Em Belo Horizonte, o Festival de Arte Negra (FAN) volta a movimentar a cidade, a partir desta quinta-feira (11), com música, teatro, feira, mostras e cinema. A programação conta com shows de Paula Lima, Tássia Reis, Nação Zumbi e diversas apresentações.
O lema “Tempo espiralar, cidade em movimento” serve também para celebrar 30 anos de trajetória como um dos mais importantes eventos dedicados às artes e às culturas negras do país. A 13ª edição do FAN é uma realização da prefeitura de BH, por meio da Fundação Municipal de Cultura, em parceria com o Instituto Periférico.
“Belo Horizonte é uma cidade que pulsa a cultura, que pulsa a arte, e onde nós temos muitos nomes na cena contemporânea que estão fazendo, desenvolvendo e criando trabalhos incríveis, da maior importância artisticamente, historicamente e politicamente”, afirma Fredda Amorim, integrante da comissão artística e coordenadora do FAN.
O evento, que será realizado de 11 a 14 de junho, ocorre no Parque Municipal, no Centro de Referência das Culturas Urbanas de Belo Horizonte (CRCURB) – Viaduto Santa Tereza e no Teatro Francisco Nunes.
Na abertura, a cantora e compositora Paula Lima apresenta o show “Eu, Paula Lima – O Baile”, com participação da rapper Tássia Reis, enquanto o artista visual ED-MUN realiza graffiti ao vivo no CRCURB – Viaduto Santa Tereza, com a pintura “Espiral do Retorno: Agudás entre Continentes”.
O evento continua no Dia dos Namorados, 12 de junho, com apresentação de Nath Rodrigues, com “Pérola Negra – Uma homenagem a Luiz Melodia”. No encerramento, domingo (14), o Palco Sesc FAN Espiralar recebe Sonora Samba, com Dona Eliza, Elisa de Sena, Fran Januário e Thamires Cunha, além da participação de Fabiana Cozza, e show da banda Nação Zumbi.
Confira a programação completa no site.
Os ciclos do evento
Amorim afirma que a ideia de tempo espiralar, de Leda Maria Martins, serve para refletir sobre vivências artísticas, celebrativas e ancestrais também a partir das artes, em especial a partir dos movimentos negros.
“Quando a gente traz o tempo espiralar para esta edição do FAN, trazemos com o objetivo de criar e possibilitar um terreno fértil para podermos, juntas, coletivamente, fazer esse movimento também de Sankofa. Que é um movimento de retorno para as nossas raízes, para nossa ancestralidade”, afirma.
A 13ª edição do FAN começou em novembro do ano passado, quando foi realizado o primeiro ato, chamado de Rotas, que proporcionou uma série de discussões, rodas de conversa e chamadas de giras, na Funarte. Esses encontros estruturam um chamamento artístico, que propiciaram a etapa seguinte, Raízes, realizada em março.
“Foi um marco de retorno descentralizado aos territórios, em que a gente conseguiu trabalhar com 11 atividades, percorrendo todas as regionais da cidade e valorizando, promovendo, a luta histórica e a permanência efetiva de grupos de Congado, de quilombos e de grupos de Moçambique que ajudam nessa costura do tecido social do movimento negro de Belo Horizonte”, explica Gabriela Santoro, presidente do Instituto Periférico.
O ato final, Espiralar, é um momento também de celebração, onde todas as pessoas que participaram dos outros atos ocupam mais uma vez o centro.
“Então, a gente está espiralando, indo para os territórios, para as regionais, voltando para o centro. Trazer também essa ideia de cidade em movimento, pensando que a ideia é que esse espiral continue fluindo e reverberando, tanto na comunidade artística, mas também na população negra de Belo Horizonte, de modo geral”, reforça Amorim.
História do FAN
Desde 1995 na cidade, as demandas artísticas, políticas e sociais envoltas pelo FAN se renovaram.
“Em 1995, a gente tinha um período histórico muito conturbado, pós-ditadura. A gente tem uma política cultural que estava se formando ainda, depois de todos os momentos de censura artística. Então, é muito bonito ver como o festival vem evoluindo e como o festival vem se colocando e se posicionando em um lugar de acompanhar também essas evoluções”, lembra Fredda Amorim.
Segundo a organizadora, o FAN também tem um perfil de internacionalização e de intercâmbio com outras culturas e até com a própria cultura de África.
Para Gabriela Santoro, guardiões da memória do início do FAN entenderam que era importante trazer para Belo Horizonte uma provocação e uma proposição de realização de um festival que pudesse alçar a um patamar de protagonismo os fazedores de cultura negros da cidade.
“Já começa como um movimento de resistência, de valorização e de reflexão sobre a importância dessa cultura de matriz africana”, recorda.
Ao longo das suas edições, o FAN abordou diversos temas que eram contemporâneos à edição.
‘Nas 12 edições anteriores a essa que a gente está vivendo agora, a gente teve diversas abordagens que dialogavam com as urgências da época e que ajudaram a fortalecer esse movimento em Belo Horizonte. Então, a gente vem, desde 1995 até agora, em uma crescente de fortalecimento do movimento e observando uma ampliação das oportunidades efetivas de protagonismo negro na cultura da cidade”, afirma.
Para ela, o FAN deve servir como um eixo de lastreamento de um movimento que fortalece essa cultura negra da cidade.
Além disso, a presidente do Instituto Periférico defende que as oportunidades de trabalho nos bastidores sejam também de pessoas negras. Ela ressalta que o FAN deve continuar a se qualificar e ampliar diálogos entre pensamentos que são divergentes, fortalecendo o movimento como um todo.
“O que a gente precisa conseguir é aceitar críticas, acolher, entender como elas podem ajudar em uma construção desta edição ou de edições futuras, e trabalhar esse diálogo das divergências como algo que é natural na construção e na perpetuação desse movimento”, pondera.
Desafios que precisam ser superados
Ao falar de tempo espiralar, segundo Amorim, é preciso também pensar na ancestralidade como uma tecnologia de futuro e de fabulação de futuro.
“Para além de ser um festival de arte negra, o FAN é uma política pública. Então, eu acho que é muito importante, sendo uma política pública, que todas as pessoas o entendam como política pública. Eu falo da população, eu falo do poder público, eu falo de todos os órgãos que estão envolvidos na feitura, no pensamento e na criação deste festival, para que a gente possa, de fato, evoluir, crescer”, reforça.
Para ela, o fomento público é importante, mas é preciso que a iniciativa privada também contribua. É o que também defende Gabriela Santoro.
“É muito importante que o festival, de fato, retome a sua trajetória como um ato contínuo, embarcado nas políticas públicas da cidade, de maneira presente no ano inteiro. A gente pode ter marcos nessa trajetória do festival, momentos de maior celebração ou de reflexão, mas é importantíssimo que o festival se reconstitua como um movimento contínuo de diálogo com a cidade e que a gente não tenha apenas essas datas, mas que a gente tenha uma série de outras pequenas atividades ao longo do ano”, sinaliza.
