Omar Abdulkadir Artan retornou à Somália sem poder participar da Copa do Mundo de 2026, mas encontrou uma recepção de herói ao desembarcar em Mogadíscio. Impedido de entrar nos Estados Unidos, mesmo com visto válido para atuar na competição, o árbitro foi recebido por dirigentes esportivos, representantes do governo e torcedores após o caso ganhar repercussão internacional.
Artan seria o primeiro somali a trabalhar em uma edição da Copa do Mundo. Considerado um dos principais nomes da arbitragem africana, ele foi eleito o melhor árbitro da Confederação Africana de Futebol (CAF) em 2025 e chegou a ser apontado como símbolo da projeção internacional do futebol somali.

O árbitro teve a entrada negada pelas autoridades estadunidenses ao desembarcar em Miami na segunda-feira (8). A decisão ocorreu apesar de ele possuir visto relacionado à competição. Nesta quarta-feira (10), o governo de Donald Trump acusou Artan de ligação com organizações terroristas.
“Após uma inspeção mais detalhada realizada pela CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA), foram descobertas informações desabonadoras, incluindo associação com supostos membros de organizações terroristas, o que tornou o viajante inelegível para admissão nos Estados Unidos nos termos da Lei de Imigração e Nacionalidade (INA)”, informou a Casa Branca, sem apresentar provas.
Recebido com honras
Ao chegar de volta à Somália, o árbitro Omar Abdulkadir Artan agradeceu o apoio recebido. “Quero agradecer à Fifa pelo apoio durante todo esse processo e também ao povo da Somália. Sou muito grato à Fifa e à CAF”, declarou.
Após chegar ao aeroporto, Artan foi recebido por milhares de pessoas no Estádio de Mogadíscio, o maior do país.
🇸🇴 Nunca vi algo así. En Somalia hoy se llenó un estadio para recibir como héroe nacional a Omar Artan, el árbitro al que Estados Unidos le negó la entrada al Mundial. Increíble.pic.twitter.com/Xrc90D2XVK
— Nahuel Lanzón (@nahuelzn) June 10, 2026
O presidente da Federação Somali de Futebol, Ali Abdi Mohamed, afirmou que a decisão afetou um profissional que havia conquistado o direito de atuar no principal torneio do futebol mundial. Segundo ele, Artan merecia a oportunidade depois da trajetória construída na arbitragem internacional.
A repercussão do caso ultrapassou o ambiente esportivo. Nesta quarta, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu que os Estados Unidos revisem suas políticas migratórias durante a Copa do Mundo.
A manifestação ocorreu após uma série de relatos envolvendo dificuldades de entrada no país para participantes do torneio. Além do árbitro somali, delegações esportivas, jornalistas e integrantes de equipes relataram revistas rigorosas e problemas relacionados a vistos.
A seleção de Senegal foi submetida a uma revista na pista do aeroporto de Raleigh, na Carolina do Norte, por exemplo. Já a delegação do Uzbequistão denunciou que teve todas as bagagens revistadas e aguardou por horas sob o sol para ser liberada após desembarcar nos Estados Unidos.
Artan também recebeu uma demonstração de apoio do Canadá. O primeiro-ministro da província da Colúmbia Britânica afirmou publicamente que o árbitro seria bem-vindo em Vancouver e sugeriu a possibilidade de participação em partidas realizadas na cidade.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, fugiu da responsabilidade sobre o caso, alegando que a decisão sobre imigração é exclusiva dos países que recebem o torneio.
“É lamentável o que aconteceu com Omar (Artan), o árbitro da Somália. Mas, novamente, não controlamos tudo. […] Estamos trabalhando nos bastidores, tentando entender a situação, mas há coisas que podemos saber, outras que não podemos, coisas que nos dizem e coisas que não nos dizem”, disse Infantino em uma coletiva de imprensa no estádio Azteca, na Cidade do México, nesta quarta.
“Estamos sempre tentando encontrar soluções, mas precisamos reconhecer que não somos os donos do mundo, que podem mandar em governos e forças policiais. Somos uma organização esportiva”, afirmou o presidente da Fifa.
