Em um galpão no bairro Sarandi, na zona norte de Porto Alegre, o som das máquinas de costura da Cooperativa Costura Unidas Venceremos (Univens) acompanha uma transformação que ultrapassa fronteiras regionais. O que começou em 2004, com a produção de bolsas para o Fórum Social Mundial, tornou-se a maior cadeia de economia solidária do setor têxtil brasileiro. Hoje, a Cooperativa Central Justa Trama reúne mais de 700 cooperados em cinco estados brasileiros e conecta agricultura agroecológica, produção têxtil e saúde pública.
O algodão cultivado sem agrotóxicos no Ceará e no Rio Grande do Norte percorre um caminho coletivo: segue para Minas Gerais, onde é transformado em fio e tecido, e chega ao Rio Grande do Sul, onde ganha forma nas mãos de trabalhadoras da periferia de Porto Alegre. O resultado é uma produção que alia geração de renda, preservação ambiental e inclusão produtiva.
O avanço mais recente da rede marca também uma nova etapa para o cooperativismo brasileiro. Por meio de editais públicos voltados à sustentabilidade, a Justa Trama passou a fornecer enxovais agroecológicos ao Grupo Hospitalar Conceição (GHC), um dos maiores complexos hospitalares 100% públicos da Região Sul.
A parceria representa uma experiência inédita dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) e inaugura um modelo que une saúde pública e economia solidária. Além de garantir mercado institucional para pequenos produtores, a iniciativa introduz nos hospitais produtos livres de defensivos químicos e metais pesados, considerados mais adequados para pacientes com alta sensibilidade cutânea, como pessoas internadas em UTIs, alas oncológicas e unidades de queimados.
Para o agricultor familiar e cooperado da rede Raimundo Santos, o significado da iniciativa ultrapassa a dimensão econômica. “Saber que o algodão que a gente planta aqui no Nordeste, sem veneno e com respeito à terra, vai virar o lençol que protege uma criança doente em um hospital do Sul me dá um orgulho que não cabe no peito”, afirma.

‘A gente queria gerar renda para as mulheres da comunidade’
A diretora-presidente da Justa Trama e da Univens, Nelsa Inês Fabián Nespolo, relembra que a história da cooperativa nasceu justamente da tentativa de produzir para o Hospital Conceição. Segundo ela, a Univens completa 30 anos mantendo o mesmo propósito que motivou sua criação. “A Cooperativa Univens surge com o desejo de costurar para o Hospital Conceição. Foi por isso que ela foi criada, porque a gente queria gerar renda para as mulheres aqui da comunidade”, conta.
Ela explica que, ainda nos anos 1990, a direção do hospital informou ao grupo que seria necessário criar uma cooperativa ou associação para fornecer serviços à instituição. A partir disso, as mulheres organizaram a Univens, embora a parceria desejada tenha levado décadas para se concretizar. “Nunca deu certo, a gente nunca tinha costurado nenhuma peça para o hospital, até surgir essa parceria. E ela não surgiu do dia para a noite. Foram muitas conversas, reuniões e sensibilização.”
Nespolo afirma que o objetivo inicial era realizar reformas de roupas hospitalares, mas o projeto evoluiu até chegar ao fornecimento de produtos orgânicos para o SUS. Em 2024, a Justa Trama participou da primeira chamada pública voltada para compras sustentáveis promovida pelo GHC e acabou selecionada.

Mais do que produzir tecidos, ela ressalta que a Justa Trama articula uma cadeia solidária que começa no campo e chega aos hospitais públicos. O algodão orgânico é cultivado por agricultores familiares em sistema consorciado com milho, feijão, gergelim e fava, sem uso de agrotóxicos. “O algodão é a quarta cultura que mais usa agrotóxicos no mundo. Então, poder fornecer um produto orgânico não era só fornecer um produto, era oferecer algo que cuida da vida”, pontua.
Segundo Nespolo, o processo passa por cooperativas responsáveis pela produção do fio e do tecido até chegar à costura final em Porto Alegre. O resultado, destaca, é um produto que carrega cuidado ambiental e humano. “A gente faz uma roupa que vai envolver as pessoas e dizer: ‘você está doente agora, mas a gente está te protegendo com um lençol orgânico.’”
A dirigente também destaca estudos realizados pelo próprio Grupo Hospitalar Conceição apontando redução de infecções hospitalares com o uso dos produtos orgânicos, embora ressalte que os resultados não decorrem de uma única medida isolada. “Imagina poder plantar sem contaminar o meio ambiente, cuidar das pessoas envolvidas no processo, confeccionar algo saudável e ainda ajudar a diminuir infecção hospitalar dentro de um hospital do SUS”, pontua.

