Diversidade

Parada LGBT+ de São Paulo celebra 30 anos com defesa da memória, dos direitos e da participação política

Sob o tema '30 anos da Parada SP: a rua convoca, a urna confirma', ato reúne milhares de pessoas na Avenida Paulista

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Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo, que completa 30 anos, é realizada na Avenida Paulista
Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo, que completa 30 anos, é realizada na Avenida Paulista | Crédito: @roberto.parizotti/Roberto Parizotti

A Avenida Paulista foi tomada por milhares de pessoas neste domingo (7) para a 30ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. Sob o tema “30 anos da Parada SP: A rua convoca, a urna confirma”, a manifestação celebrou três décadas de história daquela que é considerada a maior parada LGBT+ do mundo, reunindo artistas, ativistas, parlamentares, famílias e representantes de organizações da sociedade civil.

O clima foi marcado tanto pela celebração quanto pela valorização da memória do movimento LGBT+. Ao longo do percurso, participantes relembraram conquistas históricas alcançadas nas últimas décadas, enquanto cartazes e discursos nos trios elétricos reforçavam a importância da participação política e da defesa dos direitos dessa população.

A movimentação foi intensa em toda a região das avenidas Paulista e Consolação, com grande presença de jovens, famílias, turistas e grupos organizados. Bandeiras coloridas, mensagens políticas e referências à trajetória da Parada marcaram o cenário da manifestação.

Nos trios elétricos e bastidores circularam artistas, parlamentares e lideranças históricas do movimento. Por se tratar da 30ª edição, muitos participantes fizeram questão de destacar a trajetória da Parada e seu papel na ampliação da visibilidade da população LGBT+ ao longo desses anos.

A história da Parada paulistana começou antes mesmo da primeira edição oficial. Em 1996, ativistas e organizações LGBT articularam uma manifestação na Praça Roosevelt, no centro da capital paulista, inspirados pelas mobilizações internacionais surgidas após a Revolta de Stonewall, em Nova York, em 1969. A iniciativa ajudou a fortalecer a organização do movimento na cidade e abriu caminho para a realização da primeira Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo no ano seguinte.

30ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ em SP teve 14 trios elétricos
30ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ em SP teve 14 trios elétricos | Crédito: Wallace Leray/BdF

Três décadas de história e resistência

A primeira edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo foi realizada em 28 de junho de 1997 e reuniu cerca de 2 mil pessoas na Avenida Paulista. Trinta anos depois, a manifestação se consolidou como um dos principais eventos do calendário paulistano e uma referência internacional na defesa dos direitos da população LGBT+.

As paradas do orgulho realizadas em diferentes países têm origem na Revolta de Stonewall, ocorrida em Nova York, em 1969, considerada um marco da luta pelos direitos da população LGBT+. No Brasil, a manifestação considerada mais antiga ocorreu no Rio de Janeiro, em 25 de junho de 1995, com a Marcha da Cidadania, realizada na Praia de Copacabana.

Professora de música e musicista da noite paulistana, Simone Melo participou da celebração ao lado da família e destacou as transformações vividas nas últimas décadas.

“Muita coisa mudou nos últimos 30 anos. Eu saí do armário há 20 anos. Muita coisa alterou para melhor e para pior, mas a gente está aqui em defesa dos nossos filhos, filhas e filhes, esperando que as coisas mudem ainda mais para melhor”, afirmou.

Simone participa da Parada do Orgulho LGBT+ de SP ao lado da família
Simone participa da Parada do Orgulho LGBT+ de SP ao lado da família | Crédito: Wallace Leray/BdF

Segundo ela, avanços como políticas públicas e o reconhecimento das famílias LGBT trazem esperança para novas transformações.

“Para mim significa algo muito importante poder estar aqui representando a diversidade com a minha família, minha filha, minha companheira e a minha família LGBT. É muito legal esse dia, é muito importante”, disse.

A rua convoca, a urna confirma

A deputada federal Sâmia Bomfim (Psol) ressaltou o caráter de resistência da manifestação.

“São três décadas de existência e resistência da maior parada do mundo. Isso porque o Brasil é um país com muitos conservadores, fundamentalistas, principalmente nas casas de poder. Mas isso mostra que o povo organizado em luta é capaz de arrancar conquistas mesmo nos contextos desfavoráveis.”

A parlamentar também comentou a redução do apoio empresarial ao evento.

“Esse ano ela sofreu boicote de uma série de empresas e ainda assim está linda, está enorme, está resistindo. Foram décadas de luta e assim será. Viva o povo brasileiro. Viva as LGBTs. Viva todas que resistem todos os dias.”

De acordo com a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), a edição deste ano registra redução no número de patrocinadores em comparação aos anos anteriores. Em 2025, a Parada contou com 18 trios elétricos. Neste ano, foram 14.

