A Câmara de Vereadores de Candiota transformou-se, na tarde de 12 de junho, em um grande encontro de memória, afeto e compromisso político. Proposta pelo vereador Axel Costa e referendada por todos os vereadores, a sessão especial em homenagem a Frei Sérgio Görgen reuniu lideranças populares, representantes de movimentos sociais, autoridades públicas, agricultores, educadores, religiosos, artistas populares, empresários e moradores da região para recordar a trajetória do franciscano que dedicou sua vida à luta pela reforma agrária, pela agricultura familiar camponesa, pela justiça social e pela dignidade humana.
Ao longo de mais de três horas de atividade, os depoimentos revelaram diferentes dimensões da atuação de Frei Sérgio: o religioso comprometido com os pobres, o organizador popular, o intelectual, o articulador político, o educador, o companheiro de caminhada e o amigo que sabia ouvir, acolher e aconselhar. Mais do que recordar o passado, os participantes reafirmaram a responsabilidade coletiva de dar continuidade às lutas que marcaram sua trajetória.
Uma região transformada
Autor da homenagem, o vereador Axel Costa afirmou que a história recente da Campanha gaúcha não pode ser compreendida sem a presença de Frei Sérgio. Segundo ele, existe uma região antes e outra depois da chegada do franciscano. Destacou especialmente a capacidade do religioso de organizar a juventude, incentivar o protagonismo popular e construir pontes entre pessoas de diferentes espectros políticos e sociais. Para o parlamentar, Frei Sérgio ensinou que as divergências não devem impedir a construção do bem comum.

Em um dos momentos mais emocionantes da sessão, Axel relatou que sua própria trajetória política foi profundamente influenciada pelo frei. “Eu fui uma pessoa antes de conhecer o Frei Sérgio e sou outra pessoa depois”, resumiu. O vereador também recordou o papel desempenhado pelo religioso nas conquistas da agricultura familiar, como a criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), fruto das históricas mobilizações lideradas pelo movimento camponês. Para ele, a maior lição deixada por Frei Sérgio foi a capacidade de olhar a dor do outro e agir para transformá-la.
A convivência de 31 anos
Coube a Frei Wilson Zanatta, coordenador do Instituto Cultural Padre Josimo, oferecer um dos depoimentos mais íntimos da noite. Companheiro de missão durante mais de três décadas, Zanatta recordou a decisão das duas fraternidades franciscanas – franciscanos e capuchinhos – de abandonar a distância entre Igreja e povo para viver diretamente nos assentamentos rurais. Foi assim que, em 1995, quatro frades passaram a morar em Encruzilhada do Sul, compartilhando o cotidiano das famílias assentadas.
As histórias narradas por Zanatta revelaram aspectos pouco conhecidos da personalidade de Frei Sérgio. Ele lembrou, por exemplo, o dia em que o companheiro decidiu rifar a única televisão da casa para ajudar uma criança doente. Recordou também a simplicidade extrema com que viviam e o compromisso permanente com as famílias camponesas.
Segundo Zanatta, a atuação de Frei Sérgio não se limitava à defesa dos agricultores. Ela passava pela convivência, pela construção coletiva e pela disposição de aprender junto ao povo. Foi nesse contexto que surgiu o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), cuja trajetória se confunde com a história do religioso, que já havia atuado décadas antes na criação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
A força que permanece no MPA
Representando a direção nacional do MPA, Adilson Schu afirmou que a ausência de Frei Sérgio ainda produz um profundo sentimento de vazio dentro da organização. Segundo ele, o movimento continua sentindo falta da capacidade de elaboração política, da inteligência estratégica e da presença humana do dirigente franciscano. Mesmo assim, os momentos de homenagem ajudam a transformar a dor em força e compromisso.

