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Autismo S.A.: o “padrão-ouro” de um mercado bilionário

Quais interesses econômicos orientam a produção de diagnósticos, protocolos, certificações e serviços especializados?

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Rio de Janeiro - 8ª Caminhada do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, promovida pelo Grupo Mundo Azul, no Leblon, zona sul da cidade. O grupo luta por centros de tratamento e reabilitação para autistas, por atendimento multidisciplinar diagnóstico precoce, educação especial, além de lar terapêutico para os órfãos
8ª Caminhada do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, promovida pelo Grupo Mundo Azul, no Leblon, Rio de Janeiro | Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O autismo se tornou um dos mercados mais lucrativos da atualidade. O crescimento de diagnósticos, terapias, certificações, plataformas, cursos, franquias clínicas, judicializações e produtos voltados ao chamado “tratamento” do Transtorno do Espectro Autista (TEA) consolidou um verdadeiro complexo econômico em torno da condição. O que está em disputa não é apenas uma categoria diagnóstica, mas a transformação da deficiência em matéria-prima para extração de lucro.

No Brasil, esse processo reorganiza também o próprio Estado. Dados do material técnico “A ‘Indústria’ do Autismo no Contexto Brasileiro Atual”, produzido por pesquisadores da UFRJ e da Rede Nacional de Pesquisas em Saúde Mental de Crianças e Adolescentes, mostram que o número de proposições legislativas relacionadas ao autismo explodiu nos últimos anos. Em levantamento realizado na Câmara dos Deputados, foram identificados 315 projetos em tramitação sobre o tema. Apenas em 2023, foram apresentadas 118 proposições, muito acima das décadas anteriores, quando os números anuais eram residuais.

A centralidade crescente do autismo nas disputas legislativas produz outro efeito político relevante: a falsa impressão de que políticas voltadas ao TEA seriam capazes de responder às múltiplas demandas desse grupo e das pessoas com deficiência em geral. Com isso, experiências profundamente distintas de exclusão, cuidado e acesso a direitos acabam integradas a uma lógica diagnóstica específica, mais facilmente capturada pelo mercado especializado.

O que presenciamos hoje é a consolidação de uma verdadeira cadeia produtiva da deficiência, com o autismo ocupando posição estratégica na disputa por recursos públicos, na expansão de mercados terapêuticos e na consolidação de setores privados voltados à gestão da deficiência.

A ativista e pesquisadora Mia Mingus já alertava, há anos, para a existência de um complexo médico-industrial sustentado pela articulação entre capitalismo, capacitismo e ideais de corponormatividade. Em suas análises, não são apenas as necessidades concretas das pessoas com deficiência que movimentam esse sistema, mas também a produção contínua de corpos considerados inadequados, improdutivos, desviantes ou insuficientemente funcionais diante das exigências sociais de normalidade, autonomia e desempenho.

No caso do autismo, essa engrenagem assume contornos particularmente sofisticados: quanto maior o número de diagnósticos, maior a demanda por terapias; quanto maior a demanda terapêutica, maior a circulação de recursos públicos e privados. Ao mesmo tempo, consolida-se uma economia especializada na gestão, correção e normalização dos corpos e comportamentos, sustentada pela promessa permanente de adaptação aos padrões hegemônicos de produtividade, comunicação e sociabilidade.

Essa racionalidade ultrapassa o campo da saúde e avança também sobre a educação. Linguagens clínicas, protocolos comportamentais e categorias diagnósticas passam progressivamente a reorganizar a própria experiência escolar, deslocando o debate pedagógico sobre inclusão para modelos centrados na gestão técnica dos comportamentos.

É nesse contexto que a noção de “padrão-ouro”, frequentemente mobilizada para legitimar determinadas abordagens terapêuticas, revela seu duplo sentido político. O padrão-ouro parece residir menos na produção coletiva de cuidado e mais na capacidade de converter sofrimento, diferença e deficiência em nichos altamente rentáveis de investimento e exploração econômica.

Esse movimento produz um efeito político decisivo: o esvaziamento progressivo do modelo social da deficiência. Em vez de organizar políticas públicas a partir da remoção de barreiras sociais, educacionais, urbanísticas e comunicacionais e da promoção do acesso equitativo ao cuidado, o debate passa a ser estruturado sobretudo por categorias clínicas, protocolos terapêuticos e tecnologias diagnósticas.

