Artigo

A condição feminina na China: evolução histórica, luta social e representação cultural (Parte 3)

A evolução da representação da mulher na arte e na literatura chinesas acompanha a própria evolução da condição humana

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Uma mulher fala ao telefone perto de uma praia em Xiamen, na província de Fujian, no sudeste da China, em frente às Ilhas Kinmen de Taiwan, em 25 de maio de 2026
Uma mulher fala ao telefone perto de uma praia em Xiamen, na província de Fujian, no sudeste da China, em frente às Ilhas Kinmen de Taiwan, em 25 de maio de 2026

Pretendemos, no presente ensaio, tendo como base estudos anteriores (2023), acompanhar a evolução do papel da mulher na China, seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista jurídico e político-econômico. Antes de mais, convém notar que, ao refletirmos sobre a trajetória sociopolítica e jurídica da mulher chinesa, sejamos conduzidos a valores e construções sociossimbólicas que encontram no confucionismo a sua base de sustentação, nomeadamente no quadro da China Imperial.

A evolução sociopolítica teve, no entanto, um impulso especial no século XIX (mormente depois do Movimento 4 de maio de 1919), tendo-se aprofundado ao longo do século XX, num primeiro momento, quando da instauração da República, e, num segundo momento, quando da construção da Nova China, depois de 1 de Outubro de 1949. Com efeito, depois da Revolução chinesa de 1949, a trama legislativa chinesa tem vindo, continuamente, a evoluir no sentido de atribuir a completa paridade — social, económica e jurídica — entre o Homem e a Mulher.

Tendo em conta a extensão do presente trabalho, dividiremos a sua publicação em três partes. Publicamos, hoje, a terceira e última parte, a qual se centra na contemporaneidade e nas práticas de expressão artística. Leia a primeira parte neste link e a segunda parte neste link.

A evolução da posição social da mulher e suas consequências nas artes e na literatura

A reflexão sobre a condição da mulher chinesa não pode ser desligada das representações construídas pela arte e pela literatura ao longo da história. A produção artística e literária constitui sempre um reflexo das estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais de uma determinada época, razão pela qual a representação da mulher nas diferentes manifestações artísticas acompanha, inevitavelmente, a evolução do seu próprio estatuto social.

Ora, o acesso à leitura, à escrita e à formação cultural esteve, durante séculos, profundamente condicionado pela organização social da China Imperial. Até ao final do século XIX, a educação feminina era extremamente limitada, encontrando-se o acesso à cultura reservado, sobretudo, às elites masculinas. Mesmo entre os homens, apenas os membros das classes mais favorecidas possuíam condições para frequentar espaços de formação e de aprendizagem, uma realidade que, no caso das mulheres, era ainda mais restritiva. Neste sentido, as primeiras mulheres letradas pertenciam, quase exclusivamente, às elites urbanas e aristocráticas, permanecendo a esmagadora maioria da população feminina afastada dos espaços de produção cultural e intelectual. A limitação do acesso à educação traduzia-se, naturalmente, numa exclusão das mulheres relativamente aos mecanismos de criação artística, de escrita e de participação intelectual.

Ora, sendo a literatura e a arte manifestações produzidas no interior de uma determinada organização social, as representações femininas presentes nas obras que essa mesma comunidade produz refletem, inevitavelmente, os valores e imaginários dominantes nesse período histórico. A mulher representada na literatura clássica chinesa ou nas diferentes manifestações artísticas da China Imperial não pode, deste modo, ser dissociada do quadro patriarcal e confucionista no qual essas obras foram concebidas. A representação artística da mulher acompanhava, deste modo, os valores associados ao ideal feminino tradicional: obediência, docilidade, castidade, submissão e devoção familiar. A mulher surgia, frequentemente, ligada ao espaço doméstico, à esfera privada e às funções familiares, refletindo o lugar social que lhe era atribuído no interior da sociedade chinesa tradicional.

As transformações ocorridas ao longo do século XX alteraram, profundamente, esta realidade. O acesso crescente das mulheres à educação, iniciado ainda no final do período imperial, aprofundado, primeiro, após a instauração da República e, posteriormente, quando da consagração da República Popular da China, permitiu uma participação cada vez mais ativa das mulheres nos espaços culturais e intelectuais.

A abertura das primeiras escolas femininas, a legalização da educação feminina em 1907 e, mais tarde, a expansão do ensino durante o período republicano e socialista, criaram condições para o surgimento de novas vozes femininas no panorama cultural chinês. Progressivamente, as mulheres passaram de objeto de representação artística a sujeitos produtores de literatura, arte e pensamento. Esta transformação teve importantes consequências no plano simbólico e cultural, permitindo o aparecimento de novas representações da condição feminina, introduzindo novas perspetivas sobre o corpo, o trabalho, a família, a emancipação e a própria experiência de ser mulher na sociedade chinesa.

Em prévios trabalhos, afirmamos que a arte e a literatura têm vida, respiram, andam, saltam mundos e caminhos. Por conseguinte, a interpretação de uma personagem feminina, numa obra de finais do século XIX, não pode ser desligada nem do ambiente socioeconômico em que a mulher real vive, nem do seu criador, o qual respira, pensa e sente, num determinado quadro sociocultural. Hoje, fruto da evolução sociopolítica e jurídica da mulher, temos uma proliferação de autoras mulheres, na China, como em todos os restantes cantos do mundo. Este fato traz, naturalmente, novas representações e cosmovisões da mulher para o plano artístico, enriquecendo a literatura e a arte com novas propostas de leitura. A evolução da representação da mulher na arte e na literatura chinesas acompanha, assim, a própria evolução da condição feminina na sociedade: à medida que as mulheres conquistaram acesso à educação, ao trabalho, à participação política e à produção intelectual, transformaram-se, igualmente, os modos de representação do feminino, abrindo-se espaço para novas sensibilidades, experiências e cosmovisões, no interior da cultura chinesa contemporânea.

A trajetória histórica da mulher chinesa demonstra, em suma, que a luta pela emancipação feminina se encontra intimamente ligada à luta mais ampla pela emancipação humana, nomeadamente no quadro de construção de uma sociedade socialista. A conquista de direitos jurídicos constitui um passo fundamental, mas a construção de relações sociais verdadeiramente igualitárias implica consciência de desigualdades persistentes, debate intergeracional e transformação sociocultural. Na continuidade de um percurso que — ainda que iniciado, sobretudo, no final do século XIX — se aprofundou ao longo das transformações revolucionárias do século XX, consolidando-se, no plano jurídico, após a Constituição de 1982, a condição feminina na China contemporânea — na qual se aprofundam os valores e as conquistas socialistas — revela, ainda hoje, obstáculos e desafios por ultrapassar. Não obstante as mulheres chinesas, graças ao processo socialista chinês, terem alcançado níveis de participação social, política e econômica inimagináveis antes de 1949, o caminho para a construção de uma igualdade plena continua em construção. 

“O Estado protegerá os direitos e interesses das mulheres, implementará o princípio de que homens e mulheres recebem salário igual por trabalho igual e garantirá a formação, seleção e promoção de quadros entre as mulheres” (Art. 48, Constituição da República Popular da China).

*Ana Saldanha é professora catedrática de Português na Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade Normal de Hunan, na China.

Bibiografia citada:

Saldanha, Ana. “A evolução sociopolítica e jurídica da mulher chinesa: passado e presente de um caminho de luta”. Revista Via do Meio. Macau, Primavera de 2023, pp. 106-112.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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