Schu lembrou que a contribuição de Frei Sérgio ultrapassou os limites do MPA. Sua atuação influenciou diversos movimentos populares, organizações sociais e políticas públicas em todo o país. “Tem muita coisa para nós manter, tem muitas conquistas para nós alcançar”, afirmou, defendendo a continuidade das lutas camponesas inspiradas pelo legado do religioso.
O legado para os agricultores
Outro depoimento marcante foi o de Emerson Capelesso, presidente da Cooptil, cooperativa que congrega assentados da reforma agrária e pequenos agricultores familiares na região. Ao recordar mais de duas décadas de convivência com Frei Sérgio, ele destacou a dimensão concreta das conquistas obtidas graças à atuação do religioso.
Entre elas estão a consolidação dos assentamentos da região, a luta pela reforma agrária, a criação de programas de apoio e financiamento, bem como a defesa da aposentadoria rural. Para Capelesso, muitas dessas conquistas se tornaram tão presentes no cotidiano das famílias que as novas gerações já não conseguem imaginar o esforço necessário para torná-las realidade.
Ele ressaltou que a principal herança deixada por Frei Sérgio é a disposição para a doação pessoal em favor do bem comum. “Nós não vamos substituir ele, mas podemos fazer um pouquinho mais”, afirmou.
Fé, política e humanidade
O professor Alessandro Bicca, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), trouxe à tribuna um testemunho profundamente pessoal. Ele contou que foi através de Frei Sérgio que recuperou sua fé cristã e encontrou um caminho para unir espiritualidade e compromisso social. Bicca relatou uma experiência vivida após os acontecimentos de 8 de janeiro, quando procurou o frei para lidar com sua indignação diante da realidade política do país. Segundo ele, foi a serenidade do religioso que o ajudou a reencontrar equilíbrio e esperança.

Além da dimensão espiritual, o educador destacou a parceria construída entre universidades e movimentos populares, especialmente por meio do Instituto Cultural Padre Josimo. Para ele, Frei Sérgio insistia que o conhecimento acadêmico só faz sentido quando está conectado à vida concreta do povo. Bicca definiu o homenageado como alguém que jamais abandonou os pequenos agricultores, as mulheres, as crianças e todos aqueles que enfrentavam situações de injustiça.
Uma referência para a esquerda brasileira
A homenagem também contou com mensagens em vídeo de lideranças políticas que conviveram com Frei Sérgio ao longo das últimas décadas. O ex-governador e ministro Tarso Genro destacou que o franciscano foi uma das pessoas mais importantes da esquerda brasileira, justamente por sua capacidade de unir fé religiosa, estratégia política, diálogo e compromisso com as causas populares. O depoimento ressaltou ainda sua habilidade de construir unidade mesmo em meio às divergências existentes dentro do campo democrático.
O deputado federal Alexandre Lindenmeyer lembrou a defesa permanente da fraternidade, da igualdade, da reforma agrária e da dignidade humana, apontando que os ensinamentos do frei continuam presentes em milhares de militantes espalhados pelo país.
Já o superintendente do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar no estado (MDA/RS), Milton Bernardes, reconheceu a influência de Frei Sérgio na formulação de políticas públicas voltadas à agricultura familiar e ao campesinato brasileiro.
Um sonho que continua
O prefeito de Candiota, Luiz Carlos Folador, aproveitou a homenagem para reafirmar o compromisso do município com projetos defendidos historicamente por Frei Sérgio. Destacou que a memória do religioso vive em milhares de pessoas e afirmou que sua principal herança é a capacidade de unir diferentes setores em torno das causas coletivas. Durante sua fala, anunciou avanços relacionados à Rodovia Transcampesina, projeto defendido pelo frei ao longo dos últimos anos.

Segundo o prefeito, etapas importantes da obra deverão ser executadas nos próximos meses, aproximando a concretização de um dos sonhos mais antigos do religioso para a região. Folador também relacionou o legado de Frei Sérgio aos debates sobre desenvolvimento regional, geração de empregos e transição energética, temas que marcaram os últimos anos de atuação do franciscano.
A música como parte da caminhada
A homenagem também teve forte presença da cultura popular. Antônio Gringo e Regina Wirtti, companheiros de longa caminhada de Frei Sérgio, deram à sessão um tom de memória cantada. Gringo lembrou que conhecia o frei desde os anos 1980 e que, ao longo desse percurso, construíram juntos uma relação marcada pela música, pela política e pelos movimentos sociais.
O artista recordou que a canção “Pequeno Gigante” nasceu a partir de uma fala de Frei Sérgio para milhares de agricultores no Parque Assis Brasil. Ao explicar a origem da música, afirmou que o “pequeno gigante” representa trabalhadores e trabalhadoras que, quando se organizam, tornam-se grandes. Regina Wirtti, emocionada, resumiu a perda dizendo que Frei Sérgio “era e é um irmão” para o casal.
Também participou da parte cultural da homenagem o raper Akiel Costa, integrante do grupo canditense Poço Sujeira, que relembrou como Frei Sérgio incentivava a seguir em frente e fazer da música uma plataforma de crítica e transformação social.
Dignidade, respeito e prática
A secretária de Agricultura de Hulha Negra, município vizinho a Candiota e onde está localizado o assentamento onde Frei Sérgio residia, Marciane Fisher, destacou a presença cotidiana do frade na vida da região e sua capacidade de acolher as pessoas sem distinção. Segundo ela, o frei ensinava que todos deveriam ser tratados com igualdade, independentemente de religião, origem ou condição social.

