VOZES DO PAMPA

Mulheres, juventudes e movimentos defendem protagonismo dos territórios no enfrentamento da crise climática

Plenária em Porto Alegre integrou ciclo nacional sobre biomas e reuniu governo, universidade e organizações populares

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Atividade em Porto Alegre integrou a série nacional ‘Plenárias das Mulheres e Juventudes nos Biomas Pós-COP30’
Atividade em Porto Alegre integrou a série nacional ‘Plenárias das Mulheres e Juventudes nos Biomas Pós-COP30’ | Crédito: Lawrin Ritter

Porto Alegre sediou nesta quarta-feira (10), no Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), a Plenária das Mulheres e Juventudes do Bioma Pampa. A iniciativa reuniu mulheres, jovens, representantes de movimentos sociais, gestores públicos e pesquisadores para discutir estratégias voltadas à justiça climática, à igualdade de gênero e à participação social nos territórios.

A atividade integra a série nacional “Plenárias das Mulheres e Juventudes nos Biomas Pós-COP30”, promovida nos seis biomas brasileiros pelo Ministério das Mulheres em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência da República, por meio da Secretaria Nacional de Juventude. A iniciativa conta ainda com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) e da Presidência Jovem da COP30.

A mesa de abertura contou com a participação do diretor da Secretaria Nacional de Juventude, Guilherme Barbosa; da chefe de gabinete da Secretaria-Executiva do Ministério das Mulheres, Alicia Rosler; da representante da Presidência Jovem da COP30, Luisa Barreto; da pró-reitora de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Daniela Pavani; da diretora de Enfrentamento à Violência da Secretaria Estadual das Mulheres, Carina Bernardi; da representante da Coordenadoria da Mulher de Porto Alegre, Olívia Trevisani Bertolini Monteiro; e do deputado estadual Miguel Rossetto (PT).

Durante o encontro, a assessora da Secretaria-Executiva do Ministério das Mulheres, Laís Rezende, destacou que a plenária faz parte de um processo que já percorreu diferentes regiões do país. Segundo ela, a iniciativa passou pela Mata Atlântica, Pantanal, Caatinga e Amazônia antes de chegar ao Pampa, encerrando o ciclo na próxima semana, no Cerrado, em Brasília.

Ela ressaltou que o objetivo é fortalecer a mobilização territorial dos movimentos de mulheres e juventudes em torno da agenda climática, considerando as dimensões de gênero, raça e geração. “Os acúmulos produzidos ao longo desse ciclo vão se transformar em documentos que demonstram como mulheres e juventudes enxergam a crise climática em seus biomas e quais são as prioridades para enfrentá-la.”

Os documentos serão disponibilizados para organizações e movimentos sociais e também servirão de subsídio para a formulação e o aprimoramento de políticas públicas no âmbito do governo federal.

Artista Mariana Stedele participou da plenária em Porto Alegre | Crédito: Lawrin Ritter

Mulheres entre as mais afetadas pela crise climática

Representando a Coordenadoria da Mulher de Porto Alegre, Olívia Trevisani Bertolini Monteiro ressaltou a importância de relacionar o debate climático às questões de gênero. Segundo ela, as mulheres estão entre os grupos mais impactados pelas consequências das mudanças climáticas, especialmente em situações de insegurança alimentar e vulnerabilidade social. “A mulher é quem percebe no território, muitas vezes de forma mais ágil, as dificuldades e os impactos que chegam às comunidades. Por isso, é fundamental pensar políticas públicas com um olhar interseccional e coletivo.”

A diretora de Enfrentamento à Violência da Secretaria Estadual das Mulheres, Carina Bernardi, também destacou que as mulheres costumam ser as mais afetadas durante eventos climáticos extremos. Ela lembrou as ações realizadas durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul e ressaltou a necessidade de construir soluções voltadas à justiça climática. “A juventude é o futuro, mas precisamos pensar esse assunto agora, porque estamos vivendo uma situação realmente crítica.”

