LUTO NA MÚSICA

Pedro Ortaça foi matear com Sepé Tiarajú

Na manhã fria dessa sexta-feira (29), amanhecemos com a notícia de que o último tronco missioneiro tombou

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'Há vozes que não morrem: tornam-se fundamento, tornam-se raiz, tornam-se horizonte'
‘Há vozes que não morrem: tornam-se fundamento, tornam-se raiz, tornam-se horizonte’ | Crédito: Arte editada com IA

Com tristeza recebemos, nesta manhã, a notícia da partida de Pedro Ortaça — o último tronco missioneiro. Sua voz se cala na terra, mas segue ecoando pelos campos e reduções do sul, nas coxilhas, nos galpões, nos terreiros e na memória viva do povo.

Pedro foi mais do que cantor e intérprete das Missões: foi guardião de uma cultura popular profundamente enraizada na hisória e na resistência de quem fez daquele chão um território de encontro, luta e identidade. Em sua música há beleza, mas há também denúncia; há ternura, mas igualmente há crítica. Seu canto nunca foi um adorno vazio: foi trincheira poética e política. Cantou a dignidade dos povos missioneiros, a vida do homem e da mulher do campo, os dramas e esperanças do povo simples, sempre com a firmeza de quem compreende que a cultura popular não é folclore de vitrine — é memória viva, consciência e ferramenta de libertação.

Esteve junto daqueles que defendem as causas populares, os direitos indígenas e a justiça social. Usou a música missioneira como ferramenta de denúncia social, cantando sobre os esquecidos, a preservação ambiental e os povos originários. Usou do prestígio conquistado para mesmo dentro de ambientes conservadores, fazer eco a voz do povo e afirmar verdades inconvenientes aos que acostumaram-se com as beneces do poder.

Em sua trajetória esteve sempre presente a marca profunda da causa Guarani. Soube reconhecer que a alma missioneira não pode ser compreendida sem reverência aos povos originários, sem memória do sangue derramado, sem respeito à sabedoria ancestral que moldou aquele território. Não conformou-se com a forma como os poderosos se apropriaram, contaram e deturparam a história.

Em suas canções viveu o povo Guarani: sua dor histórica, sua espiritualidade, sua resistência e sua permanência. Cantando as Missões, Pedro também ajudou a manter acesa a lembrança de um projeto de povo e de comunidade que ainda inspira a caminhada de muitos.

O silêncio dessa manhã fria é só aparente. Há vozes que não morrem: tornam-se fundamento, tornam-se raiz, tornam-se horizonte. E a voz de Pedro Ortaça seguirá sendo dessas — companheira do mate cevado no amanhecer, do violão à beira do fogo, da roda que canta e da luta de quem não esquece de onde veio. Hoje cedo, o mate foi compartilhado com São Sepé Tiarajú, cevado com erva sapecada no barbacuá.

*Marcos Antonio Corbari é jornalista.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Marcelo Ferreira

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