Infância perdida

‘Trabalho infantil mata e mutila’: especialista alerta para gravidade e naturalização do problema

Especialista afirma que, em 2024, mais de 4 mil crianças e adolescentes se envolveram em acidentes graves de trabalho

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Crianças vítimas de trabalho infantil
Crianças vítimas de trabalho infantil | Crédito: Ministério do Trabalho/Divulgação

Nesta sexta-feira (12), é o Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil, data criada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) para conscientizar a sociedade sobre os danos físicos, emocionais e sociais do trabalho infantil.

Segundo dados do Ministério do Trabalho, mais de 4,3 mil crianças e adolescentes foram retirados de situações de trabalho infantil em 2025. Dessas, 70% estavam envolvidas nas piores formas de trabalho infantil, categoria que reúne atividades que oferecem riscos à saúde, à segurança, à moralidade e ao desenvolvimento físico e psicológico.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Katerina Volcov, secretária executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, explica que um dos maiores desafios no combate a esse tipo de situação é a naturalização que a sociedade tem em relação ao trabalho infantil. “As pessoas acham que é melhor a criança estar trabalhando do que nas ruas. A rua, a gente tem que lembrar, é um espaço público em que qualquer cidadão e cidadã pode estar. É óbvio que as crianças precisam estar acompanhadas dos seus responsáveis, dos seus pais, das suas mães. Então, essa naturalização, essa banalização de que o trabalho infantil não mata ninguém é uma verdadeira falácia, porque a gente tem mais de 4 mil acidentes, apenas em 2024, muito graves, envolvendo crianças e adolescentes em situação de trabalho. Então, o trabalho infantil mata, sim, e muitas vezes mutila”, destaca.

Volcov defende que uma solução para o problema passa por encarar a questão de forma multidisciplinar e critica o fato de as políticas públicas não dialogarem entre si. “Ainda que a Constituição Federal e o próprio Estatuto [da Criança do do Adolescente] estabeleçam que crianças e adolescentes são prioridade, eles ainda não ocupam esse lugar nos orçamentos públicos, seja em nível federal, estadual, distrital ou municipal. A falta de recursos resulta em uma rede fragilizada, que envolve educação, assistência social, lazer, cultura e geração de renda, tanto para adolescentes em idade de trabalhar quanto, principalmente, para pais, mães e responsáveis. A pobreza é um dos principais fatores relacionados a essa realidade. No entanto, para enfrentá-la adequadamente, é necessário contar com uma rede articulada, fortalecida e dotada de recursos, com orçamento público destinado às respectivas políticas de proteção e promoção dos direitos de crianças e adolescentes”, argumenta.

Por conta da Copa do Mundo, neste ano, a campanha pela erradicação do trabalho infantil usou como símbolo o cartão vermelho. Katerina Volcov explica que a ideia das campanhas é trazer para perto o problema e sensibilizar de forma bastante popular, porque a exploração laboral de crianças e adolescentes está no dia a dia de todos nós, inclusive dentro de casa.

“O trabalho infantil doméstico é uma das piores formas, mais a produção, comércio e distribuição de drogas ilícitas, o chamado tráfico de drogas, que muitas vezes é visto apenas pela ótica punitivista. A gente tem de lembrar que aquele adolescente começou a sua trajetória muitas vezes trabalhando nas ruas, vendendo bala, pano de prato, sacola, produtos diversos nas ruas, nos semáforos, cidades grandes. É imensamente visível esse tipo de violação de direitos da infância e da adolescência”, diz. “Aí, o que acontece com esse adolescente? Ele só vai acessar os seus direitos quando cometer o ato infracional. Aí ele vai para uma medida socioeducativa”, lamenta.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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