A Polícia Civil apura as circunstâncias de um incêndio criminoso no terreiro de kimbanda e umbanda Tranca Ruas de M’Bará Hé, em Nova Friburgo, Região Serrana do Rio de Janeiro. O crime ocorreu no dia 16 de maio, foi registrado na 151ª DP, e pode ser enquadrado como possível caso de intolerância religiosa.
A perícia realizada no local constatou indícios de ação criminosa. O fogo atingiu a lateral do imóvel. Nas redes sociais, o sacerdote Geazi de Xangô relatou que o espaço sagrado só não foi completamente tomado pelo fogo por conta da solidariedade de vizinhos e da atuação do Corpo de Bombeiros.
Segundo a liderança do terreiro, o ataque ocorreu em um contexto maior de ameaças à liberdade religiosa na região. A comunidade vem sofrendo ameaças constantes, inclusive de linchamentos, por parte de vizinhos.
“Nós, que vivemos sob constante ameaça de vizinhos, sob o julgo dos olhares de quem ignora a liberdade religiosa de nosso país, ainda no dia, fomos ameaçados de linchamento por parte de pessoas ao redor que acreditaram realmente que não haveria respaldo da polícia para o ocorrido”, relatou Geazi de Xangô.
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“Registrado o Boletim de Ocorrência na 151° Delegacia de Polícia, prontamente a polícia civil, minutos após o ocorrido, enviou peritos ao local e constatamos o que parecia ser improvável, porém não impossível: crime!”, escreveu.
Ao Brasil de Fato, a polícia informou que “agentes realizam diligências para identificar a autoria e apurar as circunstâncias do crime”. A investigação está em andamento na 151ª DP (Nova Friburgo).
Racismo religioso
O caso motivou a deputada estadual Renata Souza (Psol-RJ) a cobrar a atuação conjunta da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) para garantir a correta tipificação dos crimes. Além da Decradi, Souza também encaminhou ofício ao Procurador-Geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro para que o Ministério Público adote medidas de proteção às vítimas.
O sacerdote Geazi de Xangô, liderança da casa de Nova Friburgo, reafirmou a resistência histórica dos terreiros de matriz afro-brasileira, que enfrentam até hoje diversas formas de violência vindas do Estado e da sociedade.
“Não existirá um dia em que não temamos o mal. E não haverá um dia em que vamos nos acovardar perante ele! Nossos antepassados resistiram à escravização e hoje nós resistiremos à chibata social!”, escreveu.
O combate ao racismo religioso ficou mais rigoroso no Brasil a partir de 2023, por meio de um decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que endureceu as penas para dois a cinco anos de reclusão (Lei 14.532).
Segundo o painel do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Rio de Janeiro registrou 435 denúncias de intolerância religiosa em 2025.
