Sem prazo para sair do papel, a proteção definitiva contra cheias nos bairros Guarujá e Serraria, na zona sul de Porto Alegre, ainda está em fase de estudo. Em reunião realizada nesta terça-feira (16), no Centro Administrativo Municipal, a prefeitura apresentou a moradores e lideranças comunitárias três alternativas para tentar proteger a região: a construção de um muro, a elevação da avenida Guaíba ou a elevação do parque Zeno Simon, que passaria a funcionar como dique.
Enquanto a obra permanente não avança para projeto executivo, licenciamento, contratação e execução, a gestão Sebastião Melo (MDB) prometeu uma solução emergencial para o bairro: barreiras móveis, big bags e bombas flutuantes, capazes de formar um dique provisório em caso de elevação do Guaíba. O plano, no entanto, também foi apresentado como temporário e dependente de operação rápida diante de uma nova cheia.
A reunião ocorreu em meio à apreensão de moradores do Guarujá e da Serraria, que relataram conviver há anos com alagamentos e inundações mesmo sem eventos extremos como a enchente de maio de 2024. Nas intervenções, lideranças cobraram respostas sobre quando a obra definitiva será realizada e demonstraram preocupação com a formação do El Niño, que pode aumentar o risco de chuva intensa no Sul do Brasil nos próximos meses.
A prefeitura, porém, não apresentou calendário para a obra permanente. Ao final do encontro, Melo afirmou que a região está “dentro do contexto” da gestão, mas reconheceu que não há execução imediata. “Não sonhem com obra para depois de amanhã”, disse. Segundo o prefeito, a administração tentará “botar a obra em pé”, mas a proteção de curto prazo será o sistema provisório.
Primeiro recorte da zona sul
Na abertura da reunião, Melo afirmou que o estudo contratado pela prefeitura analisa o sistema de proteção a partir da Vila dos Papeleiros até o Lami. O recorte apresentado, no entanto, concentrou-se em Guarujá e Serraria. Segundo o prefeito, “não dá para falar em proteção de cheias do Guarujá sem falar da Serraria”.
A justificativa técnica foi detalhada pelo diretor-presidente do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Vicente Perrone. De acordo com ele, Guarujá e Serraria foram priorizados por reunirem três fatores: baixa cota em relação ao Guaíba, maior número de residências potencialmente atingidas e maior viabilidade técnica para implantação de uma barreira física.
“Por essas variáveis de quantidade de famílias impactadas, pela cota do rio e pela facilidade da viabilidade do projeto, a gente escolheu Guarujá e Serraria”, afirmou Perrone. Segundo ele, a topografia obriga a pensar os dois bairros de forma integrada, já que a água pode retornar pela Serraria e atingir o Guarujá por trás. A solução, no entanto, também envolve um desafio social: parte da área indicada para fechamento do sistema reúne moradias e estruturas que ainda precisarão ser cadastradas e avaliadas pela prefeitura, com possível necessidade de desapropriações, indenizações ou reassentamento de famílias.
O diretor do Dmae comparou a situação à de outras áreas da cidade. Segundo ele, bairros como Lami, Assunção e Ipanema também são vulneráveis, mas apresentam desafios técnicos diferentes, seja pelo menor número de famílias diretamente impactadas, seja pela dificuldade de inserir uma barreira física sem alterar de forma profunda a relação da população com a orla.
Três alternativas em estudo
A primeira opção apresentada foi a construção de um muro, semelhante ao modelo do Centro Histórico. Segundo Perrone, a vantagem seria ocupar menos área e exigir uma elevação menor, já que o concreto permite uma estrutura mais estreita do que um dique de argila compactada. O muro teria cerca de 2,5 metros de altura.
O próprio diretor, no entanto, apontou desvantagens. A principal seria a barreira visual e física entre a população e o Guaíba. A estrutura também exigiria comportas nos pontos de acesso, consideradas áreas de fragilidade por demandarem operação e manutenção permanente.
A segunda alternativa seria elevar a avenida Guaíba. Nesse caso, a própria via funcionaria como barreira de proteção. A opção, porém, foi descrita como a mais difícil de viabilizar. Perrone citou a necessidade provável de desapropriações ao longo de 1,5 quilômetro, com impacto sobre residências próximas à avenida.
A terceira alternativa é elevar o parque Zeno Simon, espaço de lazer já existente no Guarujá, para que ele funcione como dique de proteção contra cheias. Nesse modelo, a avenida Guaíba seguiria praticamente como está, enquanto o parque ganharia uma cota mais alta, em torno de 3 metros, com a tentativa de preservar o acesso da população ao Guaíba.
Segundo Perrone, esse é o caminho que “tudo indica” ser o mais provável neste momento. A proposta buscaria manter a relação visual com o rio e permitir o uso recreativo da área, ao contrário de uma barreira mais dura, como um muro.
Apesar de apresentada como mais viável, a alternativa também tem problemas. O diretor do Dmae citou maior área de intervenção, execução mais complexa, necessidade de licenciamento ambiental, supressão e compensação vegetal, além da possível construção de uma casa de bombas de grande porte.
