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Copa do Mundo: como histórias de colonização e tortura unem França, Senegal, Argentina e Argélia

Modelo francês de perseguição a colônias africanas insurgentes foi exportado para os militares na ditadura argentina

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França se prepara para enfrentar o Senegal nesta terça-feira (16)
França se prepara para enfrentar o Senegal nesta terça-feira (16) | Crédito: FRANCK FIFE / AFP

Os jogos da Copa do Mundo nesta terça-feira (16) reúnem países com disputas que vão muito além das quatro linhas. França e Senegal se enfrentam às 16h e Argentina encara a Argélia às 22h.

Coordenador de jornalismo do Brasil de Fato, Lucas Estanislau lembra que o embate entre Argentina e Argélia marcará a estreia de Lionel Messi no mundial. Mas as conexões históricas entre os países remontam aos anos 1950 e envolvem a violência colonial.

“Em 1954, quando a Argélia ainda não era um país independente, o povo argelino lutava contra a dominação francesa”, recorda. “Naquele ano, vários movimentos independentistas se unificaram na chamada FLN, a Frente de Libertação Nacional, para empreender uma luta armada de todo um povo. Isso implicava em táticas insurgentes de guerra revolucionária e contava com a atuação do Kasbah de Argel, um grande bairro popular, que derrubou a dominação francesa. Como funcionava isso? Não apenas os guerrilheiros iam para a luta armada contra o Exército francês, mas também a população local, que acobertava os guerrilheiros. O Exército da FLN foi muito vitorioso durante anos”, conta.

Após essa disputa, os franceses criaram técnicas para conter movimentos rebeldes, que incluíam perseguição, invasão de domicílios e tortura, e exportaram esse modelo de repressão para diversos países, inclusive a Argentina. “Quando o peronismo ficou proibido na Argentina, após o golpe, militantes peronistas foram perseguidos e ali, naquele momento, a presença de militares franceses se deu de forma muito intensa para ensinarem os argentinos essas táticas”, relembra.

“Os povos argelino e argentino guardam, de certa forma, um passado de luta contra a repressão francesa e a repressão argentina e toda uma luta pelos direitos humanos e pela memória e justiça. Inclusive, há documentos que provam que o Exército dos EUA ficava até com inveja das táticas militares de perseguição e tortura contra movimentos insurgentes”, destaca. “A França fez escola e exportou modelo de perseguição a militantes, processos de tortura e desaparecimentos forçados.”

Assim como a Argélia, o Senegal foi colônia francesa. Lucas conta que a independência dos dois países está conectada. “Mesmo com todo o aparato de repressão, a França não estava conseguindo derrotar a FLN, porque era a luta de todo um povo contra a dominação”, conta. Senegal acabou então sendo inspirado pela luta argelina e, em 1960, consegue iniciar seu processo de libertação.

“Acho que não tem como [essas questões políticas] não entrarem em campo. O sentimento de pátria, nacionalidade está muito arraigado em cada um de nós. Tanto nesse passado africano, como no nosso latino-americano, tem a história de ter sido colônia europeia; esse sentimento de identidade fica arraigado e acho que entra em campo, sim”, avalia Lucas Estanislau.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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