ENTREVISTA

‘Não podemos nos deixar intimidar’, diz primeira mulher eleita para coordenar o Sindipetro-MG

Carmen Lúcia Rodrigues destaca a organização das mulheres, a defesa da Petrobras e a importância das eleições de 2026

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Carmen Lúcia Rodrigues.
Carmen Lúcia Rodrigues foi eleita para dirigir a entidade no próximo período. | Crédito: Divulgação Sindipetro-MG

Pela primeira vez em sua história, o Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais (Sindipetro-MG) será coordenado por uma mulher. Eleita para dirigir a entidade no próximo período, Carmen Lúcia Rodrigues assume a missão de conduzir uma das categorias mais estratégicas do país, em um cenário marcado por debates sobre soberania energética, privatizações, terceirização e direitos trabalhistas.

Em entrevista ao Brasil de Fato MG, a futura coordenadora fala sobre os desafios de ocupar um espaço historicamente masculino, a importância de ampliar a participação das mulheres no movimento sindical e as prioridades da nova gestão. 

“O machismo quer te silenciar, quer te manter em um lugar subalterno, não quer que você se rebele, e a gente tem que lutar contra isso. São muitas barreiras, mas quando acho que vai ser difícil superar, eu me inspiro nas mulheres, nas nossas ancestrais”, destaca a sindicalista.

Após anos dedicando seu trabalho na Refinaria Gabriel Passos (Regap), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Rodrigues construiu uma trajetória de três anos no Sindipetro-MG e acumula uma longa participação nas mobilizações, greves e na luta pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. 

Leia a entrevista na íntegra: 

Brasil de Fato MGVocê se torna a primeira mulher a assumir a coordenação do Sindipetro-MG, uma categoria historicamente masculina. O que esse momento representa para você pessoalmente e para as trabalhadoras petroleiras de Minas Gerais?

Carmen Lúcia Rodrigues – Pessoalmente, para mim, representa um desafio e uma responsabilidade muito grande. A gente sabe que uma mulher ocupando um espaço tipicamente masculino é muito mais visada e muito mais cobrada do que um homem seria na mesma posição que eu. Na verdade, eu ainda nem assumi a coordenação; a gente ainda vai ter a posse da nova diretoria. Mas devo confessar para você que ainda estou um pouco em choque, um pouco assustada, pensando em como vim parar aqui. Ao longo do tempo, a gente vai aprendendo; aprende fazendo. 

Para as outras mulheres da categoria, eu espero ser voz, acolhimento, confiança, incentivo, exemplo, e trazer outras mulheres também para o sindicato, para a luta da categoria petroleira. Espero poder combater os males que ainda permeiam o nosso meio industrial: o machismo, a misoginia, o assédio e muitos problemas com os quais ainda lidamos nos dias atuais.

E são quantos anos de sindicato, Carmen?

São três anos. Eu sempre participei de todas as lutas, de todas as greves, e até ajudava a organizar o pessoal, mas de forma mais informal. Logo que entrei para a Regap, para a Petrobras, eu tinha três crianças pequenas, e aí a gente esbarra nessa barreira. Mas a luta já vem de muito tempo. Sempre participei, desde que entrei lá, tentando organizar o pessoal e ajudar o sindicato, só que de dentro da empresa, não dentro do sindicato ainda.


O movimento sindical ainda enfrenta dificuldades para ampliar a presença feminina nos espaços de direção. Quais foram os principais desafios que você encontrou ao longo da sua trajetória até chegar à coordenação do sindicato?

Acho que a primeira barreira que a gente encontra, pelo menos as mulheres da minha geração, é a educação que se recebe. Você não é educada para contestar; é educada para mais concordar do que discordar, para mais escutar do que ouvir, para ser conciliadora. Tudo ao contrário do que um sindicalista normalmente é. Então, a primeira barreira a se quebrar é essa, com você mesma. 

Depois, vem a situação do machismo, que também reforça isso. O machismo quer te silenciar, quer te manter em um lugar subalterno, não quer que você se rebele, e a gente tem que lutar contra isso. São muitas barreiras, mas quando acho que vai ser difícil superar, eu me inspiro nas mulheres, nas nossas ancestrais. 

Se estou aqui hoje, é porque elas brigaram em uma situação muito pior do que a que nós estamos hoje. Se lá atrás, com toda aquela dificuldade, violência, prisões e torturas, elas não amarelaram, não sou eu que vou amarelar. A gente vai com medo, mas vai assim mesmo. A gente enfrenta nossos medos. Acho que o patriarcado e o machismo nos mantêm no nosso lugar usando o medo. A partir do momento em que você enfrenta seus medos, a coisa flui melhor.

