MINERAÇÃO

O aviso da barragem do Setúbal (MG),  antes que chegue a mineradora e a próxima barragem

Jenipapo de Minas e Chapada do Norte sabem como o Estado promete, abandona e se exime

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Atingidos participaram de audiência pública na ALMG | Crédito: Guilherme Bergamini/ALMG

Eu nunca estive na Agrovila II. Mas me vi em uma cozinha desta comunidade situada em Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O feijão andu estava verdinho, pré-cozido, escorrendo numa peneira. Edriana Soares ia fritar o torresmo primeiro — bastante torresmo — para fazer aquela farofa que ela ama e que eu também amo, e que foi um dos motivos que me inspirou a fazer esta matéria neste formato literário. “Eu amo uma farofa de andu com bastante torresmo”, ela disse, e riu.

Uma jornalista formada em gastronomia encontra uma líder comunitária que ama farofa de andu: isso não é pauta, é destino. Edriana me contou tanta coisa naquele telefonema que eu precisei ver as fotos que ela me enviou depois pelo WhatsApp para entender melhor. 

Os irmãos

Na primeira foto, um rapaz sem camisa está de pé no meio de um tomateiro. Segura um fruto na mão. O sol da tarde bate nele. Atrás, uma serra com vegetação seca. É um dos irmãos de Edriana. A foto é dos anos 1990, analógica, com aquele flare alaranjado de filme velho.

Irmão de Edriana Soares no tabuleiro, às margens do Rio Setúbal. Segura um tomate colhido da plantação da família — antes da barragem – Foto: Arquivo Pessoal Edriana Soares

Na segunda, um senhor curvado sobre uma plantação de melancia — outro irmão, este mais velho que ela. Enxada na mão. Terra produzindo.

Senhor curvado sobre uma plantação de melancia —irmão mais velho de Edriana. Chapéu na cabeça, enxada na mão. Terra produzindo no tabuleiro – Foto: Arquivo Pessoal Edriana Soares

Na terceira, o mesmo irmão da primeira foto está agachado sobre um barramento de madeira que eles mesmos construíram. Troncos amarrados com arame formam uma pequena represa no Rio Setúbal. Uma roda d’água vermelha, de ferro, gira com a força da corrente. Mangueiras levam a água para molhar a plantação.

Edriana me explicou, por mensagem: “esse cercado era feito durante o período da seca. No período chuvoso, a enchente do rio levava tudo embora”.

Irmão de Edriana Soare sobre o barramento artesanal no Rio Setúbal. Roda d’água vermelha, mangueiras, a irrigação que a família inventou — antes da barragem – Foto: Arquivo Pessoal Edriana Soares

Todo ano a enchente levava. Todo ano eles reconstruíam. Isso não é posse — é relação. O rio enchia, levava o barramento, e na seca seguinte eles refaziam. Porque sabiam fazer. Porque a roda d’água vermelha não era uma máquina comprada: era conhecimento passado entre gerações. Tudo isso ficou submerso.

Antes que a água subisse

A mãe de Edriana, Mariana Ribeiro, bordava vestidos de noiva à mão. Tingia cobertas de algodão com uma lama preta que existia nas margens do Rio Setúbal e vendia na feira de Jenipapo de Minas. “A minha mãe era autodidata”, Edriana me disse, com orgulho na voz.

O pai, Durval Pereira, colhia 300 alqueires de arroz nas várzeas — ela me contou. Plantavam arroz, melancia, feijão, bananeira. Tinham laranja, manga. Nove irmãos — quatro mulheres e cinco homens. Tomavam banho de rio, subiam nas lapas de pedra e pulavam nos poços para nadar. A mãe batia a roupa com sabão nas pedras, deixava secar ao sol. E o almoço era arroz, feijão, frango caipira e farofa de andu com bastante torresmo.

Naquela época, muitas famílias viviam assim, no tabuleiro — como chamam, no Vale do Jequitinhonha, as terras férteis que margeiam o rio. As casas eram de pau a pique.

Antes de Edriana, antes dos irmãos, antes de quase todo mundo, houve Dona Ambrosina Oliveira. Ela tinha quase 100 anos quando a água subiu. Resistiu até o fim. Quando a água invadiu a casa dela, os porcos boiavam vivos sobre a água. As galinhas, os bodes, tudo o que ela criava no terreiro — boiou. Ela saiu de barco. Não voltou mais.

