IMPACTOS

Minas Gerais pode sofrer com chuvas fortes e ondas de calor durante El Niño

Centro de monitoramento indica probabilidade de 70% de um El Niño forte ou muito forte

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Risco do aumento de incêndios merece atenção em MG | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A previsão de um retorno severo do fenômeno El Niño, a partir de setembro deste ano, preocupa especialistas sobre os efeitos em Minas Gerais. O evento climático é caracterizado pela mudança de temperatura da superfície do Oceano Pacífico e, entre as consequências, é possível considerar a chance de ocorrência de ondas de calor, além de chuvas fortes e concentradas em poucos dias, no estado.

Dados divulgados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontam a probabilidade de 70% de um El Niño forte ou muito forte.

“Por enquanto, o El Niño deste ano não é classificado como forte, está na fase entre fraco e moderado, mas espera-se que ele evolua para forte ou até super forte. Isso pode acontecer ou não pode acontecer, vai depender de como a atmosfera vai responder. Mas, no El Niño clássico, o que acontece, em termos de comportamento atmosférico, no estado de Minas, é que as temperaturas ficam acima da normalidade”, explica Wellington Lopes Assis, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O geógrafo e cientista do clima Lucas Oliver chama a atenção também para o fato de que “nem todo El Niño é igual”, o que dificulta afirmar com exatidão quais serão os seus impactos. Ainda assim, ele destaca, além do aumento de temperatura, a possibilidade da ocorrência de chuvas fortes.

“Teremos a redução da quantidade de dias chuvosos, mas, ao mesmo tempo, os dias chuvosos vão concentrar um volume de chuva muito grande”, destaca.

Em Belo Horizonte, por exemplo, a média de precipitação durante o período chuvoso é de cerca de 1500 milímetros de água. Essa quantidade pode estar distribuída em vários dias, o que diminui as chances de inundações, alagamentos ou deslizamentos de terra. Mas, com o El Niño, os riscos de desastres como esses podem aumentar. 

Segundo Oliver, nos dias em que não houver precipitação, o mais provável é que a população da capital mineira conviva com ondas de calor. “Devemos ter episódios de chuva em julho e agosto, e isso é importante para evitar as queimadas. Os efeitos do El Niño devem começar em setembro e, a partir de outubro, teremos muito calor”,  explica Oliver. 

O geógrafo também lembra que Minas Gerais possui uma das cidades mais quentes do Brasil, Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, onde as ondas de calor podem ser ainda mais intensas. 

“Ondas de calor são quatro ou cinco dias em que a temperatura fica  2 ou 3 graus acima da média. A temperatura mais quente também consegue carregar mais o vapor de água. Logo, o El Niño pode trazer grandes pancadas de chuva. O governo precisa se preparar para isso”, explica Oliver.

O estado está preparado?

Na segunda-feira (8), o governador Mateus Simões (PSD) anunciou um Plano Estadual de Enfrentamento aos Incêndios Florestais, que prevê um orçamento de R$ 440 milhões para os próximos cinco anos. O executivo mineiro também montou um grupo de especialistas para monitorar eventos extremos. Mas as ações ainda são consideradas poucas, diante dos riscos. 

Por outro lado, o governo federal, sob gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), trabalha com a possibilidade de alto risco climático a partir da segunda metade deste ano. Entre as medidas já previstas pela União estão o aumento da estrutura de combate a incêndios florestais, a ampliação em 26% do contingente de brigadistas federais, o financiamento de iniciativas de prevenção e combate ao fogo, e a instalação de bases avançadas em áreas consideradas estratégicas, como a Amazônia.

O risco do aumento de incêndios merece atenção especial de Minas Gerais, que vivenciou nos últimos anos um processo de desmonte do Programa de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais, mais conhecido como Força Tarefa Previncêndio (FTP), por parte da gestão do ex-governador Romeu Zema (Novo), que publicou um decreto, em 2024, de deslocamento da coordenação operacional da FTP para o Corpo de Bombeiros.

“Antes, a gestão era feita pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), que já detinha a expertise do Previncêndio: o olhar para os pontos que pegam fogo, a estrutura de combate e os brigadistas conveniados. O Corpo de Bombeiro realiza um ótimo trabalho na zona urbana, mas não tem essa expertise que os nossos brigadistas tinham”, explicou o diretor de políticas ambientais do Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente no Estado de Minas Gerais (Sindsema) e gestor ambiental na Fundação Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais (Feam) Francisco de Assis da Silva Jr, ao Brasil de Fato MG, na época.

Para Lucas Oliver, além de investir na prevenção aos incêndios, de imediato, o governo de Minas deveria apostar no treinamento de equipes, na geração de renda para pessoas atingidas, e construir espaços de acolhimento. À médio prazo, segundo ele, o poder público deveria se empenhar em construir cidades mais adaptadas.

“Deveríamos acolher os refugiados climáticos. As pessoas perdem tudo, como aconteceu em Juiz de Fora no início deste ano. É uma catástrofe coletiva. O governo deveria ter quadras, escolas, espaços para acolher essas pessoas. A gente tem que se preparar, ter protocolos. Área de risco não é de risco de chuva, é de risco de deslizamento, risco climático, risco de morte. Chuva não é risco, o risco é morrer na chuva”, argumenta.

O El Niño e as mudanças climáticas

O El Niño é um fenômeno natural, caracterizado pela modificação da circulação atmosférica. Normalmente, as águas do Oceano Pacífico mais próximas da América do Sul são mais frias que as mais próximas da Indonésia, devido a um evento chamado Ondas de Kelvin. Na prática, o El Niño inverte isso.

Esse movimento já está acontecendo. Ou seja, já estamos “em condições de El Niño”, mas ele ainda não foi decretado, o que só acontece após três meses de manutenção dessa condição, previsto para setembro de 2026. 

“O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial e Tropical. Esse aquecimento gera modificações na circulação atmosférica, não só na bacia do Pacífico, onde efetivamente ocorre o fenômeno, mas no mundo todo. E essas modificações na circulação atmosférica também geram modificações na temperatura, na quantidade de chuva que cai, no regime de ventos, entre outras repercussões. Essas repercussões são chamadas de teleconexões”, explica Wellington Lopes Assis.

Os El Niños são intensificados pelas mudanças climáticas, e, ao mesmo tempo, influenciam nas mesmas. Lucas Oliver destaca que, todas as vezes em que ocorre um El Niño e a temperatura da Terra aumenta, não é mais possível retornar ao padrão de temperatura anterior. 

“Isso aconteceu em 1982, 1998, 2016 e 2024. Se a gente tem este ano um El Niño mais forte, a temperatura da Terra vai seguir aumentando, o que também significa mais eventos extremos. Há um consenso na ciência de que teremos o aumento dos eventos extremos, em recorrência e intensidade”, finaliza o geógrafo.

Editado por: Elis Almeida

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