Em sua intervenção, a pró-reitora de Extensão da UFRGS, Daniela Pavani, enfatizou a importância da diversidade na produção científica e da aproximação entre universidade e sociedade. Professora do Instituto de Física e coordenadora de ações voltadas à participação de meninas na ciência, Pavani destacou que a universidade só cumpre plenamente sua função quando está conectada aos problemas reais enfrentados pela população. “A universidade só tem sentido se realiza sua formação, pesquisa e ensino a partir dos problemas do cotidiano das cidades, dos territórios e das pessoas”, afirmou.

Ela também ressaltou o papel dos movimentos sociais na construção de políticas públicas e defendeu a mobilização coletiva como caminho para enfrentar os desafios sociais e ambientais.

Durante a plenária, foram montados grupos de trabalho | Crédito: Lawrin Ritter

Participação social e legado da COP30

Representando a Presidência Jovem da COP30, Luisa Barreto ressaltou que os espaços de representação da juventude nas conferências climáticas são recentes e resultam da mobilização de movimentos juvenis em todo o mundo. “No ano passado, percorremos todos os biomas, ouvimos centenas de jovens e elegemos representantes para participar da COP. Agora retornamos aos territórios para dar continuidade a esse diálogo”, explicou.

Alicia Rosler, do Ministério das Mulheres, reforçou que a discussão sobre justiça climática não se encerrou com a COP30 e segue sendo uma prioridade para o governo federal. Ela destacou que os efeitos da crise climática aprofundam desigualdades já existentes e atingem de forma mais intensa grupos historicamente vulnerabilizados, especialmente mulheres e mulheres negras. “Quem menos contribuiu para a crise climática é, muitas vezes, quem paga o maior preço por ela”, afirmou.

De acordo com o diretor da Secretaria Nacional de Juventude, Guilherme Barbosa, o principal objetivo da plenária é ouvir as experiências e propostas das mulheres e juventudes dos territórios para subsidiar a elaboração de políticas públicas.

Segundo ele, os debates realizados nos diferentes biomas serão sistematizados em um documento nacional que reunirá demandas e soluções apresentadas pelos participantes. “Queremos construir um acúmulo coletivo para dizer ao governo quais são as soluções climáticas reais para enfrentar os desafios colocados para esta geração e para o futuro.”

Pampa sob pressão

Encerrando a mesa de abertura, Rossetto chamou atenção para os desafios enfrentados pelo Bioma Pampa, que ocupa cerca de 70% do território gaúcho e, no Brasil, está presente apenas no Rio Grande do Sul. Segundo ele, o Pampa tem sofrido intensa degradação ambiental nas últimas décadas devido à expansão da soja e da silvicultura. “O Pampa foi o bioma que mais perdeu vegetação natural nos últimos 30 anos. Precisamos construir estratégias de ocupação sustentável que preservem tanto o meio ambiente quanto a identidade cultural do Rio Grande do Sul”, afirmou.

Ao final, o deputado destacou a importância de ampliar o debate sobre preservação ambiental e recursos hídricos e reforçou o papel da participação popular na definição dos rumos do desenvolvimento do estado e do país.

Território, justiça climática e desigualdades

Durante o painel Mulheres e Juventudes do Bioma Pampa, a professora da UFRGS Tatiana Camargo destacou que o Pampa deve ser compreendido a partir da diversidade de territórios que o compõem, incluindo comunidades indígenas, quilombolas, agricultores familiares e pecuaristas. Conforme pontuou, os impactos das mudanças climáticas atingem toda a população, mas não de forma igual.

Camargo chamou atenção para os efeitos da mudança do uso do solo, das estiagens recorrentes e dos eventos climáticos extremos, como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. Ela ressaltou que grupos como a agricultura familiar enfrentam maiores dificuldades para se adaptar às mudanças climáticas, seja por limitações financeiras, técnicas ou culturais.

A pesquisadora defendeu ainda uma abordagem baseada no conceito de “saúde única”, que relaciona a saúde das pessoas à saúde dos ecossistemas. Para ela, compreender a conexão entre os problemas ambientais e sociais permite construir soluções integradas e orientar políticas públicas voltadas à preservação dos territórios e ao bem-estar coletivo.

Representando a Articulação dos Povos Indígenas do Sul (Arpinsul), Luana Kaingang destacou o papel dos povos indígenas na preservação da biodiversidade e na construção de respostas à crise climática. Segundo ela, os territórios indígenas concentram algumas das áreas mais preservadas da região Sul e são fundamentais para a proteção dos biomas.