Autonomia, enchente e resistência coletiva
Há 27 anos na Cooperativa Univens, a costureira e diretora financeira da Justa Trama, Patrícia Ribas, acompanhou de perto a construção da rede de economia solidária. Ela conta que começou a trabalhar ainda no início da cooperativa, enquanto cuidava do filho pequeno em casa. “Minha mãe sempre costurou também, aprendi com ela o ofício. Então comecei aos pouquinhos, porque a cooperativa ainda tinha pouco trabalho. Entrei na cooperativa para renda mesmo, estava em casa com uma criança pequena”, relembra.
Ribas diz que a busca inicial era complementar a renda da família, mas o envolvimento com a cooperativa acabou se transformando em um projeto de vida. “Hoje, o que mais me orgulha é saber que faço um trabalho diferenciado, que não tem ninguém ganhando em cima do meu trabalho. A gente decide as coisas conjuntamente. Essa autonomia das mulheres, autonomia financeira, e saber que podemos contar umas com as outras, isso é muito importante”, afirma.
Durante a enchente que atingiu Porto Alegre em maio de 2024, a cooperativa também precisou reorganizar sua rotina. Embora a água não tenha invadido diretamente o espaço da Univens, a falta de energia elétrica e abastecimento interrompeu as atividades de produção. “A gente vinha para cá organizar as coisas e salvar o que dava. Tínhamos medo da água subir”, relata.

Com o trabalho suspenso, a cooperativa decidiu abrir as portas para receber e distribuir doações às famílias atingidas pela enchente. Ribas conta que a iniciativa surgiu a partir da oferta de ajuda de clientes e parceiros. “Foi um mês muito intenso. Ficamos praticamente 30 dias recebendo doações, organizando cadastro de moradores e distribuindo tudo o que chegava”, lembra.
Às vésperas dos 30 anos da Cooperativa Univens, completados em 23 de maio, Ribas confirma que a parceria com o Grupo Hospitalar Conceição representa a realização de um sonho antigo das trabalhadoras. “Desde o começo da cooperativa, a ideia era trabalhar para o hospital. Então, quando conseguimos o contrato dos lençóis, foi motivo de muita festa.”
Ela destaca que a entrada do algodão orgânico na cadeia produtiva fortaleceu ainda mais o compromisso da Justa Trama com a saúde e o meio ambiente. “A gente acredita que o algodão orgânico colabora com a natureza e com a saúde das pessoas. E nada mais importante do que levar isso para um hospital, onde estão pessoas debilitadas, que precisam de um cuidado e carinho maior”, afirma.
De acordo com Ribas, a ampliação dos contratos também representa estabilidade para centenas de trabalhadores envolvidos na cadeia produtiva da Justa Trama. “São cerca de 700 trabalhadores nesse processo todo. Isso ajuda na renda de todo mundo e também colabora com o mundo.”

Economia solidária e desenvolvimento territorial
A estrutura da Justa Trama conecta diferentes territórios do país em uma cadeia integrada de produção. No Ceará e no Rio Grande do Norte, agricultores familiares cultivam algodão agroecológico em consórcio com alimentos, garantindo diversidade produtiva, preservação do solo e segurança alimentar. Em Minas Gerais, cooperativas realizam os processos de fiação e tecelagem. Já no Rio Grande do Sul, a Cooperativa Univens coordena as etapas de design, corte e costura final das peças.
Diretor e técnico da Associação de Desenvolvimento Educacional Agroecológico Cultural de Tauá (Adec), no Ceará, Rogaciano Oliveira explica que o cultivo agroecológico do algodão é baseado em práticas sustentáveis e no conhecimento das comunidades locais. “O algodão é cultivado junto com milho, feijão e gergelim. Isso ajuda a conservar o solo, diversificar a produção e garantir tanto alimento quanto renda para as famílias agricultoras”, expõe.
Segundo ele, o modelo enfrenta desafios importantes, especialmente no semiárido cearense, marcado pela irregularidade das chuvas e pelas dificuldades de assistência técnica às famílias produtoras. “Também existe a concorrência com o algodão convencional e transgênico, que é produzido em maior escala e com uso intenso de agrotóxicos.”

