ARTIGO

Dignidade humana: o verdadeiro critério para julgar o futuro

A recente Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão 14, oferece uma resposta simples e ao mesmo tempo desafiadora

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Primeira encíclica de Leão 14 retoma a reflexão sobre justiça social e a necessidade de retomar a cultura da paz
Primeira encíclica de Leão 14 retoma a reflexão sobre justiça social e a necessidade de retomar a cultura da paz | Crédito: Reprodução Vatican News

Vivemos uma época de transformações profundas. A inteligência artificial avança rapidamente, as tecnologias digitais remodelam a economia, as redes sociais influenciam comportamentos e as decisões políticas parecem cada vez mais condicionadas por interesses econômicos globais. Diante de tantas mudanças, surge uma pergunta fundamental: para quem e para que servem essas transformações?

A recente Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão 14, oferece uma resposta simples e ao mesmo tempo profundamente desafiadora: nenhuma tecnologia, economia ou sistema político tem valor se não estiver a serviço da dignidade humana, da justiça social e do cuidado da Casa Comum.

Essa afirmação nos chama a recuperar um princípio que deveria orientar toda a organização da sociedade: a pessoa humana deve estar no centro. O valor de um ser humano não pode ser medido por sua produtividade, pelo seu consumo, pela sua capacidade de competir ou pelo espaço que ocupa no mercado. Cada pessoa possui uma dignidade inalienável simplesmente porque existe.

No entanto, observamos diariamente uma realidade marcada por muitas contradições. Enquanto a humanidade avança em tecnologias, milhões de pessoas continuam vivendo na pobreza, enfrentando a fome, a exclusão, a violência e a negação de direitos básicos. Ao mesmo tempo em que somos capazes de produzir riqueza em grande escala, cresce a concentração econômica e aumenta a desigualdade entre pessoas, povos e territórios.

A crise ambiental também revela os limites de um modelo de desenvolvimento baseado na exploração sem limites dos recursos naturais. As mudanças climáticas, os desastres ambientais e os deslocamentos forçados de populações inteiras mostram que não existe justiça social sem justiça ambiental. O sofrimento dos mais pobres é sempre maior quando a natureza é tratada como mercadoria e não como bem comum.

É justamente neste contexto que ganha ainda mais importância a participação popular organizada. Não basta reconhecer direitos no papel. É necessário que a população conheça esses direitos, participe das decisões públicas e acompanhe sua implementação. Democracia não se resume ao voto. Democracia exige presença, participação, fiscalização e corresponsabilidade na construção do bem comum.

Ao longo de sua trajetória, o Grito dos Excluídos Continental tem assumido esse compromisso como uma de suas missões centrais. Em comunidades urbanas, periferias, territórios rurais, espaços de formação e articulação social, buscamos fortalecer a consciência cidadã e ampliar a capacidade das pessoas de incidirem sobre as políticas públicas que impactam suas vidas. Acreditamos que o acesso aos direitos sociais passa necessariamente pelo acesso à informação, à organização comunitária e aos instrumentos de participação democrática.

Por isso, investimos permanentemente em processos de educação popular, formação política, técnica e capacitação para o controle social das políticas públicas. Nosso trabalho procura fortalecer conselhos, fóruns, conferências, audiências públicas e outras formas de participação social, permitindo que as comunidades deixem de ser apenas destinatárias das políticas e se tornem protagonistas de sua construção, monitoramento e avaliação.

Quando uma mulher aprende a defender seus direitos, quando uma comunidade acompanha a execução do orçamento público, quando jovens compreendem o funcionamento das instituições, quando lideranças populares ocupam espaços de participação e controle social, estamos concretizando a dignidade humana na prática. Estamos transformando cidadãos e cidadãs em sujeitos de direitos e agentes de transformação social.

A Encíclica também recorda a importância da solidariedade. Num mundo cada vez mais individualizado, somos chamados a reconstruir laços comunitários, fortalecer a participação popular e promover uma cultura do encontro. Nenhuma pessoa se realiza sozinha. Nenhum povo constrói seu futuro isoladamente. Somos interdependentes e compartilhamos uma responsabilidade comum pelo presente e pelo futuro da humanidade.

Como Grito dos Excluídos Continental, reconhecemos nessa reflexão um chamado que dialoga profundamente com nossa trajetória. Há mais de duas décadas caminhamos ao lado dos povos, comunidades e movimentos sociais que lutam por trabalho, justiça e vida. Defendemos uma sociedade em que os últimos sejam os primeiros a serem considerados. Uma sociedade que reconheça o valor de cada pessoa e que fortaleça sua capacidade de participar das decisões coletivas. Uma sociedade que cuide da Casa Comum como patrimônio de todas as gerações.

O verdadeiro progresso não pode ser medido apenas pelo crescimento econômico ou pela inovação tecnológica. O verdadeiro progresso acontece quando uma criança tem acesso à educação, quando uma família conquista moradia digna, quando uma mulher vive sem violência, quando um idoso tem seus direitos respeitados, quando um migrante é acolhido, quando uma comunidade preserva seu território e quando a população possui instrumentos reais para defender seus direitos e influenciar os rumos das políticas públicas.

O futuro que desejamos construir não depende apenas das máquinas que criamos, mas sobretudo dos valores que escolhemos colocar no centro da vida social. E entre todos os valores possíveis, nenhum é mais importante do que a dignidade humana.

Porque, em última análise, nenhuma tecnologia, nenhuma economia e nenhum sistema político têm sentido se não servirem à vida, à justiça social, à participação democrática e à construção de uma sociedade onde todos e todas possam exercer plenamente sua condição de sujeitos de direitos.

* Luciane Udovic Bassegio, presidenta da Associação Grito dos Excluídos Continental e da coordenação do Regional Sul 3 da CNBB.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko

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