Colorido tomou conta das ruas da capital paulista na 30ª edição da Parada LGBT+
Colorido tomou conta das ruas da capital paulista na 30ª edição da Parada LGBT+ | Crédito: @roberto.parizotti/Roberto Parizotti

Presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Toni Reis reforçou o tema escolhido para a edição deste ano e destacou a importância da participação eleitoral.

“Estamos aqui na Avenida Paulista com milhares e milhões de pessoas. O lema deste ano é: ‘A rua convoca e a urna confirma’. Precisamos eleger parlamentares que estejam comprometidos com os direitos humanos, com a ciência e com a educação”, afirmou.

“A gente pede que as pessoas tenham um voto com orgulho. Você tem que se orgulhar do parlamentar que você elege e da Presidência da República. É fundamental isso.”

A discussão sobre representação política tem ganhado espaço nos últimos anos. De acordo com levantamento da ONG VoteLGBT, o Brasil conta atualmente com 18 parlamentares assumidamente LGBTQIA+ em mandatos legislativos. Nas eleições municipais de 2024, 225 representantes LGBTQIA+ foram eleitos em 190 cidades de 22 estados brasileiros. Do total, 222 foram eleitos para câmaras municipais e três para prefeituras.

Eleição foi tema da Parada do Orgulho LGBT+ de SP em 2026
Eleição foi tema da Parada do Orgulho LGBT+ de SP em 2026 | Crédito: Elaine Patrícia Cruz/Agência Brasil

Celebração, memória e representatividade

Entre os artistas presentes estava Fontana, do reality show RuPaul’s Drag Race, que celebrou sua primeira participação na Parada paulistana.

“Hoje é um dia de grande celebração. Nós estamos na 30ª Parada de São Paulo. É uma grande honra estar aqui. A potência drag é uma potência global e celebrar aqui na nossa terrinha tem um gosto muito especial.”

O ator Luis Lobianco relacionou a trajetória da Parada à sua própria carreira artística. Segundo ele, quando começou a atuar, nos anos 1990, não imaginava que pessoas LGBT+ ocupariam espaços tão amplos na televisão e no mercado cultural.

“Eu faço parte de uma geração que recebeu muito de quem veio antes. Construímos juntos a possibilidade de ocupar os lugares, a ponto de conseguir ocupar essa Avenida Paulista inteira. É um dia de celebração, de consciência, de legado, de muita diversidade. Mas ainda há muito desafio pela frente ainda, não acabou não.”

Por sua vez, a cantora MC Trans destacou o protagonismo das pessoas trans na luta por direitos.

“Trinta anos de Parada, muita coisa aconteceu e muita história linda ainda vai ser contada. Nós vamos resistir sempre. Eu, como mulher trans e travesti, estou muito orgulhosa por estar ocupando esse espaço. A letra T é uma letra muito importante. A gente veio também na comissão de frente dessa batalha.”

Já a cantora e atriz Linn da Quebrada chamou atenção para a necessidade de manter a mobilização coletiva.

“São três décadas em que estamos não só lutando pelos nossos direitos, mas também celebrando as nossas conquistas. Estar aqui hoje é lembrar da importância de nos manter vigilantes. Estamos percebendo que quando é conveniente, as instituições permanecem ao nosso lado, mas agora vemos que a coletividade é mais importante. Precisamos celebrar aquelas que vieram antes, as que estão agora e as que virão depois.”

A artista Isma destacou sua trajetória como travesti periférica e a importância da representatividade.

“Estou muito feliz de estar aqui comemorando 30 anos da Parada LGBT. Como travesti, artista que veio da periferia, eu acho que a violência LGBTfóbica leva a gente para a pobreza, para a periferia, para a escassez.”

Segundo ela, sua presença no evento representa uma possibilidade de futuro para outras pessoas LGBT das periferias.

“Eu me sinto muito honrada de estar quebrando aquilo que um dia foi um plano da elite branca, colonial, patriarcal e machista do Brasil. Estou muito feliz de estar aqui celebrando e sendo um exemplo, uma esperança e uma possibilidade para pessoas LGBT que vivem na periferia.”

Para o cantor e dançarino Thiago Pantaleão, a Parada representa resistência.

“É muito importante estar aqui celebrando, mas sobretudo mostrando a nossa força. Independentemente do momento, do que o externo queira, a gente vai estar aqui resistindo, tendo orgulho e mostrando para o mundo que a gente vai muito além de um mês, que movimenta o país e que tem poder para além de muita coisa.”

Durante a cobertura, o clima permaneceu pacífico, com forte presença de equipes de segurança, brigadistas e profissionais de apoio ao longo do percurso.

Editado por: Monyse Ravena

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