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Morre Indio Solari, o ‘artista peronista’ que virou lenda do rock argentino

Ex-líder dos Redonditos de Ricota morreu aos 77 anos e deixa obra marcada por política, poesia e devoção popular

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Ex-líder dos Redonditos de Ricota, Indio Solari marcou gerações do rock argentino com letras e shows históricos
Ex-líder dos Redonditos de Ricota, Indio Solari marcou gerações do rock argentino com letras e shows históricos | Crédito: Reprodução/Instagram

A morte de Carlos Alberto Solari, o Indio Solari, nesta sexta-feira (5), encerra um dos capítulos mais importantes da cultura popular argentina. Cantor, compositor e principal rosto de Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota, ele morreu aos 77 anos em sua casa, em Parque Leloir, na província de Buenos Aires.

Segundo a imprensa argentina, Solari convivia há anos com a doença de Parkinson. As autoridades não divulgaram oficialmente a causa da morte, mas investigadores afirmaram à imprensa local que não havia indícios de outro fator além da doença que acompanhava o músico.

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, o artista construiu uma trajetória singular na música latino-americana. Primeiro à frente dos Redonditos de Ricota e, depois, como líder de Los Fundamentalistas del Aire Acondicionado, tornou-se protagonista de um fenômeno cultural que ultrapassou os limites do rock e mobilizou diferentes gerações.

Sua obra ajudou a moldar parte do imaginário argentino contemporâneo. Letras repletas de referências literárias, críticas sociais e imagens enigmáticas transformaram canções como “Ji Ji Ji”, “Juguetes Perdidos“, “La Bestia Pop” e “Un Poco de Amor Francés” em hinos populares.

Mesmo após o fim dos Redonditos, em 2001, Solari continuou mobilizando multidões. Seus shows solo passaram a ser tratados como “missas ricoteras”, disputados por peregrinações de fãs que atravessavam o país para vê-lo, mantinham vivo o repertório da banda e transformavam cada aparição em um acontecimento nacional.

Um artista que nunca escondeu suas posições políticas

Ao contrário de parte dos grandes nomes do rock argentino, Solari não manteve silêncio sobre política. Ao longo dos anos, fez intervenções públicas frequentes sobre temas ligados à democracia, aos direitos humanos, à memória da ditadura e às disputas políticas do país.

“Sou um artista peronista”, afirmou em uma de suas entrevistas mais conhecidas. Em outra ocasião, definiu-se como um “peronista da nova esquerda” e associou sua visão política a valores de justiça social e solidariedade.

“Sou um peronista, mas um peronista da nova esquerda, de 61, que era amor e paz, era um hippie. Isso é o que sou, um hippie velho que acreditou e que segue acreditando”, afirmou.

Sua admiração por Eva Perón apareceu repetidamente em declarações públicas, livros e publicações nas redes sociais. Em sua autobiografia, chegou a escrever que “Evita sempre foi o lado A” para ele, numa referência ao lugar central que atribuía à ex-primeira-dama na história argentina.

Nos últimos anos, também se manifestou em defesa das políticas de Memória, Verdade e Justiça relacionadas aos crimes da ditadura militar. Em março deste ano, voltou a homenagear as Mães e Avós da Plaza de Mayo e a defender a busca pelos netos sequestrados durante o regime.

O músico ainda apoiou campanhas ambientais, como a mobilização contra mudanças na Lei de Glaciares, e participou de iniciativas voltadas à preservação da memória sobre violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura.

Indio Solari com os Redonditos de Ricota | Crédito: Reprodução/Facebook

Reconhecimento em vida

A última aparição pública de Solari ocorreu em maio deste ano, quando recebeu o título de Doctor Honoris Causa da Universidade de Buenos Aires (UBA). Por causa do avanço do Parkinson, ele não compareceu à cerimônia, mas enviou uma mensagem de agradecimento em vídeo.

Na ocasião, a universidade o definiu como uma “figura central do rock argentino e latino-americano” e destacou sua contribuição à cultura popular, ao pensamento crítico e à construção de sentidos coletivos na sociedade argentina.

Em novembro de 2025, Solari ainda alimentou a expectativa dos fãs ao publicar fotos no estúdio Luzbola, ao lado de músicos de Los Fundamentalistas del Aire Acondicionado. As imagens, com o cantor diante do microfone, reacenderam especulações sobre novas gravações e mostraram que, mesmo longe dos palcos, ele seguia ligado à criação musical.

Sua última participação ligada aos palcos ocorreu em dezembro de 2025, durante uma apresentação de Los Fundamentalistas del Aire Acondicionado em La Plata. Em vídeo exibido ao público, agradeceu o apoio dos fãs e falou sobre as limitações impostas pela doença.

“Quero dizer algo simples: eu amo muito vocês e respeito muito vocês como público. São dos melhores do planeta”, afirmou.

Editado por: Rafaella Coury

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