Em entrevistas anteriores, você destacou que somente as mulheres conseguem compreender profundamente situações como misoginia, assédio moral e assédio sexual. Como pretende transformar essas pautas em ações concretas dentro do sindicato?

Na semana passada, eu me surpreendi com o fato de que, só pela minha presença lá, por ter sido eleita coordenadora do sindicato, as mulheres já estão me procurando mais para falar sobre esses assuntos. Elas enxergam ali alguém que vai entender o que estão falando, alguém que não vai achar que estão exagerando ou fazendo vitimismo. Só a minha presença ali já vai ajudar. 

Além disso, no ano passado, nós fizemos uma reforma no nosso estatuto e criamos a Secretaria de Mulheres e Combate às Opressões. A ideia é colocar essa secretaria para funcionar agora, para termos um espaço de acolhimento, escuta e orientação, até jurídica, se for necessário. 

Também conto com as pessoas da empresa, direcionando-me mais às mulheres e às populações vulneráveis, pois eles são nossos olhos e ouvidos lá. Quero criar essa rede que traga as informações para mim. O sindicato não tem como estar lá o tempo todo enxergando o que acontece. Quero essa abertura para que os casos cheguem até nós, para podermos dar o tratamento adequado e lutar contra isso junto à empresa.

O Sindipetro-MG possui uma longa trajetória de atuação em defesa dos direitos trabalhistas, da Petrobras e da soberania nacional, além de participação histórica em mobilizações sindicais e democráticas no país. Quais serão as prioridades da sua gestão diante dos desafios atuais enfrentados pela categoria petroleira?

Quando uma pessoa chega para trabalhar na Petrobras, eu digo a ela que trabalhar ali é um privilégio, mas também uma responsabilidade e um suspense constante, porque as privatizações são um desafio constante para a nossa categoria. A nossa empresa é muito lucrativa, muito estratégica e sempre será alvo do mercado; eles sempre vão cobiçá-la, pois é a joia da coroa. Essa luta para nós é constante. 

Temos vários desafios, além do combate à privatização. Temos o desafio de readquirir aquilo que foi tirado no pós-golpe. A empresa foi fatiada, perdemos muitos ativos e temos o desafio de rever isso. Além disso, perdemos direitos nesse governo pós-golpe, um governo neoliberal que tirou muitos direitos da categoria, os quais também estamos lutando para reaver. 

Aprofundou-se muito a questão da terceirização; setores que antes eram primeirizados hoje estão terceirizados, e estamos lutando para reaver esses setores. Houve também uma saída muito grande de efetivo da companhia, com os planos de demissão voluntária e aposentadorias incentivadas, deixando o quadro muito defasado. Então, há a necessidade de recomposição de efetivos. São muitos desafios.

Acho que há dois desafios principais que precisamos superar para conseguir os demais. Depois do golpe contra a Dilma Rousseff, a Petrobras sofreu um ataque muito grande, não só em sua estrutura — sendo desmembrada e tendo partes privatizadas —, mas também em sua imagem. 

“Devemos partir mais para a cooperação e menos para a competição, mais para o coletivo e menos para o individualismo”

A Lava Jato, a questão da corrupção e a grande guerra que a mídia fez contra a empresa tinham o sentido de desgastar a imagem da Petrobras, que era tida como um patrimônio do povo brasileiro. Eles queriam apagar essa imagem para que a população não lutasse contra a privatização. O desafio de recuperar a imagem da Petrobras como um patrimônio nacional e impulsionadora do desenvolvimento da nossa indústria é algo que temos que superar, para conseguir o apoio da sociedade para o restante.

Além disso, por meio de várias ações, eles promoveram uma mudança cultural dentro da empresa, no sentido de tornar os pensamentos menos coletivos e mais individualistas, cortando o sentimento de pertencimento que o funcionário tinha de pertencer a um grande time que trabalha para o seu país. Isso foi implantado lá por meio de várias pequenas ações. 

Acho que reverter essa mudança cultural é um desafio. Devemos partir mais para a cooperação e menos para a competição, mais para o coletivo e menos para o individualismo, resgatando o sentimento de que o nosso trabalho ali não é só para o nosso sustento, mas que temos uma missão maior de servir e desenvolver o nosso país. Essas duas mudanças são os principais desafios que todos os sindicatos e a categoria petroleira têm hoje para podermos alcançar os demais.

