência de tecnologia. E o fato incrível é que, em 25 anos, o buraco da camada de ozônio começou a diminuir.”

Conforme pontuou o embaixador, o combate à crise climática é mais complexo porque envolve toda a estrutura econômica global baseada em combustíveis fósseis, responsáveis por mais de 75% das emissões de gases de efeito estufa.

Mesmo diante da lentidão das negociações internacionais, Corrêa do Lago afirmou que houve avanços importantes, especialmente na compreensão sobre a necessidade de combinar mitigação, redução das emissões, com adaptação das cidades e infraestruturas aos impactos já em curso.

Em entrevista, o embaixador afirmou que a capital gaúcha passou a ocupar um lugar de referência internacional no debate climático. Ele destacou que a tragédia vivida no estado evidenciou a importância da infraestrutura urbana preparada para eventos extremos. “O caso de Porto Alegre mostra a diferença que faz a infraestrutura prever essa alteração da mudança do clima, que está provocando desastres na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil. Porto Alegre virou um símbolo dessa dimensão da adaptação.”

Corrêa do Lago também ressaltou o processo de solidariedade construído pela população gaúcha durante a tragédia. Conforme apontou, Porto Alegre é um símbolo de uma cidade que foi castigada pela mudança do clima, mas também uma cidade associada à resiliência e ao elo de solidariedade criado pela população.

Para o embaixador, as cidades precisarão incorporar cada vez mais a crise climática em seus planejamentos financeiros e urbanos. “Os governos das cidades precisam do apoio das populações e, infelizmente, foi uma tragédia como a que aconteceu aqui que fez com que a população agora esteja plenamente consciente da importância de incorporar as ameaças da mudança do clima em todas as obras públicas.”

O presidente da COP30 destacou que as semanas climáticas buscam aproximar os debates internacionais da população. “A ideia é aproximar o tema da população. Se são os governos que negociam as grandes decisões das COPs, são, na verdade, as cidades que são muito responsáveis por implementar aquilo que é decidido pelos governos centrais.”

Ao ser questionado sobre quais caminhos podem ser adotados pela sociedade, o embaixador afirmou que a participação popular também passa pelas escolhas políticas. “Primeiro, votando naqueles que estão incorporando o combate à mudança do clima em seus projetos de governo.” Segundo ele, a crise climática também está orientando os rumos da inovação tecnológica e da política internacional. “A mudança do clima, de certa forma, está orientando o que há de mais avançado na política moderna.”

‘As chuvas começaram em Porto Alegre no dia 3 de maio e nunca mais pararam’, pontuou Denise Dora | Crédito: Janaína Kalsing/Themis

‘Agora precisamos implementar’

Presidente do Instituto Pro-Natura, Marcelo Andrade afirmou que Porto Alegre simboliza um novo momento da agenda climática internacional, voltado não apenas aos debates, mas à implementação concreta de soluções. Segundo ele, a experiência da capital gaúcha após as enchentes de 2024 faz da cidade uma referência mundial em resiliência. “Porto Alegre tem muito a contribuir com o conceito de resiliência para o mundo. Porque as pessoas aprendem com exemplos.”

Andrade explicou que a Semana do Clima de Porto Alegre faz parte de uma rede internacional de semanas de ação climática articuladas em diferentes países. “A experiência foi tão bem-sucedida que agora estamos expandindo para o Brasil. E Porto Alegre é essa representação.”

Ele destacou que o diferencial das semanas de ação climática é aproximar conhecimento técnico, financiamento e capacidade de execução. “Falamos muito. Agora precisamos implementar.” Em sua avaliação , o Brasil vive um momento estratégico para transformar conhecimento acumulado em políticas concretas de adaptação e transição ecológica.“Já temos tecnologia, já sabemos fazer, já temos capital.”

‘A tragédia demonstrou como o racismo torna cidades vulneráveis’

Diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil e enviada especial da COP30 para igualdade racial, Jurema Werneck afirmou que as enchentes no Rio Grande do Sul escancararam desigualdades estruturais históricas. “A tragédia no Rio Grande do Sul demonstrou exponencialmente como não enfrentar o racismo torna cidade, estado e país extremamente vulneráveis.”

Segundo ela, populações negras e indígenas seguem pagando o preço mais alto pela tragédia climática. “As populações negras e indígenas pagaram e pagam até agora o preço mais alto pelo que aconteceu.” Werneck também chamou atenção para o impacto sobre a população idosa. Ela lembrou que muitos idosos morreram sem conseguir deixar suas casas durante a subida das águas.

A diretora da Anistia Internacional destacou ainda os impactos sofridos por comunidades de matriz africana. “Centenas de terreiros foram varridos pelas águas.” De acordo com ela, a destruição desses espaços não representa apenas perda material. “O sagrado para essas comunidades significa conexão entre passado, presente e futuro.”

