Há artistas que entram no palco como quem ocupa um lugar. Jorge Drexler parece fazer o contrário, entra como quem procura um caminho. Nas noites de 29, 30 e 31 de maio de 2026, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, o cantor e compositor uruguaio não apresentou apenas a turnê “Taracá”. Construiu, diante do público, uma travessia.
O show começou antes de qualquer gesto ou nota, na luz recortando os corpos no palco e deixando o restante entregue à sombra. Em tempos de espetáculos cada vez mais dominados pelos excessos cênicos e performáticos, Drexler aposta no contrário, com menos imposição e mais presença.

“Taracá”, álbum que dá nome à turnê, carrega no título uma espécie de batida. A expressão soa como um tambor mas também sugere uma outra leitura – o estar acá, estar aqui.
E esta sinergia entre ritmo e presença atravessou toda a apresentação. No palco, Drexler estava acompanhado em cena por sete músicos, em uma formação que desloca o violão do centro e o coloca em diálogo com a percussão, o canto coletivo e a composição visual das cenas.
O candombe, ritmo de matriz afro-uruguaia profundamente ligada à memória negra do país vizinho, apareceu não como mero complemento, mas como alicerce da apresentação. Em “Taracá” os tambores não se limitam a acompanhar as canções, são a própria alma delas.

Houve momentos em que Drexler parecia cantar para cada pessoa individualmente. Em outros, a banda transformava o palco em uma roda, na qual vozes, cordas e tambores se misturavam sem apagar suas diferenças, transitando entre a sofisticação e a popularidade, entre a reflexão e a celebração.
E estas noites ganharam outra dimensão quando o artista deixou o palco para charlar e passou a cantar a partir da plateia. Por alguns minutos, a fronteira entre quem se apresenta e quem assiste ficou permeável e se dissolveu. A canção deixou de vir apenas do palco e passou a circular entre cadeiras, olhares surpresos e celulares erguidos. Em um gesto simples, de grande força simbólica, Drexler não apenas cantava sobre aproximação, ele se aproximava.

Ali, no meio do público, o show parecia dizer algo sem precisar explicar – que a música também pode ser um lugar comum, um espaço compartilhado, onde desconhecidos respiram juntos por alguns minutos, atravessados pela mesma melodia, ainda que viessem de vivências, posições sociopolíticas e idiomas diferentes.
Essa ideia reapareceu de forma ainda mais direta no bloco formado por “Nuestro Trabajo” e “Los Puentes”, momento que Drexler dedicou para falar ao público sobre a polarização do mundo contemporâneo e sobre a necessidade de construir pontes capazes de reunir pessoas. Falou como quem apresenta uma inquietação e um inconformismo com um mundo cada vez mais acostumado às trincheiras, aos muros invisíveis e à interrupção do diálogo, tratando a construção de pontes como uma tarefa ética.

E a imagem não poderia ser mais adequada para Porto Alegre, cidade com forte ligação cultural ao Prata. A capital gaúcha sempre recebeu Drexler não como um estrangeiro distante, mas como um vizinho de uma mesma geografia afetiva. Entre o espanhol da banda oriental e o português brasileiro, entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul, há uma cumplicidade presente no sotaque, no ritmo, na permeabilidade da fronteira e nas memórias e tradições compartilhadas.
Ao falar de pontes, Drexler também falava de música. Ou talvez falasse da música como ponte possível. Não uma ponte que elimina diferenças, mas uma que permite atravessá-las. Não uma conciliação vazia, mas um exercício de escuta. Em tempos nos quais a polarização frequentemente transforma o outro em ameaça, as canções de Drexler pareciam propor uma pequena transgressão, ao sugerir permanecermos juntos por tempo suficiente para ouvir o outro.

O repertório de “Taracá” reforça esse gesto de aproximação. A presença de “¿Qué Será que Es?”, versão em espanhol de “O Que É, O Que É”, de Gonzaguinha, inscreve o Brasil no coração do projeto, em um exemplo de continuidade afetiva. Drexler recoloca a pergunta de Gonzaguinha em um outro idioma e em um outro corpo rítmico, mas preserva sua essência, representando a vida como espanto, persistência e celebração.
Visualmente, o espetáculo também trabalhava essa alternância entre a intimidade e a comunidade, com momentos em que Drexler aparecia quase sozinho, com o violão e a voz sustentando a cena e momentos em que o conjunto de músicos ocupava o palco como uma coletividade em movimento. O centro do palco existia, mas não era fixo, alternava entre cantor, tambor, coro e o próprio público.

Essa mobilidade talvez explique por que a apresentação não soou como uma simples execução de repertório. Havia ali uma dramaturgia da presença. O show parecia organizado em torno de uma pergunta: o que ainda podemos fazer juntos? Cantar, talvez. Escutar, certamente. Construir pontes, se ainda houver disposição para isso.
No contexto latino-americano, essa escolha tem peso. Recolocar o candombe no centro de um espetáculo internacional é também afirmar a permanência de matrizes culturais negras e populares muitas vezes empurradas para debaixo do tapete. Drexler dá protagonismo ao tambor, que aqui conduz, convoca e lembra que nenhuma voz, por mais alta que possa ressoar, se sustenta sozinha.

As três noites no Araújo Vianna foram mais do que a passagem de uma turnê por Porto Alegre, foram um encontro entre uma obra em movimento e uma cidade que reconhece, na música do Prata, parte de sua própria paisagem sentimental. Drexler cantou como quem chega de longe, mas também como quem retorna para um porto seguro, possibilitando que alguém seja, ao mesmo tempo, um viajante estrangeiro e vizinho próximo.
Ao final, o que permanecia não era apenas a lembrança de um bom show, era a sensação de que “Taracá” propõe algo muito mais raro e valioso, o estar verdadeiramente aqui.

E em tempos de muros visíveis e invisíveis, Jorge Drexler veio a Porto Alegre lembrar que construir pontes talvez ainda seja uma das tarefas mais urgentes da atualidade. E que, às vezes, uma ponte começa de modo muito simples, com um artista deixando o palco para cantar no meio do povo.
* Rafael Rosa é fotojornalista brasileiro residente em Porto Alegre, tendo suas imagens veiculadas em diversas publicações de alcance nacional, tais como IstoÉ, CBN, Terra, Folhapress, Intercept Brasil, CNN, dentre outras plataformas jornalísticas.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
