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Por que seguimos apoiando a Venezuela?

A humanidade caminhará sempre na construção de sociedades mais justas e igualitárias, com soberania dos povos e paz

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Há 24 anos, Hugo Chávez sofria um golpe de Estado que duraria apenas 72. Seu retorno ao poder o tornou a maior liderança política da história do país.
Em 2002, Hugo Chávez sofria um golpe de Estado que duraria apenas 72 horas. Seu retorno ao poder o tornou a maior liderança política da história do país | Crédito: Juan Barreto/AFP

A atual situação política da Venezuela não pode ser explicada apenas pelos acontecimentos posteriores a 3 de janeiro de 2026. É preciso contextualizar o que vem acontecendo nos últimos 40 anos.

Na década de 1990, havia uma hegemonia total dos Estados Unidos no continente americano, que impôs o acordo do Nafta (sigla para North American Free Trade Agreement ou Acordo de Livre Comércio da América do Norte) e, na sequência, queria impor a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), visando transformar a região em uma área sob total controle do capital estadunidense. Todos os governos, menos o de Cuba, apoiavam os gringos.

Mas o povo de alguns países se insurgiu, e este foi o caso da Venezuela. Houve o Caracazo em 1989, seguido da rebelião militar e, finalmente, a vitória eleitoral de Hugo Chávez, que assumiu o poder em 1999 e quebrou a onda neoliberal. Com ele, abriu-se um novo ciclo de governos progressistas, que se seguiu com Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia) e Néstor Kirchner (Argentina), e alterou a correlação de forças no continente. Neste momento, foi proposta outra integração continental no lugar da Alca, derrotada formalmente em 2005: a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América).

O imperialismo estadunidense, seus governos democratas e republicanos e sua classe dominante não perdoaram a ousadia de Chávez. E impuseram, nessas quatro décadas, todas as táticas possíveis dentro do receituário descrito pelo pesquisador Andrew Korybko, que utilizou os documentos oficiais das forças armadas gringas para descrever as novas táticas das guerras híbridas estadunidenses.

Nesse longo período, os EUA tentaram de todas as formas derrotar o processo bolivariano na Venezuela. Lembremos o golpe que tirou Chávez do governo por dois dias, em que a repercussão internacional e a mobilização popular imediata impediram que os golpistas o fuzilassem. Até o cardeal de Caracas lhe deu a extrema-unção na cadeia, na Ilha da Orchila, onde estava preso.

Também foi realizada uma greve política dos petroleiros para sucatear a PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.), que causou falta de combustível e caos, situação gerenciada com a ajuda do então governo de Fernando Henrique Cardoso no Brasil. Depois vieram as “guarimbas”, com total violência de rua e terrorismo, com incêndios de escolas, hospitais, desabastecimento fabricado e dezenas de mortos. Muitos responsáveis por esses ataques estavam presos e agora foram anistiados.

Após a morte de Chávez, logo veio o reconhecimento, por parte do EUA, do governo fantoche de Juan Guaidó, a quem transferiram todos os depósitos em dólar e ouro do estado venezuelano, para que essa lumpemburguesia venezuelana enriquecesse.

Provocaram uma inflação descontrolada com base em manipulação da taxa de câmbio a partir de Miami. Bloquearam todas as contas do país no exterior. Impediram investimentos no petróleo e a produção caiu a níveis inferiores a 30%, provocando uma queda de até 90% no PIB. Tudo isso causou muitos problemas econômicos para toda a população e gerou uma migração sem precedentes de trabalhadores venezuelanos.

Contestaram a reeleição de Maduro, com apoio e ilusão de alguns personagens ditos progressistas.
Tudo isso somado a uma campanha mediática permanente, consistente, que certamente custou milhões de dólares no uso de redes, computadores e dos influenciadores pagos pela CIA e suas agências. Campanha que ainda segue.