Com isso, recursos públicos são progressivamente absorvidos por nichos especializados de intervenção e reabilitação, enquanto políticas universais de saúde, educação, acessibilidade, cultura e proteção social permanecem subfinanciadas.

Os efeitos dessa reorganização ultrapassam o campo do autismo. Quanto mais recursos, visibilidade institucional e mobilização econômica se concentram em diagnósticos com maior capacidade de captura mercadológica, mais outras pessoas com deficiência — especialmente pobres, negras e atravessadas por múltiplos marcadores de desigualdade — permanecem submetidas à precarização histórica do SUS, da educação pública e da assistência social.

O risco dessa lógica não está apenas na privatização do cuidado, mas na redução da própria experiência humana a um campo de gestão técnica do comportamento. Nesse sentido, o sofrimento enfrentado se converte em mercado de consumo, quase como uma venda permanente de solução, a qual não apenas reafirma a desumanização das pessoas com autismo, mas também enfraquece a capacidade coletiva de enfrentar as estruturas que produzem exclusão.

Para uma parcela minoritária da população, isso se traduz em jornadas exaustivas entre clínicas, especialistas, avaliações, relatórios, planos terapêuticos e disputas judiciais por acesso a serviços de alto custo. Mas a realidade da maioria das famílias brasileiras é ainda mais brutal: ausência quase completa de acesso ao cuidado, longas filas no SUS, escassez de serviços territoriais.

Essa desigualdade é constitutiva da própria organização desse mercado. Enquanto setores privados altamente especializados concentram investimentos, legitimidade técnica e crescente poder político, milhões de pessoas com deficiência permanecem submetidas ao abandono histórico. Nesse contexto, medo, culpa, esperança e exaustão convertem-se também em ativos econômicos altamente mobilizáveis, criando as condições ideais para a expansão de soluções privatizadas apresentadas como únicas alternativas possíveis.

A expansão desse mercado produziu também um efeito discursivo importante: críticas à mercantilização do autismo passaram a ser frequentemente tratadas como ataques às próprias pessoas autistas ou às famílias. Ao mesmo tempo, consolida-se uma hierarquia de saberes na qual discursos médicos e psiquiátricos viram autoridade quase incontestável sobre o autismo, em detrimento dos campos da educação, das ciências humanas e das próprias experiências produzidas por pessoas autistas e com deficiência.

A questão central, porém, permanece outra: quem define as prioridades das políticas públicas? Quais setores concentram recursos? Quais interesses econômicos orientam hoje a produção de diagnósticos, protocolos, certificações e serviços especializados? E quais grupos continuam sistematicamente excluídos desse circuito de acesso?

Cerca de 75% da população brasileira não possui plano de saúde. Isso significa que a maioria das pessoas autistas e de suas famílias sequer acessa os circuitos privados de judicialização, clínicas intensivas e tratamentos de alto custo que hoje organizam grande parte do debate público sobre autismo. Ao mesmo tempo, recursos públicos e privados são crescentemente direcionados para nichos altamente especializados, enquanto permanecem subfinanciadas as políticas universais estruturantes.

Assim, permanece marginalizada a pergunta mais fundamental: o que seria possível construir se os recursos hoje mobilizados pela indústria do autismo fossem direcionados para a redução das desigualdades sociais e das barreiras que atravessam a
vida cotidiana das pessoas com deficiência? Quantas crianças poderiam encontrar condições mais dignas de existência? Quantas famílias estariam amparadas se houvesse investimento massivo em saúde pública, apoio comunitário, acessibilidade urbana, proteção social e políticas territoriais de cuidado?

Entre a expansão ilimitada dos mercados terapêuticos e o fortalecimento radical de políticas públicas universais, talvez essa seja a escolha política mais importante colocada diante de nós hoje.

*Mariana Rosa, doutoranda em Educação pela USP e conselheira do Conselho Nacional de Educação. Viviane Nunes Sarmento, doutora em Educação, professora da Universidade do Agreste de Pernambuco, militante do Movimento Brasil Popular.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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