ORGANIZANDO A LUTA

Encontro das esquerdas de MG reúne mais de 1500 lideranças populares

Entidades debateram caminhos para derrotar a extrema direita em Minas e reeleger Lula

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Netto abordou ainda sobre como a unidade do campo progressista começa nos encontros, mas, na prática, se dá na luta cotidiana. | Crédito: Flora Villela/ Brasil de Fato MG

No sábado (30), a Quadra dos Metalúrgicos, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, sediou o Encontro das Esquerdas Lula pelas Minas e pelas Gerais.  No evento, organizado por movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos, estiveram presentes lideranças populares, militantes e pré-candidatos do campo progressista. 

A atividade reuniu mais de 1,5 mil militantes organizados, com atuação em movimentos, sindicatos, associações, pastorais, comitês populares, do campo e da cidade, que viajaram de todas as regiões do estado. O número expressivo foi fruto de mobilizações regionais que aconteceram ao longo de todo o mês de maio. 

“A defesa da democracia ainda é fundamental e, nesse contexto, Minas Gerais tem centralidade. Assistimos candidaturas da direita e extrema direita que buscam dar continuidade a uma hegemonia reacionária na gestão estadual. Para derrotar a extrema direita em Minas e no Brasil, precisamos que o principal jogador do time de Lula entre em cena: o povo organizado”, destaca o manifesto apresentado no evento.

O objetivo do encontro centrou-se na unificação das análises da realidade entre os setores da esquerda mineira e no planejamento de esforços coletivos. As falas perpassaram a construção de uma frente política de enfrentamento à extrema direita e de uma alternativa viável para disputar o governo do estado, além de apontarem a centralidade da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) .

“Nós cortamos esse estado inteiro para chegar aqui, ansiosos por esse encontro. Esperamos que, com essa mobilização, possamos marcar a história de 2026 em Minas Gerais e no Brasil, saindo daqui com clareza de quais são as nossas tarefas”, explicitou, em sua fala, o coordenador no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) Silvio Netto. 

Unidade das esquerdas

Netto abordou ainda sobre como a unidade do campo progressista começa nos encontros, mas, na prática, se dá na luta cotidiana. Para diversas das lideranças, que se pronunciaram ao longo do dia, é dever das esquerdas construírem força própria, garantindo, dessa forma, um projeto que assegure mais direito e que combata os privilégios.

“É preciso consolidar uma grande unidade entre nós da esquerda. Unidade que vem dos movimentos populares, do movimento sindical e que traz de arrasto os partidos de esquerda. É chegado o tempo de nos fortalecermos, fortalecer o movimento popular, a luta, inclusive com uma candidatura própria, para que nós possamos determinar os rumos”, complementou Netto. 

Para o coordenador do MST, é fundamental que a eleição não termine nela própria, já que, segundo ele, quando a luta é só eleitoral está fadada a fracassar. “Temos que romper o ciclo em que a luta institucional subordina a luta popular. Nós precisamos entender, de uma vez por todas. Sempre que fomos vitoriosos eleitoralmente foi porque a luta popular impulsionou a vitória”, destacou. 

Manifesto

A centralização de esforços políticos e aprofundamento da unidade do campo estiveram presentes também no Manifesto de movimentos, intelectuais, artistas e lutadoras e lutadores do povo:  com Lula por uma Minas Gerais justa democrática e popular

Resultado dos debates do dia 30 e assinado pelas diversas entidades presentes, o texto aponta que, outrora vanguarda da luta democrática e por um projeto de desenvolvimento soberano para o país, “governado pela extrema direita há oito anos, Minas se transformou em símbolo do atraso, se posicionando contra a democracia, a ciência e a justiça social”. 

Nesse sentido, o debate em torno dos bens minerais estratégicos no estado, principalmente as terras raras, de seu potencial de desenvolvimento e do modelo aplicado hoje em sua exploração, com entrega dos patrimônios sem contrapartida adequada, aparece também ao longo do manifesto. 

“Se seguirmos desprovidos de um projeto que oriente o desenvolvimento para o estado de Minas Gerais, como querem os neoliberais, veremos a intensificação da exportação de nossas riquezas, sem deixar ganhos e agravando a crise social e ambiental. Por outro lado, a serviço de um projeto democrático, soberano e popular, essas riquezas transformarão a economia e a vida do povo mineiro, com transferência de tecnologia e atração de indústrias de ponta. É com Lula que esse projeto pode avançar no Brasil e em Minas Gerais”, aponta o documento. 

Análise de conjuntura

Durante a manhã, a mesa que abriu o encontro, reuniu coordenadores do MST e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), bem como pesquisadores, em um esforço de condensar os pontos centrais da realidade internacional e mineira, de forma a orientar as pautas tratadas no restante do evento.

“O que acontece em Minas Gerais acontece no Brasil. Por isso, nós temos uma tarefa muito importante: ganhar a eleição com ampla margem em Minas Gerais. Para isso, nós resolvemos não esperar e começar um grande movimento de organização dos lutadores e lutadoras do povo de Minas Gerais, aqueles que têm consciência do papel estratégico e histórico da esquerda”, destacou Joceli Andrioli, membro da coordenação nacional do MAB.

