VOZES E LUTAS

Big techs e desinformação ameaçam eleições, alertam debatedores em fórum de comunicação no Recife

Encontro realizado no último sábado (30) teve debate, oficina e plenária sobre desafios da democratização da comunicação

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Evento teve como tema “Territórios, Soberania Digital e Defesa da Democracia”
Evento teve como tema “Territórios, Soberania Digital e Defesa da Democracia” | Crédito: Rostand Tiago/Brasil de Fato PE

No último sábado (30), Recife foi ponto de parada da Caravana do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), com o tema “Territórios, Soberania Digital e Defesa da Democracia” . A programação, realizada no Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações de Pernambuco, no bairro de Santo Amaro, contou com um debate, oficina e plenária, pautados pelos desafios impostos pelos monopólios globais e nacionais da informação, além da desregulamentação de novas tecnologias e do setor como um todo, que ganham uma dimensão ainda maior em um ano eleitoral.

As ações contaram com a participação de representantes de diversas organizações e iniciativas de comunicação popular, além da presença de acadêmicos e movimentos sociais e políticos. Para Marcelo Dantas, comunicador do Centro de Cultura Luiz Freire, conselheiro do FNDC e envolvido na organização do evento, Pernambuco tem uma bagagem robusta na luta pela democratização da comunicação, com a atuação tanto do comitê regional do Fórum, como no trabalho do Fórum Pernambucano de Comunicação. 

“Com todos os desafios e violações históricas que sofrem, acaba faltando fôlego para os movimentos pensarem a comunicação, para além de uma ferramenta ou canal, como um direito humano fundamental para o bem viver. Pernambuco, por ter uma pluralidade organizativa, acaba possuindo também uma pluralidade de pautas, demandas, organizações e coletivos, como está bem refletido aqui nesse encontro.  O que nos traz possibilidades de entender melhor onde a gente pode avançar, o que podemos fortalecer”, elabora Marcelo Dantas. 

O pré-candidato ao governo de Pernambuco, Ivan Moraes (Psol), esteve presente no evento e destacou os desafios atuais da comunicação, como as big techs bilionárias estrangeiras “direcionando politicamente e economicamente a comunicação”, criando um cenário de eleições sob forte influência de inteligências artificiais, cuja regulamentação feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é vista como “frágil” e de “difícil fiscalização”. 

“Em Pernambuco, a gente não tem um ecossistema de proteção que nos permita uma proteção contra essa cacofonia e desinformação. Nesse cenário, hoje temos uma diversidade de veículos que precisam ser fortalecidos, como o Brasil de Fato, para construir esse ecossistema que dê direito à informação embasada, profissionalmente redigida e com um senso ético”, afirma Ivan Moraes. 

TERRITÓRIOS EM AÇÃO

Um dos momentos de destaque da programação foi a mesa de abertura, com o debate “Soberania digital, território e defesa da democracia” que trouxe as experiências de fortalecimento da comunicação popular e comunitária desenvolvidas nos morros do Recife, quilombos do Sertão, comunidades indígenas urbanas e academia.

A conversa foi mediada por Admirson Júnior, o Greg, representante do FNDC no Conselho de Direitos Humanos, que destacou a soberania digital como pauta urgente para a democratização da comunicação. “Estamos muito aquém na construção da nossa soberania digital. Se o Brasil tivesse entendido antes a importância desse tema já teríamos nossas próprias plataformas e nossos próprios datacenters”, destacou Greg. 

Participaram da mesa Lorena Bezerra, estudante de psicologia e integrante do Criolas Vídeo, Victor Moura, jornalista fundador do coletivo Redes do Beberibe, Junior Cardeal, professor da rede pública e comunicador periférico ligado à Associação Indígena em Contexto Urbano Karaxuwanassu e Agência de Notícias das Favelas, e Andreia Trigueiro, professora da Universidade Católica de Pernambuco e coordenadora do projeto de Educomunicação e Direitos Humanos na Mídia da instituição. A conversa girou em torno da atuação de cada um dos participantes na luta pela construção do direito à comunicação em seus territórios e áreas de atuação. 

Lorena Bezerra destacou a atuação do projeto Criolas Vídeo, coletivo de comunicação da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas, atuante na comunidade quilombola de mesmo nome no Sertão pernambucano. Ela destaca como o trabalho do coletivo surge como forma de tomar as rédeas da própria história e memória do seu território. 

“Vinha muita gente de fora, comunicadores, jornalistas, que faziam suas escritas, filmavam nossos rostos, as nossas narrativas e depois não conseguíamos ter nenhum retorno, nem questionar informações erradas. Então começamos a produzir conteúdo na comunidade como uma forma de resguardar nossa história”, relatou Lorena. 

Junior Cardeal faz coro ao que diz Lorena sobre a necessidade da retomada do protagonismo de narrativas e comunicação nos territórios periféricos, somando também ao que afirmou Greg sobre precisar disputar também com os algoritmos estrangeiros pouco regulados. 

“A disputa acontece de forma muito desigual, porque a comunicação independente bate de frente com o próprio avanço das redes sociais. A gente tenta usar a internet como uma ferramenta de luta,  para mostrar o que nossos povos estão passando, mas esbarramos em algoritmos que excluem nossas pautas e trazem uma enxurrada de outros conteúdos que desviam o interesse de nossa população”, afirmou Cardeal. 

Victor Moura, que munido de um microfone de baixo custo e uma bicicleta, começou a produzir conteúdos denunciando situações vividas nas periferias do entorno da Bacia do Beberibe, entre as cidades do Recife e Olinda, iniciando o projeto Redes do Beberibe, destacou como o acesso aos dados também deve ser apropriado pela comunicação periférica para fortalecer as lutas por direitos.  

“Muitas vezes, ao contestarmos informações e relatarmos situações, nos apontam como ‘militantes’, em um sentido pejorativo. Obviamente temos um posicionamento, mas também temos dados obtidos dos próprios órgãos públicos que nos contestam. Então temos esse processo de atuação, com muitos pedidos de informação para a Prefeitura e o Governo do Estado, com o sonho de levar a cultura da transparência para as favelas”, elaborou Moura. 

Após a mesa de abertura, a Caravana ainda contou com uma oficina de soberania digital no contexto das eleições e uma plenária conjunta dos comitês de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba do FNDC. Em conjunto, os estados deram suas contribuições à plataforma eleitoral que vem sendo construída com as caravanas, documento que será entregue aos candidatos deste ano. 

Editado por: Gia Matheus Almeida

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