A liderança indígena frisou a importância da participação dos povos originários nos espaços de decisão e nas conferências climáticas internacionais. Também alertou para ameaças como projetos de mineração em territórios indígenas e empreendimentos que avançam sem consulta prévia às comunidades afetadas. “A resposta para as mudanças climáticas somos nós”, afirmou, ao defender o protagonismo dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e da sociedade civil na construção de alternativas para enfrentar a crise ambiental.

Luana também chamou atenção para a invisibilidade dos biomas Pampa e Mata Atlântica nos debates nacionais e internacionais sobre clima. Segundo ela, é necessário ampliar a visibilidade das populações que vivem nesses territórios e fortalecer a proteção ambiental fora da Amazônia.

Guilherme Barbosa afirmou que o principal objetivo da plenária é ouvir experiências e propostas dos territórios | Crédito: Lawrin Ritter

Juventude reivindica participação e financiamento climático

Por sua vez, a delegada jovem do Bioma Pampa, Paula Hahn, compartilhou a experiência de participação na COP30 e destacou a diversidade cultural e social que caracteriza o território pampeano. Para ela, o Pampa é formado por mulheres, povos indígenas, quilombolas, pescadores, agricultores familiares e diversos outros grupos que historicamente lutam pelo reconhecimento de seus direitos.

De acordo com Hahn, as propostas construídas durante as plenárias realizadas antes da COP30 não apresentavam reivindicações inéditas, mas reforçavam demandas históricas dos territórios, como o reconhecimento efetivo do Bioma Pampa, a valorização das legislações ambientais existentes e o fortalecimento dos saberes tradicionais.

A jovem também refletiu sobre os desafios da participação social nos espaços internacionais de negociação climática. Segundo ela, apesar dos avanços na inclusão de jovens e movimentos sociais, ainda existem barreiras políticas, técnicas e institucionais que dificultam a transformação das reivindicações dos territórios em decisões concretas.

Entre os principais desafios estão o fortalecimento da articulação entre movimentos sociais, a ampliação do financiamento climático e a construção de estratégias capazes de levar as demandas locais aos espaços de tomada de decisão. “O desafio não é apenas produzir diagnósticos. É fazer com que as reivindicações construídas nos territórios cheguem efetivamente a quem pode transformá-las em políticas públicas.”

Soberania alimentar, saneamento e gestão de resíduos

Representando a Eco Pelo Clima, Duda Gotz afirmou que a emergência climática já faz parte do cotidiano da juventude gaúcha e destacou a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à preservação do Bioma Pampa. Conforme apontou, o avanço de monoculturas como a soja e o eucalipto tem provocado perda de biodiversidade, insegurança alimentar e aprofundamento das desigualdades sociais. A ativista chamou atenção para o papel da agricultura familiar e dos povos tradicionais na preservação ambiental e na garantia da soberania alimentar.

Gotz ainda alertou para os impactos da gestão inadequada dos resíduos sólidos e do saneamento precário sobre as populações mais vulneráveis. Para ela, a justiça climática passa necessariamente pelo enfrentamento do racismo ambiental e pela ampliação dos investimentos públicos em infraestrutura. “A justiça climática não se faz apenas olhando para onde o sistema falha. É preciso enfrentar o racismo ambiental, investir em gestão de resíduos, saneamento e políticas públicas que dialoguem com a realidade das periferias.”

Entre as propostas defendidas pela juventude climática estão o fortalecimento da agricultura urbana e periurbana, o incentivo à transição ecológica, a valorização das cooperativas de reciclagem e a ampliação de investimentos em áreas vulneráveis aos eventos climáticos extremos.

Soluções construídas nos territórios

Integrante da Marcha Mundial das Mulheres e do coletivo Periferia Feminista, Jheyni Carolina Amarante de Souza trouxe uma reflexão sobre a relação entre seres humanos, natureza e territórios. Em vez de apresentar dados técnicos, ela chamou atenção para a forma como as pessoas se conectam com os lugares onde vivem e para os impactos da desigualdade ambiental nas periferias.

