De fato, a águia parece ter sido substituída pela serpente. Sim, o orgulhoso símbolo dos EUA, a águia, escolhida pelos Pais Fundadores em 1782 por representar a liberdade, a força e a soberania, cedeu lugar à serpente — insidiosa, prepotente, traidora, um ser que rasteja e cuja força bruta rivaliza com a abjeção que provoca. Efetivamente, a cobra rastejante só se ergue para destruir, envenenar, engolir os oponentes. E, segundo sua tradição mítica (respaldada pela zoologia, diga-se de passagem), com um poder de renovação extraordinário.
É o que sugere a canção cubana “Sueño con serpientes”, do disco “Días y Flores”, de 1975, composta em 1974 por Sílvio Rodriguez. Não por acaso, foi regravada em maio de 2026 em parceria com Chico Buarque, numa Cuba sufocada por uma crise econômica e humanitária imposta pelos Estados Unidos, que a tem arrastado a uma situação limite.
Sabemos que uma obra de arte suporta várias interpretações, e cada época histórica pode tomá-la para si e lê-la de uma maneira própria. Mas, neste caso e desde sempre, não há como não ver nessa canção uma alegoria da situação da ilha caribenha diante do vizinho de dimensões continentais, disposto a abocanhá-la. Efetivamente, ao longo das últimas décadas, cada vez mais verdadeiro se torna o refrão, que diz respeito à serpente: “Eu a mato e aparece uma maior”.
Sabemos que, desde a Revolução Cubana, em 1959, o embargo estadunidense passou a ser utilizado como instrumento de pressão econômica, com o objetivo de forçar mudanças políticas no país. As primeiras medidas econômicas foram adotadas pelos EUA em 1960, após o governo cubano nacionalizar empresas estadunidenses e estabelecer acordos comerciais com a União Soviética. Em 1962, após o fracasso da invasão da Baía dos Porcos e a declaração de Cuba como um Estado socialista, as sanções foram ampliadas. Em 1992, com o fim da União Soviética, principal parceira econômica de Cuba, os Estados Unidos — a Serpente ficando cada vez maior — reforçaram as ameaças aos demais países com proibições de negociar com a ilha, restringindo severamente a cooperação internacional com Cuba. A extraordinária resiliência dos cubanos, sustentada pelo orgulho de suas efetivas realizações, bem como a aposta nos ideais de uma pátria libertada e igualitária, sempre veio superando tudo isso; mas agora, com a inviabilização total do aporte de qualquer petróleo, e após o ataque dos EUA à aliada Venezuela, tudo somado às intimidações e à declaração da gestão Trump de que o governo cubano representa uma ameaça à segurança nacional dos EUA, a situação tornou-se insustentável. Abocanhada na jugular, Cuba está posta a sangrar, pondo em risco as enormes conquistas da Revolução e o êxito na construção de um país socialista em modo latino-americano.
Há críticas à governança de Cuba? Sim, há críticas; mas resta ver o quão positivo é o saldo das conquistas humanizadoras para o povo no seu conjunto, confrontado com o que possa haver de negativo, sobretudo no que se refere à dureza com que são tratadas as ações contrarrevolucionárias, que poderiam pôr tudo a perder.
É só comparar Cuba atual com a Cuba anterior, da ditadura de Fulgêncio Batista.
Essa sociedade, que não obedece à lógica de acumulação do capital, que acabou com a miséria, instaurando uma possível igualdade de classes, que conseguiu acabar com a fome, que atingiu a meta de alfabetizar toda a sua população, que fez a Reforma Agrária, que atingiu patamares de excelência em Saúde e em Educação — para se falar só no essencial — vivencia o bloqueio econômico mais duradouro da História, com consequências que afetam a infraestrutura básica e a vida da população: escassez de alimentos, de medicamentos, de combustíveis, de energia. Alastram-se os apagões, os racionamentos, a superlotação de hospitais (que não podem garantir nem incubadoras aos bebês prematuros), a falta de transporte e de gestão do lixo, a falta de tudo; e cresce a exaustão da população. O bloqueio estadunidense produz mortes: a fome e a privação de insumos vitais estão sendo usadas como arma de guerra (uma guerra ainda não formalmente declarada).
