Saúde Pública

HUGG em risco: fusão ameaça hospital histórico do SUS

Hospital foi incorporado pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado e agora é administrado pela Ebserh

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Fachada do Hospital Universitário Graffée e Guinle
Sindicato afirma que atendimento diminuiu após fusão com hospital federal HSFE | Crédito: Secom/Ebserh

O Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG) está sendo desmontado e suas atividades descontinuadas após a “fusão” com o Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). A transferência de serviços, equipes e estrutura está sendo realizada sem qualquer planejamento da gestão, diálogo com a rede, os profissionais que trabalham nas unidades e com os usuários. O futuro do próprio prédio, que abriga há 97 anos o HUGG, segue incerto.

O quase centenário hospital foi inaugurado em 1929 como a maior obra filantrópica da Fundação Gaffrée e Guinle, idealizada por Cândido Gaffrée e concretizada por Guilherme Guinle, famílias ricas responsáveis por grandes empreendimentos no país, como o Porto de Santos.

Inicialmente, o hospital tinha como missão central o combate às doenças venéreas, especialmente a sífilis, considerada um grave problema sanitário no Brasil do início do século 20. Segundo a escritura da fundação, caberia à família Guinle construir e instalar um hospital voltado ao tratamento da sífilis e de outras doenças venéreas, em terreno adquirido pela própria família e posteriormente incorporado ao patrimônio da fundação. O aparelhamento e a manutenção do hospital ficariam a cargo do governo federal, assim como a implantação de ambulatórios para diagnóstico e profilaxia da doença.

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O hospital teve um papel fundamental à época. Até então, existiam basicamente as Santas Casas de Misericórdia, irmandades católicas originadas em Portugal no século 15. O Gaffrée e Guinle ajudou a desafogar esses atendimentos ao oferecer assistência gratuita à população.

Considerado o maior hospital da cidade, o Gaffrée contava com 320 leitos. Em 1966, a unidade foi incorporada à Escola de Medicina e Cirurgia; em 1968, passou a adotar o nome pelo qual é conhecido atualmente: Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. Uma reforma foi realizada para adequá-lo à função de hospital-escola.

Em 5 de junho de 1979, há exatos 47 anos, a unidade foi incorporada à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), passando a integrar o Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) e contribuindo para a formação, segundo dados da própria universidade, de cerca de 500 alunos de graduação e 200 de pós-graduação em Medicina.

O HUGG também funciona como hospital-escola da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, atendendo estudantes de graduação e pós-graduação, além de alunos das Escolas de Nutrição e Biomedicina. A unidade também recebe estagiários de instituições públicas e privadas em áreas como Serviço Social, Psicologia, Fonoaudiologia e Análises Clínicas.

Em 1987, a unidade foi credenciada como Centro Nacional de Referência em AIDS, promovendo assistência especializada, formação de profissionais e produção de conhecimento sobre a doença. O HUGG foi pioneiro na adoção de um modelo que hoje é padrão no Sistema Único de Saúde (SUS): atendimento multidisciplinar, com médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, envolvendo diagnóstico, tratamento, acompanhamento contínuo e aconselhamento.

Nas últimas décadas, o HUGG consolidou-se como um hospital universitário multidisciplinar. Atualmente, oferece atendimento integral em especialidades como clínica médica e cirúrgica (média e alta complexidade), infectologia (com histórico de referência em HIV/AIDS), oncologia, gastroenterologia e hepatologia (inclusive com centro de referência), pediatria, ginecologia e obstetrícia, além de diagnóstico por imagem, exames laboratoriais e ambulatórios especializados. Também mantém forte atuação na formação de profissionais e na pesquisa em saúde.

De acordo com o último levantamento do Ministério da Educação, em 2023 o HUGG contava com 148 leitos ativos – até 2015, antes do contrato com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), a unidade possuía 230 –, 1.534 trabalhadores, 109.089 consultas realizadas, 132.389 exames e 3.747 cirurgias. Segundo dados do governo, entre 2020 e 2024, o hospital realizou mais de 66 mil consultas de primeira vez, sendo mais de 22 mil apenas em 2023.

Futuro incerto

Em 2025, foi formalizada a incorporação do Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) ao Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. A “fusão” cria um único complexo hospitalar universitário, administrado pela Ebserh, instituição que, segundo servidores, apresenta problemas como precarização das relações de trabalho e centralização da gestão.

A integração foi apresentada como um ganho para a reorganização dos fluxos assistenciais, o fortalecimento do ensino e da pesquisa e a ampliação da capacidade de atendimento. Contudo, do que tem se tratado é da extinção de duas das mais importantes unidades hospitalares e de formação da força de trabalho do Sistema Único de Saúde (SUS) deste país.

A transferência da maior parte dos servidores do HFSE para outros órgãos públicos e dos servidores e serviços do HUGG caracteriza o apagamento da história dessas duas unidades, e não se trata de apagamento simbólico. Trata-se do comprometimento de práticas assistenciais, do campo do ensino, da pesquisa e extensão, que levaram toda uma história para serem incorporadas ao SUS. Além disso, relatos de trabalhadores indicam impactos diretos, como o fechamento de leitos de clínica médica, a redução da capacidade de internação, a superlotação no pronto atendimento, com espera superior a seis horas, e dificuldades na infraestrutura de ensino e assistência.

O quase centenário HUGG está sendo desmontado gradativamente. A retirada de serviços, a transferência de equipes, a incerteza sobre o prédio, a redução da capacidade assistencial e a falta de transparência sobre o processo de “fusão” criam um cenário de insegurança para profissionais da saúde, estudantes e pacientes.

Ao longo dos últimos meses, a Associação dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Asunirio) tem denunciado as irregularidades e os impactos desse processo, articulando com a Defensoria Pública da União, movimentos sociais e mobilizando servidores e a população em defesa da permanência do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle — patrimônio histórico da saúde pública brasileira e referência na integração entre ensino, pesquisa e atendimento.

Trabalhadores do HUGG realizarão um ato em frente ao hospital para denunciar as irregularidades e dialogar com a população carioca sobre a importância da unidade e o risco de descontinuidade de atendimentos. A manifestação está marcada para terça-feira (9), às 9h30, em frente ao HUGG – Rua Mariz e Barros, 775 – Maracanã, Rio de Janeiro.

*Associação dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Asunirio) foi fundado em 10 no contexto de redemocratização e enfrentamento da política de retirada de direitos trabalhistas. 

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Jaqueline Deister

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