Casa de pau-a-pique às margens do antigo Rio Setúbal e moradores – Foto: Arquivo Pessoal Edriana Soares

A fotografia dela que Edriana me mandou é em preto e branco, digitalizada de um arquivo de família: Dona Ambrosina sentada numa cadeira de vime, lenço branco na cabeça, blusa florida, mãos cruzadas sobre o colo. Sorri. A legenda diz apenas: “D. Ambrosina — Arquivo: Agrovila”.

Antes de Dona Ambrosina, cortaram a energia elétrica para pressionar as famílias a sair. Vendo que ninguém arredava o pé, fecharam as comportas da barragem. A água subiu devagar, como um réptil paciente, invadindo cômodo por cômodo. As casas de adobe e pau a pique, os terreiros onde as crianças corriam, os poços onde aprenderam a nadar — tudo submerso.

A promessa

No vídeo institucional Barragem Setúbal – Governo de Minas e Ruralminas, a Barragem de Setúbal aparece como a grande promessa do Norte de Minas. “Vamos garantir água doce para mais de 100 anos”, diz um dos técnicos. A obra é apresentada como motor de desenvolvimento, com 500 operários, comércio aquecido e casas novas para as 272 famílias deslocadas. 

A Ruralminas fala em água tratada, energia elétrica, escola, saúde, igreja — um futuro inteiro embalado em concreto e otimismo.

16 anos depois, o que chega à Assembleia Legislativa é outra história. A água prometida não chegou às casas do reassentamento. O rio perenizado virou um rio de IQA médio, com turbidez e fósforo acima dos padrões. As famílias que deveriam ter sido beneficiadas dependem de caminhão-pipa. 

Quando a água repousa, forma no fundo do recipiente “um pó vermelho”, repete hoje Edriana, quantas vezes forem necessárias. 

O Estado, que no vídeo aparece como presença constante, hoje aparece nos sistemas oficiais como ausência: “não há registro de fiscalização recente”. A promessa de “100 anos de água doce” virou uma espera de 16 anos por respostas.

A audiência

Audiência Pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Era 22 de maio de 2026, 10h, quando a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais abriu a sessão. Não, eu não estava lá. Assisti à gravação. Mesmo pelo vídeo, dava para sentir o peso da sala — aquele silêncio tenso de quando uma comunidade inteira chega carregando 16 anos de espera. 

A audiência pública tratava de um conjunto de violações e omissões do Estado de Minas Gerais relacionadas à Barragem de Setúbal, que há 16 anos afeta comunidades de Jenipapo de Minas e Chapada do Norte. 

Beatriz Cerqueira (PT), deputada e presidenta da comissão, falou primeiro. A voz dela não era de cerimônia; era de quem já ouviu histórias demais para fingir neutralidade. Disse que o povo de Jenipapo de Minas e Chapada do Norte enfrentava “16 anos de abandono”. E completou: “Eles viajaram mais de 500 km para relatar os problemas que estão vivendo com a barragem e que ninguém soluciona. O povo está sendo ignorado lá há muito tempo”.

Alguns nunca tinham pisado na capital. Outros nunca tinham falado em público. Edriana Soares, filha de Dona Mariana e Seu Durval Pereira, foi chamada: “Adriana Soares, atingida e moradora da Agrovila dois”. Ela se levantou devagar, ajeitou a blusa, respirou fundo. A voz saiu firme, mas com uma fadiga que não se aprende: se carrega.

A terra que não se planta

Figura 2 – Edriana Soares expõe problemas acumulados na Agrovila 2 – Foto: reprodução

Edriana começou dizendo que, desde a inauguração da barragem do rio Setúbal, “os nossos problemas se iniciaram”. Moradora da Agrovila 2, em Chapada do Norte, contou que o sonho de produzir “foi sendo dissipado com o passar do tempo”. Hoje, são 151 famílias ali.

Ela explicou que há um projeto para levar água tratada para consumo humano, mas o essencial continua faltando: “Nós não temos água para nós plantarmos e não temos água para nossos animais”. Na Agrovila 1, o preparo de solo foi feito. Na Agrovila 2, “até hoje não”. E deixou a pergunta que atravessa sua fala: “Como morar no campo e não produzir nada?”.