Mas vamos à letra da canção, de onde partimos:
Poema de Bertolt Brecht
Hay hombres que luchan un día
Há homens que lutam um dia
Y son buenos
E são bons
Hay otros que luchan un año
Há outros que lutam um ano
Y son mejores
E são melhores
Hay quienes luchan muchos años
Há aqueles que lutam muitos anos
Y son muy buenos
E são muito bons
Pero hay los que luchan toda la vida
Mas há os que lutam toda a vida
Esos son los imprescindibles
Estes são os imprescindíveis
Sueño con Serpientes (Silvio Rodríguez)
Sueño con serpientes
Sonho com serpentes
Con serpientes de mar
Com serpentes de mar
Con cierto mar, ay, de serpientes, sueño yo
Com certo mar, ai, de serpentes, sonho eu
Largas, transparentes
Grandes, transparentes
Y en sus barrigas llevan lo que puedan arrebatarle al amor
E em suas barrigas levam o que podem roubar do amor
La mato y aparece una mayor
Eu a mato e aparece uma maior
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Con mucho más infierno en digestión
Com muito mais inferno em digestão
No quepo en su boca
Não caibo em sua boca
Me trata de tragar
Trata de me tragar
Pero se atora con un trébol de mi sien
Mas se engasga com um trevo da minha têmpora
Creo que está loca
Creio que está louca
Le doy de masticar una paloma
Dou-lhe para mastigar uma pomba
Y la enveneno de mi bien
E a enveneno com o bem
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
La mato y aparece una mayor
Eu a mato e aparece uma maior
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Con mucho más infierno en digestión
Com muito mais inferno em digestão
Esta al fin me engulle
Esta por fim me engole
Y mientras por su esófago paseo
E enquanto passeio por seu esôfago
Voy pensando en qué vendrá
Vou pensando no que virá
Pero se destruye cuando llego a su estómago
Mas ela se destrói quando chego ao seu estômago
Y planteo, con un verso, una verdad
E implanto, com um verso, uma verdade
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
La mato y aparece una mayor
Eu a mato e aparece uma maior
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Con mucho más infierno en digestión
Com muito mais inferno em digestão
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
La mato y aparece una mayor
Eu a mato e aparece uma maior
A conhecida citação de Brecht, que abre a canção reverenciando aqueles que lutam “toda a vida”, já nos encaminharia para uma leitura sociopolítica do sonho. Mas, na realidade, Brecht nem seria necessário aqui: a mera contextualização da canção em ambiente caribenho e as notícias de jornais a cada dia já apontam o referente histórico dessa alegoria.
É verdade que a situação de Cuba é desesperadora; no entanto, a canção, que não escamoteia a gravidade, deixa espaço para a esperança e a utopia. Pois, após caracterizar essas serpentes como seres que “em suas barrigas levam / o que podem roubar do amor/ … / com muito mais inferno em digestão”, a canção alude a uma espécie de luta de Davi e Golias, com armas tão absolutamente desiguais, de natureza tão outra que, paradoxalmente, a “arma” fraca se torna eficaz: “Não caibo em sua boca / ela trata de me tragar / mas se engasga com um trevo da minha têmpora”.
Opõe-se à força bruta a força da poesia. A imagem do trevo na fronte do eu lírico, renovando a figuração clássica da coroa de louros na cabeça do poeta — esse trevo que “obstaculiza” a deglutição pelo monstro — ao mesmo tempo desconcerta e toca fundo a realidade. E a essa imagem que surpreende pela delicadeza somam-se duas outras: a pomba que o eu lírico dá à serpente para mastigar, envenenando-a com algo do bem; e a terceira, de uma força poderosa, que, remetendo à Verdade, convoca a Poesia: “Mas ela se destrói / Quando chego ao seu estômago / E implanto, com um verso, uma verdade”.
Por que um trevo? Trata-se de uma planta (cujo nome latino, trifolium, significa 3 três folhas) de simbologia mítica e mística, reverenciada pelos antigos celtas por seus aspectos mágicos. Os druidas usavam o trevo (especialmente o tradicional de três folhas) como um amuleto vivo, baseados na dimensão sagrada do número três. Mas, mesmo fora do mundo celta, remetendo ao prestígio do três na Matemática (a Geometria Pitagórica), na Filosofia (a Dialética hegeliana) e na Teologia (a Trindade cristã), o trevo é considerado uma planta poderosa por ter sua estrutura baseada numa tríade (três folhas unidas em uma só haste).
Voltemos à trama da canção. De fato, reitero, há um clima que remete ao enfrentamento de Davi e Golias, levando a crer que a disparidade de poder e de força bruta nem sempre significa a vitória do mais forte: há outros fatores em jogo. Nessa linha, uma observação de caráter histórico, dizendo respeito ao fato de que Cuba costuma prestar apoio a movimentos de independência de outros países, torna-se significativa. É assim que, por exemplo, além de participar do treinamento das forças guerrilheiras do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), comandadas por Agostinho Neto, Cuba enviou ao país africano mais de trinta mil combatentes, entre soldados, médicos, professores e… músicos. E músicos, repita-se. E não por acaso Sílvio Rodriguez alistou-se em 1976 para lutar junto aos internacionalistas cubanos nessa guerra de libertação de Angola. De fato, o envio de artistas como parte das brigadas culturais consiste numa faceta importante do internacionalismo cubano. Com que armas lutam os músicos, numa Brigada Artística? Com o trevo da têmpora?
A canção “Sueño com serpientes” não escamoteia o perigo, imenso, mas não pressupõe uma derrocada: a luta do povo cubano, conhecido por sua extraordinária resiliência, não é uma luta perdida, porque estribada na fé nos ideais da Revolução — uma alavanca poderosa. Não se trata de uma esperança passiva, mas de uma atitude militante: nas vísceras do monstro, um verso portador de verdade tem potencial de destruí-lo por dentro.
A declaração de que Cuba representa uma “ameaça à segurança nacional”, por parte do rubicundo Secretário de Estado dos EUA, somada às acusações de que autoridades cubanas estariam envolvidas em crimes contra os estadunidenses, além de terrorismo, só faz escalar a tensão. Nada disso é novo: Cuba sempre esteve submetida à pressão estadunidense, sempre contracenando com a serpente.
Nesse contexto, a regravação de “Sueño con serpientes”, por Chico Buarque ao lado de Silvio Rodríguez, torna-se um poderoso manifesto político (e artístico!) em defesa do povo cubano diante da mais grave crise enfrentada pela ilha.
*Adélia Bezerra de Meneses, professora e ensaísta, é autora de “Chico Buarque ou a Poesia Resistente (Ensaios sobre as letras de canções recentes)”, Ateliê Editorial, 2024.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
