HISTÓRIA DO BRASIL

Biógrafo de Lula revela que Miguel Arraes aconselhava petista a se aliar à direita, rejeitando chapas ‘pão com pão’

Fernando Morais lança segundo volume da biografia de Lula no Recife e revela respeito profundo de Lula por Arraes

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Aliança com Leonel Brizola em 1998 foi criticada por Arraes
Aliança com Leonel Brizola em 1998 foi criticada por Arraes | Crédito: Marie Hippenmeyer/AFP

Neste sábado (30), o jornalista e escritor Fernando Morais, um dos principais biógrafos contemporâneos do país, vem ao Recife para lançar “Lula, volume 2”, segunda parte da biografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, publicada em abril pela Companhia das Letras. O autor participa de uma mesa com a escritora e vereadora Cida Pedrosa (PCdoB), às 17h30, no projeto “Além das Letras”, realizado pela Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, no Centro de Convenções. Mas, antes, Morais conversou com o Brasil de Fato Pernambuco.

Neste novo capítulo, Morais abarca os anos que vão da atuação de Lula como deputado constituinte, no fim da década de 1980, passando pelas derrotas eleitorais de 1989, 1994 e 1998, culminando na eleição do primeiro operário presidente da República, em 2002.

É um período de revezes e recomeços, em que Lula convivia politicamente com figuras pelas quais o petista sempre nutriu admiração e ouviu conselhos que abraçou em sua vida política. O primeiro volume da obra se encerra com a derrota de Lula nas eleições para o governo de São Paulo, pleito que o petista acreditava que sairia vitorioso. Naquele momento Lula quase desistiu da política eleitoral, mas mudou de ideia após o encontro com o líder cubano Fidel Castro.

Fernando Morais relata que a derrota para André Franco Montoro (PMDB) em 1982 revelou a “enorme incapacidade de Lula para derrotas”. O petista chegou a decretar seu retorno ao sindicalismo. Mas a viagem a Cuba colocou Lula diante de Fidel Castro, que o questionou sobre quantos votos o petista recebera naquela derrota. “Quando Lula disse que teve 1,2 milhão de votos, Fidel apontou que em nenhum lugar do planeta, desde que existe esse negócio chamado eleições, um operário teve essa quantidade de votos. E que ele não tinha o direito de fazer essa desfeita com esses eleitores”, relembra Morais em conversa com o Brasil de Fato

Já neste 2º volume da biografia, o leitor poderá perceber o processo de construção gradual da autoestima política de Lula, que autoavalia sua atuação na Assembleia Constituinte como “aquém do que pretendia”, acreditando ser Delúbio Soares o grande nome do PT no processo — algo Fernando Morais discorda. Ele relembra como o plenário, muitas vezes esvaziado, se enchia quando circulava a informação de que Lula subiria à tribuna.

Nos anos seguintes, a confiança de Lula em si mesmo é consolidada. Entre o fim dos anos 1980 e os anos 1990 ele disputa três eleições presidenciais e passa a contar com figuras de referência para sua caminhada. Estes personagens — de diferentes espectros políticos —, segundo Morais, gozavam de um “profundo respeito” de Lula. “Havia três pessoas de quem Lula poderia ouvir desaforo e jamais responderia: Mario Covas (PSDB, ex-governador de São Paulo), Roberto Requião (ex-governador do Paraná pelo PMDB, mas hoje no PDT) e Miguel Arraes (PSB, ex-governador de Pernambuco)”, conta o biógrafo.

Lula e Arraes

É da figura do pernambucano Miguel Arraes que o petista recebe apoio e conselhos que formaram ao menos uma convicção do atual presidente da República: a predileção de Lula por chapas eleitorais que não sejam puro-sangue de esquerda. Essas conversas são mais detalhadas neste 2º volume da biografia. Fernando Morais lembra que é neste momento que surge uma relação classificada pelo biógrafo como “capaz de ter mudado os rumos do país”, que é quando se inicia um “namoro político” entre Lula e o cearense Tasso Jereissati, então presidente do PSDB, que aceitou ser vice de Lula nas eleições de 1994.

Mas a popularidade de Fernando Henrique Cardoso entre os tucanos após o Plano Real e a resistência interna do PT acabaram com essa possibilidade. “Lula tinha uma convicção clara de que o grau de conservadorismo do eleitorado brasileiro fazia com que uma chapa que não quisesse só marcar posição, mas vencer eleições, precisava ter uma aliança com o centro”, afirma Fernando Morais. 

O plano de construir uma chapa com o centro contava com total apoio de Miguel Arraes, que colocou apelido nas chapas de Lula com Aloízio Mercadante (em 1994) e com o trabalhista Leonel Brizola (em 1998): “Sanduíche de pão com pão”. “Arraes também acreditava que esquerda com esquerda não ganharia eleições. Ele também se colocou contra a aliança com Brizola (PDT), mas de forma cuidadosa, para não ofender o pedetista”, lembra Morais.

Após as três derrotas entre 1989 e 1998, com uma influência considerada pelo biógrafo como relevante por parte imprensa brasileira — e um curioso encontro entre Lula e Roberto Marinho, falecido presidente do grupo Globo, para uma espécie de “lavagem de roupa suja” após a vitória de Collor —, Lula pôde realizar uma campanha a partir das convicções de alianças adquiridas junto a Arraes.

Em 2002, Lula foi novamente candidato tendo o milionário da indústria têxtil José Alencar (PL) como vice e Duda Mendonça como marqueteiro — figura antes rechaçada pelo PT por sua ligação com a direita. E assim o petista foi eleito, se tornando o primeiro operário presidente do Brasil, episódio que encerra este 2º volume da biografia. Um terceiro livro já está em produção, abarcando os dois primeiros mandatos de Lula, os anos Dilma, a Lava-Jato, a prisão e a vitória de 2018. 

Editado por: Vinicius Sobreira

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