Ao longo da tarde, com participação de figuras importantes do Partido dos Trabalhadores (PT), seguiram-se balanços acerca do significado do cenário político mundial e como isso impacta nas eleições e na realidade brasileira. 

Em sua fala, o presidente nacional do partido, Edinho Silva, salientou que o que temos assistido em todo o planeta é o avanço do facismo. Ele relembrou que a última vez que uma força política semelhante avançou, na primeira metade do século 20, desembocamos no nazismo e na Segunda Guerra Mundial.

“É preciso ter clareza que o embate que nós teremos este ano é o embate de qual Brasil nós vamos deixar para as futuras gerações. Se os nossos filhos e netos, as crianças e os adolescentes que estão vindo aí, vão viver em um Brasil democrático e humanista ou se eles vão viver em um Brasil de inspiração fascista, onde as pessoas são tratadas, muitas vezes,  como se existisse ser humano de primeira categoria e ser humano de segunda categoria”, destacou Silva.

Centralidade da comunicação 

Outro destaque nos debates foi a participação do secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares. Em sua fala, ele recapitulou o significado político do golpe contra a ex-presidenta, Dilma Rousseff, e dos acontecimentos políticos que se seguiram, reforçando a importância simbólica da vitória nas eleições de 2022. 

“Nós fomos para 2022 enfrentar esse tipo de presidente inumano que fez o que fez na pandemia. E conseguimos uma vitória histórica, Bolsonaro foi o primeiro presidente que não se reelegeu no Brasil desde que teve a instituição da reeleição. Só conseguimos derrotar o mal graças à resiliência, à força e à luta de cada companheiro militante e das trabalhadoras e trabalhadores do Brasil”, afirmou Valadares. 

Apesar disso, o diagnóstico apontado pelo secretário é crítico, devido a permeabilidade social e importância informacional que as plataformas e redes sociais têm hoje na vida dos brasileiros. Como explica ele, parte da sociedade brasileira foi capturada por um processo que reune, por um lado, a extrema direita e sua política do ódio, violência, discriminação e preconceito, e, por outro, essa nova forma de comunicação que são celulares e as redes sociais. 

“Não existe mais diferença entre a vida real e um mundo virtual, nossas vidas se misturam e são uma só. A classe trabalhadora  se organiza, produz e vive pelo WhatsApp”, explica o secretário do PT. 

Ele apontou ainda como isso se complica diante de redes sociais que abandonaram o teatro da neutralidade, deixando de lado a ideia de que vivemos em “uma praça pública onde todo mundo pode jogar igual”, sendo hoje ferramentas que desafiam a democracia, a cidadania e a soberania do Brasil. 

“Uma parte da sociedade brasileira não tem mais como critério para a escolha de voto a comparação racional entre projetos e entre programas. Está sendo mudada por fake news, por manipulação, por câmaras de eco, há anos e anos, dizendo que a corrupção foi criada pelo PT. Há anos e anos eles são vítimas de uma série de mentiras e, apesar de estar vendo na televisão os números da realidade, no WhatsApp, o trabalhador e a trabalhadora recebem uma quantidade enorme de desinformação e mentiras”, afirmou Valadares. 

Nesse sentido, o debate do encontro também perpassou a atuação dos militantes no cenário de crise informacional. Dessa forma, os militantes se propõem a ser porta-vozes, debatendo na sociedade a esperança e o futuro. “Para falar do muito que Lula fez, mas também sobre o que a gente ainda pode fazer”, explicou Valadares. 

Perspectivas para Minas 

Apesar do encontro massivo e da disposição dos movimentos, partidos e entidades presentes na construção de um projeto alternativo para o Brasil e Minas Gerais, o campo  progressista ainda não possui a definição de uma pré-candidatura apoiada por Lula ao governo do estado.  

Apesar disso, a avaliação dos movimentos é de que o encontro demarca um primeiro passo sólido no caminho da construção de uma frente popular que pense um programa e  táticas eleitorais, e não fique subordinada só ao debate de um nome. 

“Minas Gerais tem muita história de luta. As revoltas quilombolas, indígenas, camponesas permeiam toda a história da luta do povo mineiro, que não é um povo covarde, e já demonstrou a sua coragem em todos os momentos da história. Querem abocanhar todos os nossos bens da natureza, nossas empresas públicas, controlar o estado e todo o território. Estão unificados para isso, e nós não podemos vacilar”, afirmou Silvio Netto. 

No mesmo sentido, o manifesto final do encontro aponta que, “vencer as eleições  será decisivo para a correlação de forças em Minas Gerais e para a afirmação de um projeto que defenda a democracia, que avance no combate às desigualdades sociais, de gênero e raça, no enfrentamento ao feminicídio, na socialização do trabalho doméstico, na luta pela efetivação das pautas LGBTQIA+ e na proteção ao meio ambiente”. 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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