Por um período, receberam cesta básica como compensação pela falta de preparo de solo. Depois, parou. “E aí vocês imaginam como vivem essas famílias que não podem fazer nenhuma horta”. A horta que não existe é a comida que não chega.

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Áudio: Edriana Soares, impactada da Barragem de Sétubal, detalha a situação de sua comunidade

O Ceasa mais próximo fica “muito mais de 60 quilômetros” dali. “Na minha comunidade não chega fruta, não chega verdura, porque é muito longe”. O que não chega vira ausência.

E não chega porque não se produz. E não se produz porque não há água. E não há água porque o Estado não libera o preparo de solo. Sem licença ambiental, qualquer desmate vira multa. “Somos famílias de extrema necessidade, não temos condições de pagar uma multa ambiental”.

O ciclo é perfeito — perfeito para manter tudo parado. A Agrovila II, criada para reassentar, virou um deserto produtivo. Não por falta de vontade — por falta de Estado.

E há um exemplo que desmonta qualquer argumento de impossibilidade. “Hoje, dentro da Agrovila, a gente tem um produtor que faz parte do PAA”, ela me disse. O Programa de Aquisição de Alimentos compra da agricultura familiar para abastecer escolas, CRAS, cozinhas comunitárias. Na Agrovila II, só um produtor participa — porque o governo perfurou um poço artesiano só para ele. Com água, ele planta. Com água, ele colhe. Com água, ele abastece. O resto da comunidade olha para ele como quem olha para um espelho que não reflete: a terra produz — desde que o Estado permita.

Edriana contou que os jovens estão indo embora. “A gente sabe que tem programas do governo, mas a gente não tem água para plantar”. O campo, sem água, não segura ninguém.

Os outros inúmeros problemas — as casas menores, as serpentinas que nunca chegaram, a ausência de coleta, a água com “pé vermelho”, as viroses, os mil litros para dez pessoas, o teto da escola que ameaça cair — ela precisou repetir. Estavam todos ali, atravessando sua fala como um pano de fundo que ninguém nas agrovilas consegue ignorar.

No fim, resumiu o que espera: “Que nossos direitos, pelo menos os básicos, sejam cumpridos”. E repetiu: “A gente quer produzir. A gente quer trabalhar. Só isso”.

Água cor de tijolo

Localizada entre os municípios de Chapada do Norte e Jenipapo de Minas, a Barragem de Setúbal foi inaugurada em 2010. Assim como outras barragens implantadas no Norte e Nordeste de Minas Gerais, integra o conjunto de obras idealizado ainda no governo Newton Cardoso, sob o discurso de desenvolvimento regional, combate à seca e incentivo ao agronegócio.

Acessei o portal do SNISB. Digitei o nome da barragem. A ficha técnica diz: 58 metros de altura, 130 milhões de metros cúbicos, uso principal declarado como “abastecimento humano”. Construída pela Ruralminas. Fiscalizada pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM). No sistema, uma barragem. Na torneira de Edriana, outra.

O custo total da obra foi de aproximadamente R$200 milhões, valor divulgado à época pela própria Ruralminas e pelo Ministério da Integração Nacional. As obras começaram no início dos anos 2000 e foram concluídas com a inauguração em 2010. 16 anos depois, a torneira de Edriana jorra água cor de tijolo.

A qualidade da água na Barragem de Setúbal vem sendo questionada há anos. Em 2017, o artigo Qualidade da água do rio Setúbal em Jenipapo de Minas – MG após construção da barragem, publicado na Revista Ambiente & Água, já apontava alterações físico-químicas e biológicas após o represamento, com o Índice de Qualidade da Água (IQA) predominantemente “médio” e parâmetros fora dos padrões da Classe 2, como turbidez, coliformes e fósforo total.

Seis anos depois, uma análise técnica realizada em 2023 reforça essa tendência. No artigo Avaliação da Qualidade da Água na Barragem Setúbal, Jenipapo de Minas – MG, disponível nos anais do Sintegra, os autores identificam valores elevados de cor verdadeira — chegando a 1.880 mg Pt/L — e de turbidez, com picos de 175 UNT, em pontos do reservatório e a jusante, além de fósforo acima do limite legal nos trechos internos da represa.

