Após um final de semana conjunto entre Mari del Mar, Soledad, Luna e Ana Tierra, o relógio apontava seis da manhã. Na fronteira, o amanhecer é lento, o sol demora a raiar. Chovia leve naquele dia. O céu estava cinzento no momento em que Mari del Mar e Soledad se preparavam para sair. Havia um pacto silencioso entre elas: quem levantasse primeiro, na habitação compartilhada da moradia estudantil, passava o café e cada uma partia com sua caneca em mãos para o ponto de ônibus à espera do intercampi da universidade.
Mas, naquele dia, algo ocorreu entre a espera do ônibus e a vida pulsante das jovens. Mari del Mar viu que uma criança buscava algo para comer no lixo. Pelo olhar de Mari del Mar, eu, Ybytú, fui suspenso, enquanto a jovem viajava para as terras amazônidas presentes na imagem do “menino da fome”. Nesse instante, de fôlego suspenso e corpo paralisado, o ônibus passou. As jovens não subiram. Ficaram imóveis, presas àquela criança, que era também parte de suas vidas.
Passado o transe, as jovens decidiram caminhar. Em silêncio, respiravam cúmplices o ar da desigualdade que as igualava como “mulheres ninguéns”. Soledad deu sua caneca de café ao “menino da fome”, e Mari del Mar lhe presenteou uma chipa que havia ganhado de uma colega paraguaia. Seguiram a rota rumo a qualquer lugar fora daquela imagem, como se caminhassem sem destino.
Enquanto isso, eu, a “bruxa dos ventos”, as acompanhava no assovio tristonho, chegado dos Andes e expandido nos mares do Pacífico e do Atlântico que banham parte das histórias dessas “mulheres ninguéns”.
Soledad sugeriu irem para a beira do rio Iguaçu. Sentaram na borda do rio em que é possível admirar os territórios, suas fronteiras, imaginando que outras construções foram produzidas nesse território antes da invasão colonial e da consolidação dos estados nacionais e suas usinas. Era grande o que viam nas margens; era distante até onde ia a saudade; era presente o sentimento de ausência; era viva a memória de suas histórias de fome materializadas naquele menino do outro lado da pista.
Mari del Mar quebra o silêncio cantando uma música aprendida com sua gente do mangue, ao ver os urubus subindo e descendo:
No meio do Pitiú
Eu fui cantar carimbo/Lá no Ver-o-Peso/Urubu sobrevoando/
Eu logo pude prever/Parece que vai chover
Depois que a chuva passar/Vou cantar carimbó pra você
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú…
Urubu malandro/Foi passear lá no Marajó
Comeu de tudo/Mas vivia numa tristeza só
Urubu lhe perguntou/O que se passa, compadre?
Tô com saudade da minha branca/Do Ver-o-Peso, da sacanagem
Lá eu sou pop star/No meio da malandragem
Fico bem na foto/Na entrevista e na reportagem
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú…
Soledad, muito atenta aos silêncios de Mari del Mar, pergunta: “E o que é Pitiú? Um lugar?”. Mari del Mar sorri meio tímida e diz: — Não, não! É uma expressão amazônida que nos remete ao cheiro do peixe fresco, dos barcos, ao movimento das marés e das conversas que ela leva e traz. Venho de uma região do Pará em que viver do mangue é comum. Minha casa e o mangue não têm uma fronteira fixa, depende do movimento das marés. O ciclo do caranguejo faz parte do meu “Pitiú salvação”. Minha família sempre trabalhou intensamente. Por esse motivo não me lembro de uma infância em que brincar não é sinônimo de trabalhar. Assim como não me lembro de uma rotina sem choros ou silêncios.
Pelo que vejo, olhando o diálogo das duas, como vento voador, Mari del Mar aprendeu desde cedo, com a força de sua mãe, a importância da sobrevivência e da dignidade da vida dos moradores do mangue. Essas “mulheres caranguejo” são fortes e vão deixando de ser assistidas pelos governos para compor formalmente a história do trabalho assalariado em outras cidades. No caso de Mari del Mar, o exemplo de sua “família mangue” a ensinou que, mesmo em meio às maiores perdas de vida, a dignidade era companheira da caminhada, ora silenciosa, ora cantante, na luta pela sobrevivência.
Segue Mari del Mar: — Para nós, a maré leva e traz dores e amores. A gente sente, ao catar caranguejo, que no fluxo do mangue nossas respirações se atolam, se regulam, se recuperam. É por isso que aquele “menino da fome” é minha saga, de meu irmão e de todas as crianças do meu Pará do mangue. Nas rotas manguezais, se cata caranguejo para burlar a fome. E se há fome, se cata caranguejo.
O silêncio e o vento se misturam. Criaram ventos uivantes. Enquanto fala, Mari del Mar joga a terra para trás, cava um buraquinho na beira do rio, relembrando o que ficou lá embaixo e o que, vira e mexe, aparece cá em cima.
Enquanto Soledad se fixava no trabalho que Mari del Mar abria com suas mãos, esta contava, num tom de sussurro, que nem tudo que acontece no mangue deve ser desatolado. Enquanto escavava a terra, escovava a história a contrapelo. Como se aquele trabalho na lama a permitisse jogar fora muitas dores sufocadas naquela triste memória que trazia consigo para a fronteira.
