Quando Guéla Doué, jogador da Costa do Marfim, chutou a bandeirinha de escanteio que trazia o símbolo da Federação Francesa de Futebol em Nantes (França), aos oito minutos do segundo tempo do amistoso contra os franceses, após um belo gol, ele criava o principal momento político do mundo do futebol no ambiente pré-Copa do Mundo.
O amistoso entre Costa do Marfim e França carregava uma peculiaridade. Em campo, Guéla enfrentava seu irmão, Désiré Doué, uma das principais apostas para o futuro do futebol francês.
Os irmãos Doué nasceram em Angers, na França, mas são filhos de marfinenses. Désiré quis jogar pela seleção francesa, enquanto Guéla optou por defender a Costa do Marfim, país de origem de seus pais.
“Desde pequeno, sonho em vestir essa camisa. É uma honra fazer parte de uma nação que acaba de ser coroada tricampeã africana. A camisa laranja representa o elefante, representa a pátria; é pura alegria estar aqui. Meu pai é marfinense, e é um grande orgulho poder representar esta camisa hoje”, declarou Guéla Doué quando anunciou sua escolha em defender a seleção marfinense no lugar da francesa.
A atitude de Guéla encontra eco em um movimento crescente na África, que ganhará contornos mais firmes na Copa do Mundo deste ano, disputada no México, Canadá e nos Estados Unidos. Jogadores nascidos na Europa, filhos de africanos, decidiram voltar às origens e defender o país de suas famílias.
Esse fenômeno se consolidou como uma das chaves fundamentais para o sucesso competitivo e a evolução do nível de competitividade das seleções do continente. Luis Fernando Filho, jornalista e fundador do projeto Ponta de Lança, que trata de política e futebol africano, explicou o êxodo dos jogadores à África.
“Existe um despertar de consciência da nova geração africana sobre a questão de pertencimento, mas também de honrar os pais. Estamos falando de pessoas que nasceram na França, mas, dentro de casa, têm a identidade africana preservada, pois os costumes se mantêm. Um exemplo é Guéla Doué, que fez o gol contra a França, que escolheu representar outro país por conta do pai dele, que é marfinense”, explicou Filho.
Os casos são diversos. Na Copa do Mundo 2026, a seleção do Congo terá como principal atacante Cédric Bakambu, que nasceu em Vitry-sur-Seine, na França. Um dos melhores laterais-direitos do mundo, Achraf Hakimi, nasceu na Espanha, mas escolheu se tornar o pilar de Marrocos em campo. O excelente e habilidoso meia Hakim Ziyech, nascido na Holanda, também defenderá a seleção marroquina, com a qual assombrou o mundo ao alcançar as semifinais na Copa do Mundo do Catar, em 2022.
Há outros exemplos marcantes dessa engrenagem de repatriação esportiva e cultural que desfilarão nesta Copa do Mundo. Nascidos na França, tem Nicolas Pépé (que joga pela Costa do Marfim), Ismaël Bennacer (Argélia), Kalidou Koulibaly (Senegal), Riyad Mahrez (Argélia) e Iliman Ndiaye (Senegal).
Já Nordin Amrabat nasceu na Holanda, mas jogará pela seleção marroquina. Brahim Díaz tem origem espanhola e é a grande aposta de futuro do Real Madrid, mas, neste campeonato, defenderá o Marrocos. Aaron Wan-Bissaka, lateral de elite que escolheu representar a RD Congo, nasceu, na verdade, na Inglaterra.

Sem romantização
A consolidação desse contingente de atletas de elite nas federações africanas não se deu ao acaso, tampouco se restringe a uma decisão puramente emocional de fim de carreira, como ocorria em décadas passadas, explica Luis Fernando Filho.
“Esse é um processo interessante e atual. Antes, tínhamos um contexto diferente: os jogadores nascidos na Europa decidiam representar as seleções africanas depois dos 30 anos, quando a carreira caminhava para o final, depois de não ter a oportunidade de jogar numa seleção europeia”, explica o jornalista.
O movimento também parte de quem contrata os jogadores. As confederações africanas deixaram de ser entidades passivas e foram aos países onde estão mantidas as ligas mais fortes da Europa para convencer talentos internacionais que têm origem africana a jogarem pelo outro continente.
“Nos últimos seis anos, tem havido um movimento mais organizado das federações africanas mapeando talentos que são filhos de marroquinos, senegaleses, nigerianos, enfim, filhos da diáspora. São pessoas de segunda ou terceira geração que nasceram na Europa, mas os pais ou avós nasceram na África”, conta Filho. “Não basta apenas uma seleção africana chegar e pedir para que joguem por amor; é preciso desromantizar essa ideia. Eles são profissionais e querem ter condições de trabalho e um plano de carreira. O jogador quer saber qual a participação dele no projeto”, contextualiza.
“Para Guéla Doué, que é um dos melhores laterais-direitos da França, ofereceram titularidade absoluta na seleção da Costa do Marfim. Muitos filhos de congoleses que nasceram na Bélgica estão na seleção, a mesma Bélgica que colonizou o Congo por muitos anos. A diáspora congolesa foi fundamental para a classificação do Congo na Copa do Mundo. Essa geração tem consciência política. Escolher uma seleção africana e não uma europeia é uma decisão política”, conclui Luis Fernando Filho.
