“Americanos, seus impostos estão sendo usados para matar homens, mulheres e crianças desarmados”. É assim que Courtney Bonneau, fotógrafa e jornalista independente, começa muitas de suas reportagens direto do front, no Líbano.
Vivendo no país há cinco anos, ela passou os dois últimos na cidade de Tiro, de onde tem registrado de perto os crimes de guerra cometidos pelo exército israelense desde 2023.
Nascida em Plainville, no Estado de Massachusetts, Courtney contou à Opera Mundi ter percebido a importância do seu trabalho em 2014, durante uma viagem à Cisjordânia, mais precisamente entre Jerusalém e Ramallah.
“Assim que avistei o muro de separação e a presença militar ao redor dele, soube que tudo o que a mídia ocidental havia me contado sobre a situação estava errado”, relatou.
Durante sua experiência, Courtney diz ter acesso a histórias pessoais dos habitantes locais, especialmente de mulheres, que sofrem mais com certos tipos de violência dos quais os homens não conseguem falar”. Bonneau está entre as muitas que realizam coberturas de guerra, área em que os homens historicamente tiveram mais destaque.
A necessidade da mulher em desenvolver um olhar mais crítico do mundo ao seu redor, principalmente quando são as principais vítimas de uma sociedade regida pelo patriarcado e sustentada pelo capitalismo, talvez implique uma sensibilidade melhor que a dos homens, ou apenas diferente.
“Tenho uma fotografia em particular que não consigo olhar. É a foto de um pai que enterrava seu filho, que era paramédico, na cidade de Tiro, em 2024. Ele foi morto em um ataque ‘double-tap’ à sua ambulância” – estratégia muito usada pelas forças israelenses, que consiste em atacar um alvo e, em seguida, atacar o mesmo lugar quando chegarem as equipes de resgate e ambulâncias.
Bonneau lembra que “o pai soltou o grito e depois tentou pular na cova. Infelizmente, eu capturei aquele momento. Mesmo enquanto digito isso, lágrimas se formam nos meus olhos e sinto um leve enjoo só de pensar naquele dia”.
Entre os momentos mais difíceis de registrar, segundo ela, estão os funerais e os locais de bombardeio, onde corpos de crianças aguardam pelo resgate. “Todo dia há uma nova onda de ataques, e todo dia há uma nova camada de luto a enfrentar”, reclama.
Sobre jornalistas que trabalham em zonas de conflito, Courtney é sincera ao dizer que não sabe se esses profissionais realmente se tornam apáticos para sobreviver ao trabalho. Ela acredita que certos comportamentos, muitas vezes interpretados como insensíveis, são uma reação natural à exposição diária a tanto horror. “As imagens, os sons e os cheiros de uma cena de massacre, por exemplo, são coisas que os seres humanos não foram feitos para suportar todos os dias”, comenta
“Há um grito gutural que vem de todos os pais, independentemente de a pessoa que estão enterrando ser uma criança de cinco anos ou um adulto de 35. Fui a mais de 50 funerais no último ano e posso dizer que o grito é sempre o mesmo”, conta.
A respeito dos crimes que Israel tem cometido – não somente no Líbano, mas também na Palestina e em outros países da região –, Courtney Bonneau afirma que não esconde seu descontentamento com a cobertura dos grandes jornais.
Diariamente, ela contesta parte das reportagens de colegas que estão no mesmo local que ela. Bonneau diz equilibrar a verdade com a responsabilidade, mostrando o que acontece no sul do Líbano, que considera um cenário de genocídio.
Foi durante o funeral da jornalista libanesa Amal Khalil, assassinada por Israel em abril, que Opera Mundi avistou Courtney Bonneau pela primeira vez. Suas críticas aos repórteres das grandes agências não são novidade. Ela, inclusive, chegou a criticar, publicamente, a presença de muitos deles, que foram fotografar o enterro de Khalil na aldeia onde vivia.
A jornalista afirma assumir a responsabilidade de registrar e publicar imagens de limpeza étnica e ecocídio. “Espero que, quando a história olhar para este momento, ela observe as provas concretas que documentei aqui. Provas de atos genocidas contra o povo libanês perpetrados pelo exército israelense”, salienta a profissional, que também tem cidadania holandesa.
Confira a entrevista na íntegra com a fotógrafa Courtney Bonneau:
Há quanto tempo você vive no Líbano e por que escolheu esse país?
