Nesta segunda-feira (15), a recifense Anastácia ocupou um palco diferente daqueles nos quais se habituou a subir para emocionar multidões com sua voz, levando ao mundo o pioneirismo nas composições com eu lírico feminino que lhe deram a chancela de “rainha de forró”. Aos 86 anos, recebeu um novo título: Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em reconhecimento às suas mais de 800 composições que marcam os caminhos do forró, passando também por sua dedicação à difusão e preservação da música nordestina.
“Acredito que é um reconhecimento pelos 70 anos desde que me foi dada a oportunidade de vestir a camisa da música regional nordestina, algo que abracei muito jovem e com muita força. Estou aqui, aos 86, sendo convidada para fazer shows e mostrar o que sei fazer de melhor, então me parece um reconhecimento sincero por toda essa carreira e que me deixa muito feliz”, declara Anastácia, em conversa exclusiva com o Brasil de Fato. A forrozeira também é homenageada pelo São João de Caruaru deste ano, festa na qual é impossível passar sem ouvir alguma de suas emblemáticas criações.
Anastácia começou sua carreira ainda muito jovem, na década de 1950, com apenas 13 anos de idade, quando passou a integrar o elenco de artistas da Rádio Jornal do Commercio, um dos grandes celeiros da música pernambucana no século passado. Nos anos 1960, chegou a São Paulo e construiu seu caminho como uma das grandes vozes do forró. Na mesma década, acompanhando Luiz Gonzaga em turnê, aproximou-se do sanfoneiro Dominguinhos, com quem teria um relacionamento por 12 anos. A parceria criativa gerou cerca de 250 composições como “Eu Só Quero um Xodó” e “Tenho Sede”, que seguem cantadas por artistas de diferentes estilos e gerações.
De lá para cá foram mais de 800 composições, colocando Anastácia como uma das mulheres pioneiras no ofício dentro do forró. “Quando eu comecei eram poucas mulheres fazendo o que eu faço. A gente contava nos dedos. Agora fico feliz em ver muitas outras jovens fazendo suas composições e trazendo seus olhares sobre esse mistério maravilhoso que é ser mulher e participar da vida”, afirma Anastácia. Os versos de Anastácia já foram cantados por nomes que passam por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Amelinha, Gal Costa, Gilberto Gil, Chico César, Rita Lee, Alcione e tantos outros do primeiro panteão da música brasileira.
Hoje, Anastácia celebra os espaços que vem testemunhando serem ocupados pelo forró e pela música nordestina no cenário nacional. Uma das certezas que sua longa trajetória lhe garantiu é a de que o nordestino é um povo intelectualmente e criativamente privilegiado, orgulhando-se de ser uma parte importante dessa história. “Eu me vejo como uma resistência do forró, a única ainda com vida da minha geração e, graças a Deus, ainda com saúde para fazer o que gosto e sei. Eu não tenho mais nada a provar. As pessoas é que precisam estudar o que fiz e me dar uma nota. Acho que mereço um dois ou três”, brinca Anastácia, entre risos.
Do palco acadêmico, Anastácia seguirá logo para os palcos do forró. No Recife, ela fará parte do show de abertura oficial do São João, nesta quinta-feira (18), no Sítio da Trindade, cantando ao lado da Banda Sinfônica do Recife e da potiguar Juliana Linhares, com quem a Rainha fez uma parceria artística em seu último álbum. No dia 20 de junho, Anastácia retorna ao Sítio para seu show individual. “Eu levanto de manhã com vontade de cantar e fazer música, durmo pensando em fazer tudo de novo. Hoje eu não tenho nenhuma frustração. Tudo o que queria fazer nessa vida, eu fiz. Agora eu tenho mais é que ser feliz e apreciar esses momentos”, conclui Anastácia.
