O Governo do Distrito Federal (GDF) encaminhou à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), no último dia 20 de maio, o Projeto de Lei Complementar nº 102/2026, que altera o cronograma de transição democrática da Universidade do Distrito Federal (UnDF). A proposta, elaborada pela atual reitoria e enviada pelo Executivo local, amplia o prazo máximo de atuação da gestão pro tempore para até seis anos, o que, na prática, adia a realização da primeira eleição para reitor e vice-reitor definitivos da instituição.
O texto foi encaminhado à governadora Celina Leão (PP) pela reitora Fernanda Marsaro dos Santos, com pedido de tramitação em regime de urgência na CLDF. A justificativa apresentada considera a proximidade do encerramento do atual mandato provisório, previsto originalmente para julho deste ano.
A proposta provocou reação entre representantes da comunidade acadêmica, que cobram diálogo sobre os rumos institucionais da universidade e questionam a ampliação do prazo da gestão provisória.
O presidente do Sindicato dos Docentes da Universidade do Distrito Federal (SindUnDF), Louis Blanchet, afirmou que a categoria recebeu a tramitação do projeto com preocupação, especialmente pela ausência de debate com estudantes e professores.
“A iniciativa não foi objeto do Termo de Acordo firmado em 7 de maio e não houve debate prévio com a comunidade universitária. Entendemos ser necessário abrir um diálogo institucional sobre os seus impactos para o processo democrático de escolha da primeira Reitoria da Universidade”, analisou.
Irregularidades no edital
A discussão sobre a prorrogação do mandato acontece após a suspensão do processo eleitoral anterior da universidade. Segundo o SindUnDF, o edital apresentava problemas estruturais, como ausência de definição sobre os pesos dos segmentos da comunidade acadêmica e falta de paridade na composição da comissão organizadora do pleito.
Outro ponto levantado pela entidade foi a inexistência formal do Conselho Universitário (Consuni), instância responsável por deliberar sobre casos omissos no processo eleitoral.
Para a presidente do Diretório Central Acadêmico (DCA) da UnDF, Bárbara Oliveira, apesar do desconforto gerado pela ampliação do prazo da gestão provisória, a suspensão do edital foi necessária para garantir legitimidade ao processo eleitoral.
“O edital anterior foi suspenso por não ter paridade e estar cheio de irregularidades. O tempo que a gente tem para refazer este edital, lançar de novo e realizar a campanha das chapas é exatamente o período necessário para que a nova reitora interina consiga organizar tudo isso. Não é que concordamos com a demora, mas não tem como ser feito de forma diferente para garantir a democracia”, explicou.
Prazos e autonomia
Embora haja consenso entre representantes da comunidade acadêmica sobre a necessidade de corrigir falhas no processo eleitoral, parte dos docentes considera excessivo o prazo proposto pelo governo para a permanência da gestão temporária.
O sindicato defende que a prioridade deveria estar concentrada no cumprimento dos acordos firmados durante a greve da categoria e na construção de condições para a realização das eleições em prazo mais curto.
“A reitoria terminaria no dia 27 de julho e um reitor novo deveria assumir, mas o PLC pretende estender esse prazo até 2027. Embora existam problemas reais no processo eleitoral que tornam a retificação necessária, entendemos que não precisaria dessa ‘puxada’ de um ano inteiro”, completou o representante sindical.
Até o momento, o Governo do Distrito Federal (GDF) não apresentou publicamente detalhes sobre o novo cronograma eleitoral previsto para a universidade.
Entenda o caso
A crise na UnDF se intensificou nos últimos meses em meio a greves, denúncias de perseguição a estudantes e professores e questionamentos sobre decisões adotadas pelo GDF e pela antiga gestão da universidade. A comunidade acadêmica passou a denunciar falta de diálogo, concentração de poder no Executivo e problemas relacionados à autonomia universitária, especialmente após decretos do governo distrital alterarem estruturas administrativas da instituição.
Ao mesmo tempo, estudantes e docentes também passaram a criticar o contrato de mais de R$ 110 milhões para aluguel de um prédio privado em Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, apontando riscos à permanência estudantil, aumento da evasão e precarização da universidade. Após quase 50 dias de greve, um acordo encerrou a paralisação em maio com promessas de reorganização e retomada do diálogo entre gestão, docentes e estudantes.
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