Celebrar a produção audiovisual feita por mulheres no território baiano é um dos objetivos da mostra “Memórias de Mulheres na Bahia e no Cinema”, realizada em Salvador entre os meses de maio e junho. Com entrada gratuita e sessões semanais, o evento acontece no Circuito Saladearte Cinema da UFBA, no Canela, toda segunda-feira às 16 horas. A próxima sessão, realizada no dia 1º de junho, será dedicada à exibição de filmes de animação e contará com a participação das realizadoras Alba Liberato, Luma Flôres e Mariana Netto.
Edyala Yglesias, Mônica Simões, Vilma Carla Martins, Marise Urbano, Jamile Cazumbá, Alba Liberato e Olinda Yawar Tupinambá são algumas das diretoras que assinam obras presentes na programação. A curadoria e pesquisa é assinada por Hyndra, antropóloga, cineasta e integrante do coletivo CAOS – Cinema, Antropologia e Observação Social, realizador do evento.
Segundo Hyndra, a Mostra surgiu do desejo de criar espaços de encontros e diálogos entre gerações de mulheres, visibilizando suas obras. “Há alguns anos comecei a me questionar sobre a presença histórica de mulheres no cinema, das que vieram antes de mim, principalmente aqui na Bahia. Comecei a procurá-las a partir de seus filmes. Tal procura intensificou meu desejo de romper com silenciamentos”, explica.
Para a realizadora, as contribuições das mulheres que integram a programação da mostra ressoam por falarem de seus próprios territórios e memórias, que refletem contextos importantes do Brasil e da Bahia. “São mulheres atentas às questões de gênero, sexualidade, debates étnico-raciais, de classe e da relação com a natureza, a terra e as águas. Suas histórias, nas telas, buscam caminhos possíveis para reconstituições do mundo e apontam para outros futuros pautados no reconhecimento e em encontros mútuos, fortalecedores”, salienta Hyndra.
Mulheres no centro das narrativas
Uma das realizadoras presentes na mostra, que teve, inclusive, uma sessão dedicada a seus filmes é Edyala Yglesias. Uma das pioneiras do cinema nacional, Yglesias dirige e roteiriza filmes desde a década de 70. É também uma das fundadoras da primeira organização feminista do audiovisual brasileiro, o Coletivo de Mulheres de Cinema e Vídeo, criado em 1986. A realizadora, que inspirou e acompanhou o crescimento de diversas outras diretoras ao longo das últimas décadas, destaca a importância dessa troca intergeracional.
“Muito me alegra e honra estar presente e fazer parte desse momento de crescimento e troca. A expressão das mulheres, longamente silenciada, explode de forma tão profunda e múltipla e diversa. É tão intenso o sentimento de nos ver, de saber quem somos, de onde viemos”, destaca Yglesias.

Na mostra, foram exibidos três dos seus filmes: No Coração de Shirley (2002), Mão Dupla (1988) e O diário do convento (2001), obras que, como a essência do cinema de Yglesias, trazem como protagonistas mulheres que estão à margem da sociedade. Para a diretora, trazê-las para o centro das narrativas têm um importante papel político.
“Ocupar o centro da tela com nossas ideias e desejos me parece fundamental para compreendermos que sim, podemos, que é possível uma outra forma de ver e contar o mundo. Ocupamos, historicamente, o polo-objeto das narrativas hegemônicas. O desejo de transformar o olhar, mudar a lógica binária e excludente que rege nossas sociedades, de ampliar a sensibilidade humana para ver e viver outras formas de estar no mundo”, explica.
Ao longo dos últimos anos, Edyala Yglesias avalia que há um inegável avanço nas conquistas das mulheres no audiovisual dentro e fora do estado. No entanto, ainda há espaços importantes a conquistar.
“Na Bahia, espero ver políticas públicas mais atentas que transformem o audiovisual em eixo de uma produção contínua, criando linhas especiais não apenas para a produção, mas para a difusão dos filmes feitos por mulheres. Afinal, a Bahia é das mulheres. Devemos ampliar essa cosmovisão do imaginário afro-baiano para formar as novas gerações de cineastas. As atrizes baianas são sensíveis e deslumbrantes, merecem ocupar todas as telas. E as histórias de nossas mães, de nossas avós, também merecem ser contadas”, ressalta.
Poesia em tela
A próxima e penúltima sessão da mostra, a ser realizada no dia 1º de junho, tem como recorte filmes de animação produzidos por mulheres baianas. A programação conta com seis curta-metragens: Muçagambira (Alba Liberato, 1982), Òrun Àiyé (Jamile Coelho e Cintia Maria, 2015), Quintal (Mariana Netto, 2022), Maré Braba (Pâmela Peregrino, 2023), Jussara (Camila Ribeiro, 2023) e Como Nasce um Rio (Luma Flôres, 2025). Alba Liberato, Luma Flôres e Mariana Netto também irão participar do debate após a sessão, que é organizada em parceria com o Mirá – Núcleo de Animação da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/UFBA).
Inspirado na obra de Manoel de Barros, mais especificamente no poema “Tributo a João Guimarães Rosa”, o filme Quintal, desenvolvido pelo Mirá, retrata o início da amizade de Diadorim, uma menina sonhadora, e Riobaldo, um alegre passarinho azul. Em um terreno abandonado, aparentemente esquecido pela cidade grande, Diadorim e Riobaldo buscam juntos se libertar das limitações impostas pela velocidade das demandas cotidianas.

A diretora Mariana Netto relembra que a ideia do curta-metragem veio da vontade de produzir uma história autoral, com sua identidade. “O Quintal nasceu da vontade junto das minhas amigas, Carolina Albuquerque e Thaíse Tupinambá, de contar uma história nossa, do nosso jeito. E quando levamos isso para nosso professor, Taygoara Aguiar, ele super incentivou e participou do processo de criação também. E aí, Carol trouxe as poesias de Manoel de Barros, um poeta que ela gosta muito, e começamos a estudá-las e pensar ‘e se fizéssemos uma animação baseada em um poema?’. E a partir disso, foi quase um ano imersas nesse universo de poesias”, conta.
Como mulher na indústria da animação, Netto aponta que é sempre um desafio se fazer ser acreditada no seu trabalho, mas que teve “muita sorte de ter, ao meu redor amigas e profissionais ilustradoras, designers e animadoras para me inspirar e que não tinham medo de apresentar e defender suas ideias”.
Na Bahia, a diretora reforça que não faltam mulheres talentosas na animação, mas sim espaço e oportunidades.
“É só ver quantos prêmios os últimos curtas de animação baianos levaram para casa, competindo com obras do Brasil e do mundo. Acho que o maior desafio hoje é construir mais cantinhos para abrigar todos esses talentos”, ressalta.
Serviço:
Mostra “Memórias de mulheres na Bahia e no cinema”
Quando: Dias 18/05, 25/05, 01/06 e 08/06 de 2026 às 16h
Onde: SalaDeArte Cinema da UFBA (Canela, Salvador)
Entrada gratuita
Mais informações e programação completa aqui.