“A gente ainda não fez esse nível de estudo de qual a largura dele. A gente está ainda em fase de anteprojeto”, afirmou Perrone. Segundo ele, o projeto de drenagem do bairro é tão importante quanto o sistema de proteção, porque a barreira contra o Guaíba também impede que a água da chuva escoe naturalmente para o rio quando o nível está alto.
Conforme a prefeitura, em todos os cenários as obras devem demandar acolhimento de famílias, desapropriações e pagamento de indenizações. A próxima etapa dos estudos será confirmar a viabilidade técnica das intervenções e elaborar os orçamentos.

Sistema depende de drenagem e financiamento
A proteção definitiva ainda depende de etapas técnicas e financeiras. Perrone explicou que obras desse porte passam primeiro por estudo de concepção, depois por anteprojeto, projeto executivo, licenciamento e contratação. Segundo ele, o estudo de drenagem do bairro ainda deve começar nos próximos meses.
“A gente está bastante evoluído na questão do anteprojeto do sistema de proteção e estamos em vias de fechar o valor do estudo de drenagem do bairro. Então, nos próximos um, dois meses, a gente já deve ter o início do estudo de drenagem”, disse.
O valor estimado da obra também segue em aberto. Melo afirmou que a intervenção para Guarujá e Serraria é estimada em cerca de R$ 300 milhões. Perrone disse que a prefeitura já pediu recursos ao governo do estado e ao governo federal e que negocia financiamento com o Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB), banco asiático de infraestrutura.
Dique provisório em até 48 horas
Diante da cobrança por medidas antes da obra definitiva, a prefeitura apresentou o plano emergencial. Alex Sander Zanoteli Martins, diretor de Proteção Contra Cheias e Drenagem Urbana do Dmae, afirmou que o município está adquirindo barreiras móveis e bombas flutuantes para diferentes regiões da cidade, incluindo o Guarujá.
Segundo Zanoteli, o plano de ação prevê a instalação de barreiras móveis ao longo de cerca de 1,3 mil metros no bairro. A estrutura poderia chegar a 1,5 quilômetro de extensão, com 2 metros de altura, e ser montada em até 48 horas.
“A gente já tem contabilizada a quantidade de material, quantidade de barreiras móveis, quantidade de pessoal, quantidade de equipamentos necessários”, disse. “A gente consegue montar uma barreira dessas de 1,5 km por 2 metros de altura em 48 horas ali no bairro.”
O plano prevê também o bloqueio de dois canais e o uso de bombas para lançar a água por cima da barreira. Zanoteli afirmou que o Dmae está comprando cerca de R$ 30 milhões em bombas flutuantes para diferentes áreas da cidade.
“Com isso aqui, a gente consegue atuar ali de forma emergencial. Em 48 horas, a gente protege o bairro”, afirmou. Depois da baixa do nível do rio, as barreiras seriam retiradas e guardadas.
Cheias mais prováveis com a crise climática
O professor Carlos Tucci, da empresa Rhama, contratada pela prefeitura para os estudos, contextualizou a vulnerabilidade histórica de Porto Alegre. Segundo ele, a cidade tem dados de cota de inundação desde 1899 e registrou, em 125 anos, duas cheias da magnitude de 1941 e 2024. Outras seis chegaram perto ou ultrapassaram um pouco o cais.
Tucci afirmou que Porto Alegre deixou de modernizar e manter o sistema de proteção ao longo das décadas, em parte porque a cidade passou muito tempo sem eventos de grande porte. Para ele, a lição da enchente de 2024 é que a Capital não pode repetir o abandono do planejamento de longo prazo.
O especialista também afirmou que a crise climática altera as estatísticas usadas historicamente para dimensionar obras. Segundo ele, os estudos incorporaram projeções de aumento de chuva de até 30% até 2100. Com isso, uma cheia como a de 2024, hoje estimada como evento com probabilidade superior a uma vez em 200 anos, pode passar a ter probabilidade de uma vez em 100 anos no fim do século.
“Ou seja, vai aumentar o risco com o tempo”, afirmou. Tucci ponderou que isso não significa que uma enchente da mesma magnitude vá se repetir nos próximos anos, mas reforçou que eventos extremos podem ocorrer em sequência ou demorar décadas para voltar.
Moradores cobram respostas concretas
A reunião terminou sem definição de prazo para a obra, mas com promessa de continuidade do debate. Melo afirmou que novas reuniões poderão ser feitas com grupos mais ampliados e que a prefeitura levará as informações apresentadas pelos moradores de volta à sala de gestão.
Durante o encontro, moradores e lideranças comunitárias cobraram respostas concretas sobre quando a proteção definitiva sairá do papel. Ao mesmo tempo, a promessa de um sistema emergencial com barreiras móveis e bombas foi bem recebida por parte dos presentes, diante do temor de novas cheias associadas ao El Niño.