Os resultados sugerem aumento do carreamento de sedimentos e risco de eutrofização — um cenário que ajuda a explicar o que Edriana observa no cotidiano: quando a água fica três dias parada, forma-se no fundo do recipiente “um pó vermelho”.

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Vídeo: impactada mostra sua caixa de água e como faz para diminuir a turbidez – Fonte: reprodução

Na época, a segurança hídrica e o abastecimento de água foram apresentados como principais justificativas para a construção da barragem. O empreendimento foi projetado para regularizar a vazão dos rios, armazenar água durante períodos de estiagem, abastecer populações e animais, garantir a perenização dos cursos d’água e viabilizar projetos de irrigação voltados à expansão da produção agrícola. 

A Barragem de Setúbal foi inaugurada em 2010, prometia irrigação, desenvolvimento, segurança hídrica — conforme Rogério de Oliveira do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) relatou na audiência, 30 mil famílias seriam beneficiadas. Nada disso aconteceu.

Cinco anos depois, a água começou a mudar de cor. Hoje sai da torneira na cor de tijolo. Josias Gomes, engenheiro mecânico e membro do Comitê da Bacia do Araçuaí, explicou por vídeo que as partículas de argila — “da ordem de nanômetros” — não decantam naturalmente.

Na audiência, as denúncias se acumularam como os problemas que descreviam. Moradores e lideranças se alternaram na tribuna — a água sai cor de tijolo, causa alergia nas crianças, fez o peixe sumir. Os ribeirinhos recebem sulfato de alumínio para decantar a água em caixas d’água caseiras. O esgoto não tratado, denunciou o vereador Geraldo Silva, é apontado como origem dos coliformes. Rogério (MAB), lembrou que três pontes já estavam inoperantes em 2019 — a população espera o córrego baixar para passar.

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Áudio: Sr Joaquim Aparecido descreve o estado da água em sua residência e pede ajuda

Foi Wallace Alves, do Sindsema-MG, quem fez o retrato do abandono. Doze anos de licenciamento em Minas Gerais. Disse que poucas vezes viu “o absurdo que foi se acumulando” como neste caso.

Ele reconstituiu o histórico: em 2006, a Ruralminas obteve licença prévia e de instalação, com 19 condicionantes — monitorar a água, conter erosão, preservar matas ciliares. A licença vigorou até 2013. Depois, a barragem precisava da licença de operação. Nunca conseguiu. Treze anos de ilegalidade. Todas as condicionantes foram descumpridas por três governos.

Wallace explicou que o impasse não é técnico — é jurídico. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (SEMAD) constatou os crimes ambientais, mas não pode multar a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SEAPA): as duas são administração direta do mesmo Estado. “A equipe ambiental constata os crimes, mas como o Estado vai multar o próprio Estado? O credor e o devedor é o Estado”, disse.

O impasse está documentado. Tive acesso ao Memorando SEMAD/GAB nº 1426/2023: a chefe de gabinete da SEMAD reconhece que não pode sancionar a SEAPA — “confusão entre credor e devedor”. Sugere que o IGAM aplique a sanção. Dois meses depois, no Ofício SEMAD/GAB nº 777/2023, comunica que as tentativas de conciliação na Câmara de Conflitos foram infrutíferas.

Wallace enumerou o que a ilegalidade impede: sem licença de operação, não há Plano Ambiental de Conservação e Uso do Entorno do Reservatório Artificial (Pacuera). Não há monitoramento da água, nem dos peixes que desapareceram. O elevador de peixes para a piracema nunca funcionou. Faltou energia. A conta não foi paga.

O Auto de Fiscalização nº 201241/2019, a que tive acesso, confirma cada item: três pontes em más condições, taludes com erosão, vistorias mensais interrompidas desde 2012, barco de patrulhamento sem manutenção há anos. Tudo registrado. Nada resolvido.

Ele ainda completou: “Se fosse uma entidade privada, quantos discursos não nasceriam sobre a ineficiência estatal? Mas é uma secretaria que ficou oito anos no colo do governo Zema. Será que vai ter responsabilização?”