Werneck também denunciou violações enfrentadas pela população LGBTQIAPN+ e por pessoas em situação de rua durante o período dos abrigos. Ela destacou ainda que mulheres atingidas pelas enchentes enfrentaram situações de violência nos espaços de acolhimento. “As mulheres tiveram que salvar suas famílias e, quando chegaram aos abrigos, muitas viveram experiências de violência.”

Para a diretora, as tragédias climáticas não podem ser tratadas como eventos naturais isolados. “A gente não pode botar a culpa na chuva.” Segundo ela, o problema central é o descumprimento das obrigações do poder público diante da emergência climática. “Perder tanta gente significa descumprimento de obrigações.”

Ao encerrar sua participação, Werneck reforçou que a emergência climática exige transformação social profunda. “Uma nova humanidade nasce onde nós estivermos.” E concluiu: “Bem-vindos e bem-vindas à Semana de Ação Climática de Porto Alegre. A gente espera trazer o Brasil e o mundo para cá. Aqui vamos resolver o que precisa ser resolvido, dialogar o que precisa ser dialogado e pressionar o que precisa ser pressionado.”

Mais de 30 entidades participam da organização da Semana do Clima | Crédito: Janaína Kalsing/Themis

Ciência, trauma coletivo e adaptação das cidades

A reitora da Ufrgs, Márcia Barbosa, começou sua fala afirmando que as enchentes de 2024 não foram uma surpresa para a comunidade científica. Conforme reforçou, pesquisadores já alertavam há anos sobre a necessidade de preparar cidades para eventos extremos. “Depois que passa a chuva, todo mundo quer esquecer. ‘Não vai acontecer mais’. O cotidiano nos engole com outras urgências”.

Barbosa relatou que, durante as enchentes, a universidade montou uma rede de emergência climática com cientistas de diferentes áreas para monitorar os impactos e orientar decisões. Ela criticou a tendência de reconstruir estruturas da mesma forma após os desastres. “A sociedade prefere arrumar a casa do jeito que estava antes, sem entender que, se fizer a mesma coisa de novo, o resultado será o mesmo.”

A reitora também chamou atenção para os impactos psicológicos e sociais da tragédia. Conforme expôs, estudos apresentados pela universidade apontam aumento no uso de psicotrópicos, álcool e feminicídios meses após as enchentes. Ela resumiu o cenário afirmando que o estado enfrenta hoje uma crise social profunda. “Nós estamos com uma sociedade doente.”

De acordo com a reitora, agricultores e trabalhadores do interior vivem uma situação de insegurança permanente diante das mudanças climáticas. “A preparação de Eldorado do Sul não é igual à de Porto Alegre, não é igual de Caxias. O que acontece nesses municípios é diferente. E eu não estou falando só de chuva, estou falando de seca. Nós estamos com o oceano Atlântico aquecendo sem nenhum sensor no oceano no Rio Grande do Sul ”

A boa nova, anunciou Barbosa, é que a Ufrgs recebeu recursos para criar um Centro de Gestão de Riscos Climáticos e Ambientais. O projeto prevê a construção de um prédio voltado ao monitoramento climático, formação técnica e articulação de pesquisas sobre impactos ambientais e sociais. A iniciativa também pretende capacitar gestores municipais, profissionais da Defesa Civil e educadores para enfrentar eventos extremos.

“A gente já teve uma turma com 300 professores e professoras para ensinar emergência climática e ambiental. Agora queremos preparar gestores e gestoras dos municípios.”

‘A chuva sempre foi um símbolo de vida. Agora, quando a gente ouve o barulho da chuva, a gente fica com medo’, expôs Alexania Rossato  | Crédito: Maria Eduarda Leal

‘A chuva virou medo’

Integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Alexania Rossato destacou que a Semana do Clima recoloca Porto Alegre no centro dos debates internacionais. “Porto Alegre foi a capital da esperança no início dos anos 2000, com os Fóruns Sociais Mundiais. Agora traz também esse debate tão importante que é a situação climática, na capital tão sofrida pelas questões de eventos extremos.”

Ela também comentou sobre a visita do presidente da COP30 à exposição das arpilleras produzidas por mulheres atingidas. “O embaixador conseguiu ver um pouco do nosso trabalho realizado pelas mulheres atingidas em todos os estados do Brasil.”

Rossato também alertou para o aumento da frequência dos eventos extremos. “Se nada ocorrer de forma estrutural no planeta, cada vez mais serão recorrentes enchentes, granizos, tornados e tempestades.” Segundo ela, a população vive hoje sob permanente insegurança climática. “A chuva sempre foi um símbolo de vida. Agora, quando a gente ouve o barulho da chuva, a gente fica com medo. E a gente não quer isso, queremos continuar tendo a chuva como amiga”

Editado por: Katia Marko

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