Em sua avaliação, o modelo de desenvolvimento capitalista tem aprofundado o distanciamento entre as pessoas e a natureza, enquanto os efeitos da crise climática recaem de forma mais intensa sobre mulheres, população negra, pessoas LGBTQIA+ e moradores das periferias.

Para a militante, as soluções para enfrentar os eventos climáticos extremos já existem e surgem das experiências comunitárias construídas nos territórios. Como exemplo, citou iniciativas desenvolvidas no Morro da Cruz, em Porto Alegre, como hortas comunitárias, cozinhas solidárias e ações de educação popular, voltadas à soberania alimentar e ao fortalecimento dos vínculos coletivos. “A resposta para a crise climática precisa vir de baixo, das comunidades e dos territórios que convivem diariamente com enchentes, secas, queimadas e insegurança alimentar.”

Ao encerrar a participação, Souza defendeu o fortalecimento da educação ambiental desde a infância e destacou a necessidade de construir novas formas de relação com a natureza.

Críticas ao modelo de desenvolvimento e às falsas soluções climáticas

A presidenta da Amigas da Terra Brasil, Letícia Paranhos, apresentou uma análise crítica das negociações climáticas internacionais e destacou a participação da entidade na construção da Cúpula dos Povos, realizada paralelamente à COP30.

Segundo ela, as conferências climáticas ainda reproduzem desigualdades históricas ao permitir forte influência de representantes da indústria dos combustíveis fósseis, enquanto populações diretamente afetadas pela crise climática enfrentam dificuldades para acessar os espaços de decisão. “A gente sabe quem mudou o clima. Por isso, precisamos mudar o sistema que mudou o clima.”

Paranhos também criticou o avanço de projetos de monocultura, mineração e expansão da indústria da celulose no Rio Grande do Sul. Para ela, esses empreendimentos aprofundam a degradação ambiental e ampliam conflitos territoriais, especialmente em áreas ocupadas por povos indígenas, quilombolas e agricultores familiares.

A dirigente defendeu uma transição ecológica baseada na agroecologia, na reforma agrária popular, na demarcação de terras indígenas e quilombolas e no fortalecimento das iniciativas comunitárias que emergiram durante as enchentes de 2024. “Para nós, a luta pela justiça climática não é uma luta isolada. Trata-se de reconhecer a dívida ecológica histórica, compreender que muitas das soluções de mercado apresentadas hoje reproduzem formas de colonialismo verde e garantir que os povos permaneçam nos territórios, participando das decisões sobre o presente e o futuro.”

Juventudes no centro dos impactos climáticos

Representando a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Observatório de Ensino de Ciência e Tecnologia da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Jeferson Almeida Silva apresentou um informe sobre pesquisas desenvolvidas pela instituição voltadas às condições de vida das juventudes brasileiras.

Segundo ele, desde 2023 o observatório produz boletins epidemiológicos sobre temas como trabalho, violência, saúde ambiental e, mais recentemente, mudanças climáticas. A nova publicação, atualmente em fase final de sistematização, analisa os impactos dos eventos climáticos extremos sobre jovens de 15 a 29 anos em diferentes regiões do país.

O estudo reúne três casos: as enchentes no Rio Grande do Sul, as ondas de calor no Rio de Janeiro e as queimadas na Amazônia. De acordo com Silva, a pesquisa também considera recortes de raça e gênero para compreender de forma mais precisa como os efeitos da crise climática atingem diferentes grupos sociais. Embora os dados ainda não tenham sido divulgados oficialmente, devido aos procedimentos editoriais da Fiocruz, o pesquisador adiantou que os resultados apontam impactos significativos sobre as juventudes, especialmente no caso das enchentes que atingiram o RS.

Os três primeiros boletins já estão disponíveis para consulta no portal do Observatório de Ensino de Ciência e Tecnologia da Fiocruz, no endereço juventudect.epsjv.fiocruz.br. A nova publicação sobre juventudes e mudanças climáticas deverá ser divulgada nas próximas semanas.

Ao final da plenária, grupos de trabalho apresentaram diagnósticos, prioridades políticas, demandas de articulação e próximos passos para a agenda climática nos territórios.

Editado por: Marcelo Ferreira

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