editorial

E se o Brasil virar uma Venezuela?

A desinformação enquanto ameaça e a comunicação como fortaleza

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Vista do Waraira Repano, em Caracas, Venezuela
Vista do Waraira Repano, em Caracas, Venezuela | Crédito: Rafaella Coury/Brasil de Fato

O que você conhece sobre a Venezuela? O que você sabe sobre como se vive no país, sobre sua capital Caracas, sua história, sua luta? Como você se informa sobre o que está acontecendo na Venezuela e no que você acredita?

Aqui, no Brasil de Fato, fazemos do acompanhamento próximo do que realmente acontece na Venezuela um compromisso diário. Temos correspondência fixa no país há anos, parceiros locais de longa data, acompanhamos as atividades do Movimento de Trabalhadores Sem-Terra no país e, recentemente, tive a oportunidade de passar duas semanas em Caracas estudando comunicação e luta latino-americana.

Em 120 horas de aulas, foi possível compreender que a separação consequente do Tratado de Tordesilhas vai muito além do que era de interesse dos nossos colonizadores. Enquanto um lado da América Latina fala espanhol e teve um libertador comum, falamos uma língua derivada do português de Portugal e tivemos nossa independência decretada após um combinado entre pai e filho.

Quando fazemos essa comparação por um viés mais simplista, muitos poderiam pensar que estamos perdendo. Mas o Brasil não fica atrás na luta da população. De uma história com Canudos, Contestado, dos Farrapos e de Palmares aos dias de hoje, em que lutamos pela terra, pelos direitos trabalhistas, pelo reconhecimento das minorias, a gente também sabe o que quer e vai atrás.

Se o que nos separa do resto da América Latina é uma linha invisível que trouxe diversas diferenças, o que nos une é a luta pela soberania, é a vontade de vencer um império que impõe suas garras em todo o continente, com maior ou menor intensidade, e é a crença na força do poder popular.

E acredito que é por meio da comunicação que podemos, e devemos, nos unir mais e reforçar esta união. O objetivo do curso realizado na Universidad Internacional de Comunicaciones era justamente este: criar uma rede de comunicadores populares, de esquerda, progressistas, comprometidos com as lutas de seus países e com a verdade sobre suas histórias.

Com base nessa proposta, aprendi sobre Guatemala, El Salvador, Cuba, Colômbia e Bolívia, para muito além das histórias venezuelanas. Aprendi sobre o real impacto dos Estados Unidos na história, e na sobrevivência, de cada um desses países. Confirmei como não há povo mais feliz que o latino-americano que, no meio de tanta dificuldade, perdura, dança, dá risada, e não desiste.

Enquanto brasileiros, não temos o espanhol como língua-mãe, mas nossa comunicação vai muito além disso. Não poderíamos ser mais latinos, já que dançamos, cantamos, lutamos e vivemos tudo o que essa América Latina tem a oferecer.

Que usemos essa comunicação além das barreiras para aprender com nossos hermanos. Que sejamos fonte de informação para os brasileiros sobre o que os outros povos da América Latina realmente estão passando. Que não deixemos as fake news tomarem conta do noticiário e que a luta de cada país seja devidamente reconhecida.

No caso específico da Venezuela, é sempre importante repetir: não é crise, é bloqueio. Não é captura, é sequestro. As pessoas não comem cachorros e nem estão passando fome nas ruas. Há muita unidade, educação, gentileza, alegria e luta. E Caracas é linda, linda.

A comunicação é um caminho da verdade, sim, mas também do rompimento de preconceitos. Como infelizmente não é possível viajar para cada canto deste continente para conhecer de perto a sua história, é com base na comunicação que tem lado e compromisso que a gente pode ir desvendando um pouco mais do universo que é dividir fronteiras com dez países — sem contar seus vizinhos e, assim, vai.

Se a ignorância é uma bênção, a informação é o que vai nos fazer vencer. Enquanto sociedade, enquanto país, enquanto continente. Temos esse objetivo no Brasil de Fato, e você vai encontrar diversas mídias similares na América Latina. Que a gente nunca se canse de lutar por uma informação de qualidade e pela soberania do nosso povo.

Editado por: Lucas Estanislau

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