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Áudio: Wallace Alves alerta sobre outros possíveis casos problemáticos no Jequitinhonha

16 anos e ninguém resolveu. Seis anos de audiências, memorandos, ofícios, autos de fiscalização — e a torneira de Edriana continua jorrando água cor de tijolo.

João Luiz Andrade, superintendente executivo da Copasa, declarou  na audiência que a Copasa assumiu a barragem em 2025. Ele esteve lá quatro vezes. Reconheceu: “Trata-se de uma barragem realmente com água turva, diferente de outras que assumimos”. Disse que a empresa tem “compromisso pleno” com a regularização.

Beatriz Cerqueira ouviu em silêncio. Depois perguntou: “Então conta para gente qual é esse cronograma, por favor. E onde a comunidade acha esse cronograma?” — a pergunta encontrou uma hesitação. O superintendente improvisou: “A senhora pode solicitar que a gente disponibiliza. Não tem sigilo. Só que agora não tenho informação de qual link tem o acesso”.

Mesmo sem o detalhamento do cronograma na audiência, a comissão seguiu sem ele. Edriana voltou esperançosa. A audiência, para ela, foi um espaço de fala e escuta — e pela primeira vez as peças começaram a se encaixar. O cronograma, a licença, a mesa de acompanhamento, as promessas. Tudo ainda no papel. Mas agora uma comissão juntou as peças do tabuleiro. Enquanto isso, debaixo d’água, o tabuleiro dos ribeirinhos espera.

A água barrenta do Setúbal não fica só em Jenipapo de Minas. O Rio Setúbal desce, encontra o Araçuaí, engrossa o Jequitinhonha e vai até a foz na Bahia. Duas comunidades, Agrovila I e Agrovila II, lutam também pelo Rio Araçuaí e o Jequitinhonha e pelo Oceano Atlântico, lá em Belmonte.

A mãe

Edriana me mandou também essa foto atual de sua mãe: uma senhora de vestido vermelho cereja e jaqueta azul, sentada numa cadeira de sala de espera, numa parede de xadrez cinza, segurando um copo d’água descartável. Sandálias ortopédicas, unhas pintadas de vermelho, olhar para o lado. Esperando.

Mãe de Edriana Soares atualmente residente em Jenipapo de Minas – Foto: Arquivo Pessoal Edriana Soares

Os filhos de Edriana foram embora. Os adolescentes da Agrovila II terminam o ensino médio e vão embora. Eles, assim como os demais jovens da comunidade, estão deixando as agrovilas e partindo para cidades maiores “porque sem água não há futuro” — ela me disse.

Depois da audiência, Edriana, de volta à sua residência, abre a torneira. A água, mais uma vez, saiu cor de tijolo. Colocou sulfato de alumínio na caixa, esperou decantar, usou a água clareada para lavar a louça. Para beber, esperou o caminhão-pipa passar — daqui a oito dias, se tudo correr bem.

A pergunta

No fim do dia, antes da publicação desta matéria, pedi uma foto da cozinha de Edriana, o que ela mandou rapidamente. Ao receber a foto de um fogão a lenha com panelas fumegando, eu mandei uma mensagem para ela: “Nossa. Aí deu bom. Obrigada por compartilhar e confiar em mim”.

Ela respondeu na hora: “Sou eu quem agradeço, por você se interessar pelas coisas simples da nossa vida no campo. E reitero o meu convite quando quiser vir passear será um prazer, vem comer um frango caipira, e conhecer um pouco das minhas vivências da minha comunidade e dar boas risadas. E provar de um queijo que o meu irmão faz que é maravilhoso”. Respondi: “Eita que eu vou mesmo.”

Fogão à lenha aceso na casa de Edriana – Foto: Acervo Pessoal Edriana Soares

Eu nunca estive na Agrovila II. Nunca sentei na cozinha dela. Mas me vi lá, no meio da conversa, ajudando a preparar a farofa enquanto o feijão andu, verdinho, escorria na peneira. Agora tenho um convite de verdade. E um queijo para provar. “A gente quer produzir”, ela me disse pelo telefone, com aquela voz que não treme. “A gente quer trabalhar. Só isso”. E a pergunta dela, que não sai do ar: “Como morar no campo sem plantar?”.

Outro lado

Procurados para comentar sobre as denúncias, o governo de Minas e a empresa que administra a barragem não responderam, até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto. 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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