Exausta do ato de escavação, Mari del Mar relembrou em voz alta que há marcas na vida do mangue que é melhor deixar cravadas na parte mais profunda da vida, da lama. Pois, quando vêm à tona, provocam dores paralisantes, mortes em vida, como a da retirante sertaneja Severina de João Cabral de Mello Neto, que haviam acabado de estudar para a aula que teriam, mas que não chegaram para a primeira parte por conta do gatilho da fome pelo qual passaram.
Juntas, as duas se lembraram do trecho do poema que haviam lido para a aula e, olhando para o rio, entoaram: “E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte Severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos 20, de fome um pouco por dia”. E fecha o verso Mari del Mar: — De fraqueza e de doença é que a morte Severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida.
Estavam aos prantos essas belas jovens. Tem algo de peculiar nessa geração: choram e falam muito facilmente sobre suas dores. O sufocamento do choro e do afeto foi algo obrigatório para as gerações que vivenciaram a miséria do escravismo colonial e da condição de morte das ditaduras militares.
Soledad entendeu que havia dores que deviam ser respeitadas e que, no devido tempo, essas histórias seriam compartilhadas. Deixou fluir o silêncio e o vento uivante que descia dos morros dos dois lados da fronteira. Aproveitou o rio para falar sobre sua história. Disse que a fome não foi algo presente na sua infância, mas que o mundo do trabalho intenso e com longas jornadas de trabalho de seus pais, sim.
Soledad tinha um traço muito interessante de personalidade: mesmo triste, consegue provocar o riso; mesmo chorosa, contorna o drama com a ironia. Parece uma jovem saída dos contos de Ariano Suassuna, em que rir do próprio drama é um modo de vida comum para os povos sertanejos.
A jovem paulista molhou os pés no rio e começou a lembrar de uma infância em que era natural ensinar às crianças o sentido de autoridade de pai, com tapas, sem beijos: — Sou de uma geração que, se ousasse contestar meu pai, apanhava. E apanhei demais porque eu sempre falei com os olhos e com o sorriso jocoso nos lábios. Apanhar consolidou em mim marcas profundas. Hoje entendo a necessidade do choro como a de “lavar a alma”, deixar a “água correr”, o tempo recompor meu ser na forma de poesia, de teatro, de coletividade pulsante. Em meio às surras, eu me refugiei sempre na leitura. Os livros me provocam encontros, perguntas, cenários de voos. Os livros são o oposto do tapa. São o direito ao delírio e ao sonho.
Os ventos vão-vêm, esfriam-esquentam, gritam-silenciam. Soledad se pergunta sobre as histórias de sua família, seus medos e limites. Ela é tão bela na capacidade de chorar com os olhos e sorrir com os lábios. Traz uma doçura no tom e uma firmeza nos atos que fazem com que Mari del Mar se sinta segura ao lado dela. Juntas, as jovens são a conexão entre a mansidão e a tempestade.
Com os olhos sorridentes, Soledad lembra da aula de educação popular, que demorou para engrenar, pois o tom forte da professora a remetia aos tapas de seu pai no processo nada acolhedor de educar com as armas que teve de aprendizagem. Continua: — Hoje eu entendo que o problema com a professora está no que eu trago de história, tal como você com o Pitiú. Minha relação com meus pais é muito diferente hoje. Enfrentei essa situação, dei meu grito. E isso me tornou mais forte. Porém, estas memórias trazem águas correntes que abundam a minha face sem mais nem menos, como me lembrando dos tapas, tal como você com a fome. Entendo que, a partir do que vivemos, há muitas formas de negar a vida: tirando o alimento, o sorriso, a beleza, o direito à vida.
Mari del Mar: — Eu sinto que você deveria se tornar professora, seria incrível! — O sorriso-choroso da Soledad respondeu: — Vou pensar sobre! — Sorriram e retornaram à universidade.
Rumo à universidade, Mari del Mar emplaca: — Miga, por que seus pais te deram esse nome? — Soledad sorri: — Vixi, uma longa história! Acho que é porque eu sempre chorei muito, mesmo enquanto ria. Mas tem a ver com o fascínio de meu pai pela literatura, poesia e cultura, apesar de […]. Como nem tudo são flores, tampouco são 100% dores.
Sorriram e seguiram em frente. Soledad lembrou Mari del Mar que teriam a apresentação do seminário de “Morte e Vida Severina”, mas que chegariam a tempo de apresentar suas opiniões após o intervalo. Estavam mais fortes depois do encontro na beira do rio.
Mari del Mar começou a cantarolar uma música, “Carinho do Carimbó”: — Carinho, carimbó, cora, colarinho, minissaia e carimbó. — Soledad perguntou de quem era e Mari contou que era de Chico César. Resolveram que a pausa que deram seria o ponto de partida de suas apresentações. A realidade tal qual ela é. Depois, vinculariam isto aos Pitiús que Soledad reivindica como central na socialização. Chegaram na Universidade da Fronteira, se entreolharam felizes por aprenderem tanto e muito com suas histórias. Deram um abraço apertado que não deixou espaço nenhum para Ybytú compartilhar como terceira “pessoa-vento”.
*Roberta Traspadini é educadora popular, professora do curso de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais da UNILA e professora-ENFF no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe – TerritoriAL (IPPRI/UNESP). Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão Saberes em Movimento, a luta por terra e trabalho na América Latina.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