Como você enxerga o governo Lula (PT) auxiliando nesses aspectos que você mencionou?

O governo Lula é um governo em disputa. O Lula tenta avançar para um lado e o Congresso o puxa para trás. Sem dúvida, ele tem ajudado em alguma coisa, o que é essencial para conseguirmos recuperar alguns pontos, apesar de ainda existirem muitos traços neoliberais na gestão da empresa. 

A empresa, assim como o governo, está em disputa. Para conseguirmos avançar mais, é essencial não só reeleger o Lula para a presidência, mas também eleger um Congresso mais comprometido com as nossas causas e com a soberania do país. Não adianta o Lula puxar para um lado e o Congresso puxar para o outro, que é o que estamos vendo lá, onde pouca coisa o Lula consegue aprovar sem cortes ou sem a influência negativa do Congresso.

A dupla jornada e a divisão desigual das tarefas domésticas ainda afastam muitas mulheres da política e do sindicalismo. Como o sindicato pode criar mecanismos para incentivar e garantir maior participação feminina nos espaços de decisão?

A política pública de cuidados é uma briga que está na pauta, porque essa tarefa dos cuidados sempre sobra mais para a mulher. É sempre a mulher que deixa a carreira um pouco de lado e deixa de participar dos espaços de luta para poder ficar com os filhos. 

Dentro da Petrobras, já conseguimos alguns avanços. A Federação Única dos Petroleiros (FUP), à qual o Sindipetro-MG é filiado, tem um coletivo de mulheres. As mulheres dos sindicatos de todo o país se unem nesse coletivo para tratar de assuntos e pautas específicas nossas. Esse coletivo hoje tem força dentro da FUP, e já conseguimos aprovar algumas pautas nesse sentido: extensão de licença-maternidade, extensão de licença-paternidade e campanhas sobre parentalidade ativa dentro da Petrobras, incentivando a participação dos pais. 

Além disso, a Petrobras tem auxílio-creche e auxílio-cuidador. Estamos engatinhando nisso, ainda está longe de ser a situação ideal, mas temos buscado dar mais liberdade para a mulher poder participar. Hoje em dia, a possibilidade de realizar reuniões, congressos, lives e workshops online também facilita a participação delas, algo que não existia na minha época.

O setor de petróleo e energia vive discussões importantes sobre privatizações, transição energética, terceirização e condições de trabalho. Como você avalia o papel do sindicato nesse cenário e quais debates pretende aprofundar durante sua coordenação?

A questão da terceirização e da precarização das condições de trabalho foi muito aprofundada no pós-golpe. Em especial em Minas Gerais, constatamos no ano passado, após uma greve dos prestadores de serviço, que o estado tinha a pior tabela salarial do país. Foi uma greve grande, com cerca de 2 mil pessoas, que durou mais de uma semana. Eles conseguiram o compromisso da Petrobras de, nos próximos contratos, igualar a tabela de Minas com a tabela do Paraná, que é um pouco melhor. Ainda assim, as condições de contratação da Petrobras pioraram muito no pós-golpe.

A FUP, assim como tem o coletivo de mulheres, tem também um comitê do setor privado que une os trabalhadores terceirizados para discutir suas pautas. Apesar de não representarmos diretamente esses trabalhadores, tentamos ajudar a melhorar o formato dos contratos que a Petrobras faz com as empresas subcontratadas para dar uma proteção maior a eles. 

A terceirização, além de precarizar as condições de trabalho, facilita muito a privatização, pois dilui os trabalhadores em categorias e sindicatos diferentes, reduzindo a força de luta e a segurança no emprego. Uma unidade muito terceirizada é muito mais fácil de ser vendida. 

No ano passado, vivemos uma situação dessas com a Petrobras Biocombustível (PBio). A Petrobras planejou fazer uma parceria com uma empresa que teria mais de 50% das ações da PBio, com a operação e a gestão totalmente terceirizadas. Seria praticamente uma privatização disfarçada. Em uma eventual troca de governo, para privatizar de fato, bastaria uma assinatura. 

Por isso, buscamos frear a privatização e reverter o que for possível. Lutamos sempre pela primarização e, caso não seja possível, por contratos que dêem mais proteção aos terceirizados.

Analistas avaliam que o movimento sindical brasileiro passa por transformações e enfrenta desafios para dialogar com trabalhadores mais jovens. Como aproximar as novas gerações da organização sindical e das lutas coletivas?


