Na sexta-feira (29), o mundo se despediu de Edgar Morin. E eu me peguei voltando aos dois encontros que tive com ele — um presencial, outro simbólico. Distintos na forma, mas profundamente ligados entre si.
O primeiro foi em Porto Alegre, em 2011, durante o evento “Fronteiras do Pensamento”. Assisti à conferência em que Morin refletiu sobre o presente e o futuro da humanidade, defendendo algo que atravessou toda a sua obra: a urgência de reaprender a pensar a complexidade. Diante de uma plateia atenta, ele afirmava que os grandes problemas do nosso tempo não podem ser compreendidos pela separação rígida entre disciplinas, porque “tudo se confunde, tudo se liga”. Falava da necessidade de conectar conhecimentos, superar fragmentações e reconhecer que a humanidade vive uma mesma comunidade de destino.
Saí daquela conferência com a impressão rara de ter escutado alguém capaz de transformar inquietação em horizonte, alguém que pensava sem simplificar o mundo e, ao mesmo tempo, não renunciava à teimosia da esperança. Hoje, revisitando as anotações de 15 anos atrás, lembro que falava do colapso ecológico, da crise social, das ameaças do nosso tempo, da fragmentação do conhecimento. Da dificuldade contemporânea de conectar economia, cultura, política, ecologia, subjetividade. E da defesa de um pensamento capaz de reconhecer que “tudo se confunde, tudo se liga”.
Aquela conferência me marcou justamente por isso: não apresentava um diagnóstico fechado, mas um convite permanente à complexidade e à responsabilidade humana. Nos alertava que o caminho não estava traçado.
Meu segundo encontro com Morin aconteceu alguns anos depois, durante minha formação no Mestrado em Letras da URI Frederico Westphalen. Minha primeira orientadora naquela jornada – Silvia Helena Niederauer – trouxe para a sala de aula o livro “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro“. A leitura abriu uma possibilidade que segue viva até hoje. Morin propunha ali repensar a educação a partir de sete grandes eixos: enfrentar as cegueiras do conhecimento, construir um conhecimento pertinente, ensinar a condição humana, a identidade terrena, enfrentar as incertezas, ensinar a compreensão e cultivar a ética do gênero humano.
Meu objeto de pesquisa eram as tiras de quadrinhos do personagem Armandinho, de Alexandre Beck. Morin X Armandinho deixou de ser apenas leitura. Virou trabalho, pesquisa e prática. Em 2017, tornou-se experimento que foi levado a eventos culturais, feiras literárias e culminou no compartilhamento de atividades de formação com professores da rede pública experimentando as tirinhas como ferramenta pedagógica transdisciplinar. Daquela vivência nasceu um texto que depois amadureceu e foi publicado na coletânea “Educar é um ato de amor” (da editora Diálogo Freireano, 2025), articulando as tirinhas criadas por Beck à luz dos sete saberes de Morin. Foi uma experiência bonita de tradução pedagógica.
O menino de cabelos azuis, inquieto e questionador, passou a dialogar diretamente com o pensamento de Morin. Em cada provocação do Armandinho apareciam, de maneira acessível e potente, questões que o pensador francês formulava de modo filosófico: a crítica ao pensamento reducionista; a necessidade de contextualizar o conhecimento; a compreensão do outro; a convivência com a incerteza; a ética como responsabilidade coletiva; a consciência de pertencermos a um mesmo planeta e a uma mesma aventura humana.
O que Morin formulava como epistemologia e horizonte educativo aparecia ali traduzido na linguagem simples, crítica e provocadora das tirinhas. Talvez tenha sido esse meu encontro mais profundo com o francês. Porque foi ali que percebi a potência concreta do seu pensamento: sair do campo teórico e ganhar corpo em processos formativos, rodas de conversa, escolas, salas de aula e debates públicos. Deixar de ser apenas livro e tornar-se ferramenta viva de leitura do mundo.
Na conferência de Porto Alegre, Morin falava que uma nova humanidade era improvável — mas possível. Defendia que precisamos de mais autonomia e mais comunidade; mais pensamento e mais compreensão; mais consciência planetária e mais humanidade.
Ao receber a notícia da sua morte, volto àquela plateia de 2011. E volto também à sala de formação em 2017. Volto aos textos, às tirinhas, às conversas e aos caminhos pedagógicos que sua obra ajudou a abrir. É curioso perceber que alguns autores não passam apenas por nossa estante ou por nossa memória intelectual. Eles atravessam nosso jeito de ler o mundo. Caminham junto, não como faróis de horizonte, mas como legítimos companheiros de jornada. Edgar Morin é assim.
Ele permanece. Com suas perguntas, sua inquietação, sua defesa radical do pensamento complexo e sua confiança de que educar continua sendo um gesto profundamente humano de religar saberes, cultivar compreensão e apostar, mesmo em tempos difíceis, que outro caminho ainda pode ser construído enquanto caminhamos.
*Marcos Antonio Corbari é jornalista.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.
