Mulheres camponesas de diferentes regiões do país ocuparam Brasília, nesta quarta-feira (3), para celebrar a produção agroecológica, reivindicar políticas públicas e reafirmar a luta por soberania alimentar e autonomia feminina. A 2ª Mostra Nacional da Produção e Ciência das Mulheres Camponesas – Sociobiodiversidade e Bem-Viver reuniu trabalhadoras rurais de 19 estados no espaço cultural Birosca do Conic, no centro da capital do país.
Organizada pelo Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e pela Associação Nacional de Mulheres Camponesas (ANMC), a atividade celebrou os 43 anos de existência do movimento. O encontro não foi apenas uma exposição de produtos, mas um ato político de afirmação da agroecologia e do conhecimento ancestral como ciência legítima produzida nos territórios.
A feira contou com 30 bancas nacionais e a representação de 19 estados brasileiros, além de três bancas específicas do Distrito Federal e Entorno (Ride). Pelos corredores do Conic, o público encontrou desde sementes crioulas e ervas medicinais até quitandas, licores e artesanatos que expressam a identidade cultural de cada território.
Para Julciane Inês Anzilago, dirigente nacional do MMC, a mostra representa apenas uma pequena dimensão do trabalho desenvolvido diariamente pelas mulheres do campo, das águas e das florestas em todo o país.
“Essa mostra deixa transparecer uma pequena parte do que as mulheres do campo, das águas e das florestas fazem nesse imenso Brasil. A missão de produzir alimentos saudáveis sem veneno é uma missão bonita das camponesas, mas é necessário que tenham políticas públicas que contribuam para esta ação na materialidade da vida das mulheres”, afirmou.
A dirigente do MMC destacou que o fortalecimento da produção camponesa passa diretamente pela garantia de renda e condições dignas de permanência nos territórios.
“Essa materialidade precisa ter concretude dentro dos territórios, gerando renda e trabalho digno para as mulheres. Isso é muito importante porque vai gerar vida no campo. E gerar vida no campo significa alimentar o Brasil com comida saudável, comida boa que alimenta as pessoas do Brasil”, ressaltou Anzilago.
Segundo ela, a presença de representantes de diferentes estados simboliza uma conquista construída a partir da organização popular e da luta das mulheres camponesas.
“É muito bacana estarmos aqui com mulheres de 17 estados compartilhando este momento festivo, que é a concretude dos programas ‘Quintais Produtivos’ e ‘Da Terra à Mesa’, políticas públicas conquistadas pela luta das mulheres e que se fazem presentes nesta mostra”, disse.
Quintais produtivos e economia
A diversidade de produção foi um dos pontos centrais do evento, com itens vindos da Amazônia, do Semiárido, do Cerrado e dos Pampas. A presença de camponesas de diferentes regiões evidenciou a força dos quintais produtivos como espaços estratégicos de conservação da biodiversidade e de geração de renda para as famílias rurais.
Mirele Diovana, também da direção nacional do MMC, destacou que a feira reafirma o papel das mulheres como produtoras de alimentos e protagonistas da economia solidária.
“Estamos aqui realizando essa mostra para mostrar para as comunidades a importância dessa feira como política pública dos nossos quintais produtivos. Fazer essa feira é reafirmar que as mulheres produzem e que também querem comercializar seus produtos, fortalecendo a economia solidária e feminista”, afirmou.
Um dos momentos centrais do evento foi o lançamento oficial dos projetos Quintais Produtivos e Da Terra à Mesa. As iniciativas, realizadas em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), têm como objetivo estruturar a produção agroecológica e ampliar o acesso a equipamentos e insumos para as trabalhadoras.
Ao todo, os projetos devem beneficiar diretamente mais de mil mulheres em 17 estados, com um investimento que ultrapassa os R$ 10 milhões. A proposta vai além da entrega de materiais, incluindo processos de formação política, auto-organização e enfrentamento às diversas formas de violência no campo.
“Essa segunda mostra tem uma importância muito grande para o reconhecimento do trabalho dos quintais produtivos e de tudo o que se produz, como ervas medicinais e sementes. Tá nas mãos das mulheres o saber de selecionar espécies e cuidar das raças, o que demonstra que as camponesas fazem ciência e garantem a soberania alimentar”, reforçou Rosângela Cordeiro, militante do MMC.
A ciência camponesa foi defendida como uma alternativa ao modelo do agronegócio baseado em agrotóxicos. Lideranças destacaram que o manejo das sementes crioulas e o cuidado com as águas são frutos de uma observação rigorosa da natureza e de trocas geracionais que garantem a vida nos territórios.

Mulheres no centro das políticas públicas
Durante o ato político, representantes do governo federal reconheceram o protagonismo das mulheres na construção das políticas públicas atuais. A diretora da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Naiara Andreoli Bittencourt, ressaltou que o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) se tronou uma política essencialmente feminista.
“No PAA, temos a execução de 80% de beneficiárias mulheres que entregam seus alimentos especialmente nas cozinhas solidárias. É uma tecnologia construída pela sociedade civil que o governo abraçou. O PAA é uma política feminista construída de mulheres para mulheres, das agricultoras para as cozinheiras”, explicou.
A secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Lília Raal, também enfatizou a importância do movimento para pautar o tema das sementes. Segundo ela, o MMC foi determinante para que mecanismos de multiplicação e distribuição de sementes se tornassem política pública.
“A gente não pode esquecer o quanto o movimento foi determinante para que tivéssemos ações de sementes no PAA. Precisamos avançar para que as sementes estejam disponíveis e para que possamos guardar e recuperar essa fonte de alimento que as camponesas produzem no seu dia a dia”, pontuou a secretária.
Soberania alimentar e democracia
A representação de Sergipe também marcou presença, destacando a necessidade de diálogo direto com os órgãos federais. Para as camponesas do estado, a mostra é um espaço para visibilizar a contribuição das águas e das florestas na produção de saúde para as cidades.
“Estamos aqui para visibilizar o trabalho e a importância da contribuição das mulheres na produção de alimentos saudáveis que abastecem os mercados e produzem saúde. É um momento de dialogar com os ministérios para seguir avançando na conquista de políticas que favoreçam a dignidade da mulher no campo”, afirmou Cirlei Ferreira, militante do MMC de Sergipe.
A presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Elisabetta Recine, trouxe uma perspectiva sobre o cenário político global e a importância de ocupar espaços de poder. Ela alertou para os riscos de retrocessos democráticos e a necessidade de fortalecer a participação social.
“A soberania alimentar é um dos recursos que temos para fazer os enfrentamentos necessários. Quanto mais fortes formos aqui dentro, com participação social nos conselhos, mais fortes estaremos. Não se acanhem, todas temos o direito de ocupar as cadeiras de poder e dos processos decisórios”, incentivou.
O encerramento do ato político da 2ª Mostra Nacional foi marcado pela assinatura do termo de recebimento dos equipamentos entregues às trabalhadoras rurais beneficiadas pelos projetos Quintais Produtivos e Da Terra à Mesa, reafirmando que a luta das mulheres do campo segue ligada à defesa da soberania alimentar, da democracia e da justiça social no Brasil.

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