Próximo ao curso de água que banha o centro histórico da Cidade de Goiás, antiga capital goiana, o Cine Teatro São Joaquim abriu as portas na noite da terça-feira, 16 de junho, para o início da 27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica). O espaço histórico, que já chegou a ficar 10 anos sem equipamento próprio de cinema, exibirá parte das mais de 30 produções audiovisuais, nacionais e internacionais, previstas até o final do Festival, no dia 21 de junho.
As atividades previstas para esse ano têm como horizonte a ligação entre os recursos hídricos e a sociobiodiversidade, o que determinou o tema da edição como Água e Clima no Brasil das Nascentes. Com a narrativa focada na capacidade de reservas aquíferas do Cerrado, sobretudo goiano, a abertura da cerimônia contou a primeira exibição nacional do curta-metragem A Curva do Rio, do diretor Kassio Pires. Outras pessoas-artistas, produtoras e autoridades federais, estaduais e municipais também passaram pelo palco do Cine Teatro para celebrar a edição deste ano.
Conduzidos pela trajetória do Rio Paranaíba e a memória de Anair, avó de 60 anos do diretor, a estreia do curta no Fica provocou o debate sobre identidade, registro, ancestralidade e pertencimento. De acordo com Kassio Pires, a ideia é dialogar sobre jovens que saem de áreas do interior do país e se sentem de, de alguma forma, desterritorializados com as novas vivências pelo mundo. “O filme busca estabelecer um diálogo sobre identidade e sobre esse lugar caipira que muitas vezes tentamos abandonar”, contou o diretor goiano, lembrando de sua relação de negação com o “ser do interior” na adolescência.
Caminhos da ancestralidade foram fortalecidos com a presença do artista visual e idealizador do ateliê Sertão Negro, Dalton Paula, que recebeu reconhecimento da organização do Festival pela trajetória em pesquisas ligadas a representatividade preta. O artista também assina a obra São Cosme, São Damião e Santa Luzia, vinculada ao cartaz de divulgação deste ano. “A perspectiva é que trabalhos como esse, dessa natureza, possa deixar alguma coisa importante para as futuras gerações. Bom, alguma contribuição para a história da arte e caminhos abertos para essa história de luta preta”, agradeceu Dalton.
Seguindo com a cerimônia, instituições vinculadas a realização do Fica 2026 se reuniram para celebrar a importância do Festival. Durante o momento estiveram presentes representantes do Governo de Goiás, Universidade Federal de Goiás (UFG), Fundação RTVE, Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Saneago. Além da participação do Prefeito de Goiás, Aderson Gouvea (PT), que durante sua fala sobre a preservação do Cerrado citou o setor do agronegócio como “importante para o desenvolvimento da região”, não podendo ser esquecido durante o momento de celebração.
A fala surge no mesmo momento em que povos camponeses e comunidades tradicionais se reuniram na cidade de Goiânia, capital do estado, para denunciar os conflitos e violências sofridas pelo agro-hidro-mineronegócio. Em dados recentes divulgados pela Comissão Pastoral da Terra – regional Goiás, as disputas ligadas a violência fundiária compuseram, no ano passado, mais de 70% do registro de conflitos no estado; fazendeiros ligados ao setor aparecem como os maiores responsáveis pela violação de direitos desses povos.
Em conversa com o Brasil de Fato DF, um grupo de pessoas que assistiam à cerimônia disseram achar “muito contraditório a fala para um festival como o Fica”, além de provocarem também sobre a inexistência de representações de comunidades durante a cerimônia de abertura do festival, que conta com uma mostra dedicada a produções de Indígena e Povos Tradicionais.

Manifestação denuncia fechamento de cursos de cinema
Pouco antes da abertura do Festival, um grupo de estudantes realizou uma manifestação na porta do Cine Teatro São Joaquim contra a suspensão dos cursos de Cinema e Artes Visuais, ofertados pelo Instituto Federal de Goiás em Cidade de Goiás. De acordo com os manifestantes, a medida impacta a cidade que historicamente sedia as edições do Fica.
“Desde 2015, viemos ocupando a programação do Fica. A retirada dos cursos de artes de Goiás, enfraquece um ecossistema de produção cultural que existe aqui na cidade”, explicou o produtor audiovisual goiano Rafael Freire.
Em posicionamento oficial enviado à reportagem, a Direção-Geral do Campus disse que a decisão não significa o fechamento imediato dos cursos ou o cancelamento de matrículas, garantindo aos alunos atuais o direito de concluírem suas formações. Ainda, de acordo com a direção, a intenção é abrir uma etapa de reavaliação qualificada da oferta, baseada em indicadores educacionais da instituição, como índices de permanência, evasão, demanda social e sustentabilidade.
A comunidade acadêmica e externa temem os reflexos da decisão, argumentando que, ao longo de mais de uma década, esses cursos formam profissionais essenciais para a economia criativa local e nacional. “Levantamentos do setor apontam que projetos ligados a egressos e professores já captaram mais de R$ 3 mi em editais públicos de cultura, além de produzirem dezenas de obras exibidas em diversos festivais”, explicou Freire.
Próximos dias
A Secretaria de Estado de Cultura de Goiás (Secult), que participa da organização do Festival, prevê que cerca de 20 mil pessoas passem pela cidade de Goiás até domingo (21). Com a abertura, a partir desta quarta-feira (17), as 38 produções audiovisuais de sete países já se encontram disponíveis na Mostra Competitiva, que conta com exibição no Cine Teatro São Joaquim. A programação está prevista para às 9h30 e tem a última sessão às 19h.
Neste ano, os filmes internacionais vêm do Canadá, Polônia, Áustria, Irã, Colômbia e Bélgica. Dentre as 31 produções nacionais, Goiás lidera como o estado de maior participação e apresenta 19 obras. Os curtas, médias e longa-metragens concorrem em quatro mostras competitivas: Mostra Internacional Washington Novaes, Mostra Cinema Indígena e Povos Tradicionais, Mostra Cinema Goiano e Mostra Becos da Minha Terra.
Em geral, a curadoria buscou abordar temas como deslocamentos populacionais, mineração, disputas territoriais, degradação ambiental e os impactos das mudanças climáticas. Além de acompanhar as sessões, o público também pode votar no Prêmio Luiz Gonzaga Soares, concedido pelo Júri Popular da Mostra Internacional Washington Novaes. Ao final de cada sessão, é possível entrar no site oficial do Fica e realizar a avaliação das obras exibidas; o reconhecimento conta com premiação de R$ 10 mil.
Para além da categoria competitiva, as pautas desaguam em mostras paralelas de cinema, além de painéis, fóruns, atividades formativas e o encontro de povos e comunidades que se inicia nesta quarta com a 8ª edição da Tenda Multiétnica, na Praça do Chafariz. A programação completa, e o catálogo de produções, do Fica 2026 pode ser conferida na íntegra por meio do site oficial do festival.