Oliveira ressalta que a principal diferença entre o algodão convencional e o agroecológico está na forma de produção. Enquanto o cultivo convencional utiliza monocultura, sementes transgênicas, máquinas pesadas e grande quantidade de defensivos químicos, a produção agroecológica busca equilíbrio ambiental e fortalecimento da agricultura familiar. “O algodão agroecológico gera menos impacto ambiental, protege mais a saúde dos agricultores porque não usa agrotóxicos e fortalece a economia local”, resume.
Para ele, a inserção da Justa Trama no SUS fortalece toda a cadeia produtiva construída pela economia solidária. “Essa parceria garante mercado para nossa produção, gera renda para as famílias agricultoras e cria uma conexão entre saúde pública e desenvolvimento rural”, afirma.
Na avaliação de Oliveira, a ampliação da produção de lençóis hospitalares pela Justa Trama também traz mais segurança econômica para os agricultores familiares do semiárido. “A gente sabe que a Justa Trama vai poder comprar mais pluma da nossa associação porque está produzindo mais produtos para comercializar. Isso ajuda na permanência das famílias no campo e valoriza práticas sustentáveis dentro das políticas públicas de saúde e bem-estar social.”

O modelo reduz a presença de intermediários e mantém a renda circulando dentro dos próprios territórios, fortalecendo comunidades historicamente vulnerabilizadas e ampliando oportunidades para mulheres trabalhadoras das periferias urbanas.
Para Nespolo, a experiência também abre caminhos para enfrentar a precarização do trabalho feminino na indústria têxtil. “A gente quer que mais mulheres costureiras saiam da invisibilidade, desse mundo sem direitos, trabalhando para grandes marcas, e possam estar organizadas de forma cooperada, dividindo renda e produzindo algo que defende a vida e o meio ambiente.”

A parceria entre a Justa Trama e o Grupo Hospitalar Conceição, reforça Nespolo, aponta para uma mudança de paradigma: o cuidado em saúde passa a ser pensado desde a origem da matéria-prima até o impacto social gerado pela produção. “Mais do que enxovais hospitalares, a rede costura uma alternativa econômica baseada na cooperação, na agroecologia e na valorização do trabalho coletivo”, afirma.
Diretor administrativo do Grupo Hospitalar Conceição, João Motta afirma que a parceria surgiu a partir de duas diretrizes centrais: fortalecer iniciativas da economia solidária e ampliar o acesso da população a produtos mais saudáveis dentro da rede pública de saúde.
Segundo ele, a utilização de enxovais agroecológicos também integra uma política de cuidado e humanização hospitalar. “O uso desses materiais se justifica pela preocupação em reduzir produtos provenientes de uma agricultura recheada de agrotóxicos, com repercussões no ambiente e também nos leitos hospitalares.”
Motta destaca ainda que os tecidos de algodão orgânico são mais confortáveis para os pacientes e reforçam uma cadeia produtiva baseada em sustentabilidade e inclusão social. “Além de serem mais macios e agradáveis, os enxovais impulsionam a economia solidária por meio do orçamento federal e garantem materiais livres de defensivos químicos nocivos aos pacientes”, pontua.
Para o diretor administrativo do GHC, a experiência já começa a despertar interesse de outras instituições de saúde do país. “Nossa experiência já vem sendo pesquisada por instituições de Porto Alegre e de outras regiões do Brasil. Ela demonstra que o SUS tem escala e capacidade financeira para atuar como indutor do desenvolvimento econômico regional e sustentável.”
Com as primeiras entregas consolidadas, a meta agora é ampliar a presença da cooperativa na rede hospitalar. O objetivo estabelecido prevê que o Hospital da Criança Conceição utilize exclusivamente enxovais produzidos pela Justa Trama.










