Diante da crise climática, o planejamento urbano precisa urgentemente priorizar duas ações: arborizar e drenar. Dados do Censo IBGE (2022) revelam uma severa desigualdade verde na Paraíba: enquanto Campina Grande tem 74,2% de suas vias arborizadas, João Pessoa registra 53,2% e Bayeux cai para 38,8%. Na capital, embora 30,67% do território total (211,4 km²), sejam de áreas verdes (Mata do Buraquinho e manguezais), a distribuição intraurbana é muito desigual.
Bairros da zona leste (como Manaíra e Bessa), o Centro Histórico e a periferia oeste e sul sofrem com a falta de árvores devido à verticalização, à impermeabilização e ao crescimento espontâneo e irregular. A malha urbana consolidada ocupa 77,3% do território geográfico municipal.
Além disso, um estudo do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) confirmou que a temperatura de superfície em João Pessoa subiu 4,5°C entre 2013 e 2022 devido ao desmatamento e à intensa urbanização especulativa com impermeabilização do solo urbano. Para reverter esse cenário, o Plano Municipal de Arborização Urbana lançado recentemente prevê o plantio de 500 mil árvores em vias públicas, praças e parques, até 2030.
Contudo, para que não fique apenas no papel, é urgente estruturar um plano de arborização participativo e efetivo. A prefeitura precisa coordenar um trabalho de conscientização ambiental que articule ações conjuntas com associações de moradores, comitês gestores de bairros, coletivos, universidades, empresários, debatendo de forma transparente as fontes de recursos, a logística e o cuidado de longo prazo dos plantios dessas mudas. Ou seja, cabe questionar: esse plano municipal de fato informa sobre onde plantar, como plantar e como cuidar das árvores nos bairros? Qual será a participação ativa da população nesse processo? Quais apoios logísticos e financeiros serão dados? Quais fontes de recursos públicos serão consideradas? Quais incentivos ao setor privado terá para participar desse processo?
No eixo da drenagem, além de jardins de chuva nas vias públicas e tetos verdes nas edificações, uma oportunidade para o futuro está nos mais de 1.500 hectares de vazios disponíveis na capital. Nesse sentido, surge o planejamento das quadras ecológicas multifuncionais. Nelas, os espaços para arborização e os solos permeáveis são projetados simultaneamente com as moradias, comércios e lazer na escala do quarteirão.

Sim, árvores ocupam espaço e elas devem ser localizadas também próximas às moradias para proporcionar conforto térmico e melhorar a qualidade de vida dos habitantes. Essa estratégia de quarteirões verdes rompe a lógica predatória e insustentável do lote individual, que hoje elimina o verde para maximizar a área construída devido ao alto custo do solo urbano. Sem essa mudança estrutural prevista inclusive na legislação urbanística, João Pessoa enfrentará novas ilhas de calor, alagamentos e transtornos ainda maiores para a população diante dos eventos climáticos extremos.
*Marco Suassuna é arquiteto e urbanista e defensor do urbanismo sustentável.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