Courtney Bonneau: eu vivi no Líbano por cerca de cinco anos. Inicialmente, eu estava aqui fazendo outras coisas e morando com meu parceiro na época. Quando a guerra estourou, em 2023, eu fiquei para cobri-la.
Qual momento fez você perceber que as guerras nem sempre são como a mídia internacional as retrata, especialmente nos Estados Unidos?
Em 2014, quando eu estava em um ônibus de Jerusalém para Ramallah. Queria ver por mim mesma a situação na Cisjordânia. Assim que avistei o muro de separação e a presença militar ao redor dele, soube que tudo o que a mídia ocidental havia me contado sobre a situação estava errado.
Me lembro vividamente de um enorme cartaz vermelho alertando os cidadãos israelenses sobre uma ameaça às suas vidas caso atravessassem para a Cisjordânia. Acontece que os próprios israelenses erguem esses cartazes. O que encontrei em Ramallah e em outras partes da Cisjordânia era exatamente o oposto do que é mostrado na mídia ocidental.
Como equilibrar a verdade com a responsabilidade de não desumanizar as pessoas?
Tenho equilibrado a verdade com a responsabilidade, simplesmente mostrando o que está acontecendo aqui. Esta não é uma guerra comum. O que está acontecendo no sul do Líbano se enquadra nos parâmetros de genocídio. É minha responsabilidade dizer a verdade e mostrar as imagens e filmagens do que o exército israelense está fazendo. Publico todas as fotos de limpeza étnica, ecocídio e domicídio. Estou documentando a tentativa de apagamento de um povo.
Alguma vez você decidiu não publicar uma foto ou imagem?
Tenho uma fotografia em particular que não consigo olhar. É a foto de um pai que enterrava seu filho, que era paramédico, na cidade de Tiro em 2024. Ele foi morto em um ataque israelense “double-tap” (duplo ataque) à sua ambulância.
O pai soltou o grito e depois tentou pular na cova. Infelizmente, eu capturei aquele momento. Mesmo enquanto digito isso, lágrimas se formam nos meus olhos e sinto um leve enjoo só de pensar naquele dia.
Ser mulher te deu acesso a histórias que jornalistas homens não conseguiriam alcançar?
Na minha experiência, ser mulher tem sido útil para ter acesso a histórias que os homens talvez não conseguissem. Especificamente para filmagens ou histórias sobre outras mulheres. Há mais confiança nesse contexto.
Qual é a coisa mais difícil de fotografar: a violência, o luto ou a vida ‘normal’ que continua em meio ao caos?
O mais difícil para mim fotografar até agora tem sido funerais e locais de ataques onde ainda há corpos de crianças esperando para serem retirados por uma ambulância. Como mãe, é dilacerante ver outros pais se despedirem de seus filhos e baixarem seus corpos no chão. Há um grito gutural que vem de todos os pais, independentemente da criança que estão enterrando ter 5 ou 35 anos. Fui a mais de 50 funerais no último ano e posso dizer que o grito é sempre o mesmo.
Tenho muitos dias assim no campo. Todo dia há uma nova onda de ataques e todo dia há uma nova camada de luto a enfrentar.
Acredita que fotógrafos/jornalistas às vezes se tornam emocionalmente insensíveis para sobreviver ao trabalho?
Não sei se jornalistas se tornam insensíveis para sobreviver ao trabalho. Imagino que seja uma reação natural ao estar exposto a tanto horror diariamente. As imagens, os sons e os cheiros de uma cena de massacre, por exemplo, são coisas que os humanos não foram feitos para suportar todos os dias. Nossos cérebros não conseguem processar isso de maneira normal.
Você acha que o mundo realmente ouve o Líbano ou apenas reage temporariamente às crises?
Na minha experiência até agora, eu diria que o mundo não está ouvindo o Líbano. Israel tem nos atacado por quase dois anos, matando milhares de civis, invadindo e ocupando grandes extensões de terra libanesa, e ninguém está intervindo. Tenho documentado isso incansavelmente todo esse tempo.
Quando a história olhar para este momento, o que você espera que seu trabalho tenha ajudado a preservar?
Espero que, quando a história olhar para este momento, ela observe as provas concretas que documentei aqui. Provas de atos genocidas contra o povo libanês perpetrados pelo exército israelense.