O golpe final veio com o segundo governo Trump que, sedento pelo petróleo e perdendo a hegemonia econômica para a Eurásia, reeditou a doutrina Monroe, querendo transformar de novo o continente no seu quintal, impondo um controle econômico, político e militar.

E, no dia 3 de janeiro, depois de mobilizar toda sua força militar, invadiu o país por via aérea, sequestrando o presidente Maduro e a deputada Cilia Flores. Houve resistência, combates e mais de 100 mortes. Somente daqui a alguns anos saberemos quantos soldados estadunidenses morreram. Só sabemos que eram, em sua maioria, latinos do grupo de elite Delta Force, armados com as melhores armas do planeta.

A Venezuela, seu povo e suas forças armadas foram derrotados. Perderam vidas e seu presidente.
Mas o império não tinha quem colocar no seu lugar, pois sua agente Maria Corina Machado e a oposição entreguista estão desmoralizadas perante a sociedade venezuelana. A saída então foi manter o presidente sequestrado e negociar com o governo chavista, com a corda no pescoço ou na alça de mira do fuzil.

Alguns setores da esquerda institucional e aqueles que só acompanham a política pelas redes logo se apressaram a dizer que não houve resistência e chamaram de traição. Agora, começam a propagar a ideia de que há divisão entre os governos da Venezuela e de Cuba. Essas teses só fortalecem as táticas dos EUA, difundidas pelos meios influenciados pela CIA para dividir a esquerda e a opinião pública.

O povo venezuelano, em sua ampla maioria chavista, segue a vida, trabalhando, produzindo e organizando as comunas. Dolorido, segue apoiando o governo chavista, tendo consciência de tudo o que aconteceu.

O MST tem laços históricos com o movimento camponês venezuelano, com as comunas produtivas e com o governo chavista. Temos muitos projetos de cooperação na produção de sementes, alimentos e intercâmbio na formação de quadros técnicos. Seremos eternamente gratos pelas bolsas na Escola Latinoamericana de Medicina Salvador Allende, que permitem que dezenas de jovens camponeses e pobres se formem médicos.

O povo venezuelano segue vítima da guerra híbrida do império. O governo chavista tem o apoio do seu povo. Nosso movimento será sempre solidário com o povo chavista.

Precisamos de uma mudança na correlação de forças internacionais a favor da humanidade e da paz. Esperamos que a correlação de forças interna nos EUA mude, e que as forças progressistas consigam mudar sua política externa, a sua vocação belicista de agressão aos povos e derrotar a Doutrina Monroe.

Esperamos que o governo e o povo chavista encontrem os melhores caminhos para aumentar a produção de petróleo e de outros bens que precisam. Que mantenham a soberania sobre o petróleo, os minérios e seu território.

Defender Venezuela e Cuba é uma obrigação moral e política de todas as forças progressistas e democráticas de nosso continente. Não se iludam: se eles forem derrotados, o império aumentará sua pressão sobre México, Brasil, Colômbia e todo o continente. Antes, usaram o fantasma dos comunistas e da URSS. Depois, mudaram para os terroristas islâmicos, que eles financiaram. Agora criaram o fantoche do narcotráfico, como se eles não fossem o maior mercado, e a repressão dos migrantes.

Lutaremos para que o presidente Maduro e a deputada Cília Flores sejam libertos, pois não cometeram nenhum crime e os EUA não têm o direito e a moral de condená-los a nada. Ao contrário, esperamos que, no futuro, o Tribunal Penal Internacional de Haia julgue e condene os atuais mandatários dos EUA por suas bombas e crimes em Gaza, no Irã, na Síria, no Sudão, no Caribe, na Venezuela, em Cuba e dentro do seu próprio país, pelas perseguições aos pobres e aos migrantes.

A história da luta de classes dá voltas, altos e baixos, avanços e recuos, mas a humanidade caminhará sempre na construção de sociedades mais justas e igualitárias, com soberania dos povos e paz.

*João Pedro Stedile, militante do MST e dirigente da Alba Movimentos e da Assembleia Internacional dos Povos-AIP

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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