Nesse quesito, vou literalmente pedir ajuda aos universitários. O nosso sindicato trabalha muito em parceria e interlocução com outros movimentos, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento Brasil Popular, e também com movimentos de juventude e estudantis, como o Levante Popular da Juventude e a União Nacional dos Estudantes (UNE). O que eu queria neste mandato é me aproximar ainda mais e realizar projetos conjuntos, como atividades culturais que atraiam a juventude. 

Consigo dialogar com a categoria mais nova se eles vierem até mim, mas o difícil é trazê-los. Um dos meus desejos é aproveitar o bom espaço que temos no nosso sindicato para promover eventos culturais e esportivos que chamem a juventude para perto, permitindo o diálogo. 

Para isso, preciso da ajuda dos estudantes, que são muito criativos, abertos e comunicam-se muito bem. A ideia é fazer essa parceria para atrair o público jovem para o sindicato e para o movimento de maneira geral. O sindicato petroleiro não é uma ilha e está sempre em interlocução.

O Sindipetro-MG tem histórico de participação em greves, campanhas salariais e mobilizações em defesa dos direitos da categoria e do patrimônio público. Como equilibrar a tradição de luta do sindicato com os novos desafios do mundo do trabalho?

É justamente a questão que eu estava mencionando: não podemos nos fechar apenas na categoria petroleira. Se olharmos para o mundo do trabalho em geral, estamos em um lugar muito diferenciado e privilegiado. Não podemos olhar só para nós; temos que olhar em volta, nos envolver, ter interlocução e apoiar movimentos como o MAB, o Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), o MST, e os movimentos de juventude e negritude. Esse envolvimento e apoio são fundamentais para não virarmos apenas uma casta privilegiada que não se envolve nas outras questões da sociedade.

Em 2026, o Brasil terá uma eleição presidencial marcada por debates sobre direitos trabalhistas, soberania energética e o papel das estatais. Como você avalia o cenário político para a classe trabalhadora e qual a importância da organização sindical diante de uma possível campanha de reeleição do presidente Lula?

Para mim, já não é uma possibilidade; o movimento sindical já está com essa campanha no horizonte. Sabemos que a outra alternativa seria terrível para o país. Poderíamos esquecer as nossas estatais e a nossa soberania, veríamos nossos recursos naturais entregues ao imperialismo, e a superexploração da classe trabalhadora se aprofundaria ainda mais. Seria desastroso. 

Todos os sindicatos precisam se envolver muito nessa campanha. E não é só a campanha para a Presidência da República; é a campanha para o Senado, para o Congresso, para a Assembleia Legislativa de Minas e para o governo do estado. 

Algumas pessoas dizem que não gostam de política, mas não há como não gostar, pois a política manda na sua vida, no seu emprego, na sua saúde, na educação dos seus filhos, no preço da gasolina e do arroz. Quem elege políticos progressistas é a classe trabalhadora, organizada pelos sindicatos e movimentos. 

Acredito que haverá um envolvimento muito grande. No Sindipetro-MG, estávamos esperando passar a eleição local para já entrarmos na campanha pelas eleições de outubro, que serão muito importantes para nós.

Que mensagem você gostaria de deixar para outras mulheres trabalhadoras que desejam ocupar espaços de liderança política, sindical e social, mas ainda encontram barreiras e resistência?

Barreiras e resistências sempre existiram; enfrentamos isso desde pequenas. O primeiro machismo que se enfrenta é dentro de casa, na família. Não podemos nos deixar intimidar ou paralisar por essas barreiras. Temos que ir com barreiras e tudo. Se formos focar apenas nelas, não saímos de casa. 

Também recomendo que busquem o apoio de outras mulheres, porque no coletivo nos sentimos muito mais fortes. Quando me propuseram ser coordenadora da chapa, minha primeira reação foi recusar, dizendo que tinha pouco tempo e não estava preparada. Quem me convenceu foram as mulheres do coletivo da FUP, mostrando que eu não estaria sozinha. Busquem ou organizem grupos de mulheres. 

Esse coletivo não existiu sempre; alguém precisou começar e dizer que precisávamos nos organizar porque éramos sub-representadas e tínhamos problemas específicos. Criem grupos de mulheres, vão para a luta e não se deixem intimidar. O machismo quer nos manter no mesmo lugar, mas o negócio é não aceitar. 

Quem nasceu pobre já conhece a dificuldade. Quem nasceu pobre e mulher, duas vezes mais. Quem nasceu pobre, mulher e preta, ainda mais. Mas não podemos deixar que isso nos detenha. Vamos para cima das barreiras e, devagarzinho, vamos derrubando-as.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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