Fischer lembrou que Frei Sérgio viveu muito mais a prática do que a teoria. Para ela, sua memória segue como exemplo para jovens, agentes políticos e lideranças que desejam construir mais dignidade, mais vida e mais respeito na região. “Frei Sérgio vive e sempre viverá na nossa luta diária, cotidiana e também na nossa lembrança”, afirmou.
Religião para unir e fazer justiça social
Presidente da Câmara de Vereadores de Hulha Negra, Volnei Manfron, recordou que conheceu Frei Sérgio em 1987, quando ingressou na luta do MST. Segundo ele, foi naquele período que conheceu o caráter do religioso e uma de suas principais convicções: a religião não deveria dividir, mas unir as pessoas e promover justiça social.
Manfron também destacou a contribuição de Frei Sérgio para o desenvolvimento regional, especialmente na formulação da ideia da Zona de Processamento de Exportação (ZPE). Segundo o vereador, o frei nunca se apresentava como dono das propostas. Ele lançava as ideias e chamava prefeitos, vereadores, secretários e lideranças sociais a construí-las coletivamente. Para Manfron, Hulha Negra também deve homenagear Frei Sérgio, já que ele viveu no município e ajudou diretamente em sua caminhada.
Uma homenagem necessária
Nas considerações finais, Axel Costa lançou um desafio aos parlamentares e lideranças da região: construir uma articulação para que a rodovia Transcampesina receba oficialmente o nome de Frei Sérgio Görgen. A proposta foi recebida com aplausos pelo plenário.
Segundo o vereador, a homenagem representaria não apenas o reconhecimento à trajetória do franciscano, mas também sua contribuição para a integração regional, para o desenvolvimento da Campanha e para as lutas populares.
Axel também lembrou o compromisso ambiental defendido por Frei Sérgio, destacando que iniciativas impulsionadas pelo Instituto Cultural Padre Josimo já contribuíram para o plantio de mais de 2 milhões de árvores. Como gesto simbólico, mudas de espécies nativas foram distribuídas aos participantes ao final da atividade.

Na condição de presidente da Câmara de Vereadores de Candiota, Gildo Feijó, conduziu a sessão e destacou diversas vezes a dimensão humana e política de Frei Sérgio. Ao longo da atividade, lembrou a presença do franciscano em debates estratégicos para a região, como a defesa da permanência da atividade carbonífera, a construção de alternativas para a transição energética e os projetos de desenvolvimento regional.
Ao encerrar os trabalhos, Feijó classificou a homenagem como justa e necessária. Agradeceu a participação das lideranças presentes e afirmou que o legado de Frei Sérgio deve permanecer vivo no coração da comunidade regional. “Que o legado do nosso grande amigo Frei Sérgio permaneça em nossos corações”, declarou.
Aprendizado para as novas gerações
O vereador Adriano Revelante destacou o caráter educativo da homenagem. Segundo ele, a sessão permitiu que muitas pessoas conhecessem aspectos da história da região e do país que carregam a influência direta de Frei Sérgio. Para o parlamentar, independentemente do espaço de atuação de cada pessoa – seja na educação, no campo ou na cidade – os ensinamentos do religioso permanecem atuais. Revelante agradeceu a iniciativa da homenagem e defendeu que os valores transmitidos pelo frei continuem orientando as futuras gerações.
Em sua manifestação, o vereador Marcelo Bermudes definiu Frei Sérgio como alguém que transformou a fé em prática concreta de solidariedade. Segundo ele, o religioso dedicou sua vida ao serviço das pessoas mais vulneráveis, tornando-se referência de compromisso com a dignidade humana e com a construção de uma sociedade mais justa. Bermudes afirmou que a melhor forma de homenagear Frei Sérgio é manter vivo seu legado de solidariedade, justiça e compromisso com o povo. Ao final, citou uma frase atribuída ao homenageado: “É nos gestos que a graça se faz prática e o amor se faz vivo”.

O vereador Ataídes da Silva falou a partir da experiência de quem conhece diretamente a realidade dos assentamentos rurais. Ele recordou que Frei Sérgio sempre soube ouvir as pessoas e lutar para que as transformações acontecessem concretamente na vida dos mais pobres. Para Ataídes, a melhor homenagem ao franciscano é garantir que novas famílias tenham acesso à terra e às oportunidades que transformaram a vida de milhares de agricultores da região.
A vereadora Luana Vais trouxe um depoimento marcado pela experiência prática dos projetos desenvolvidos pelo Instituto Cultural Padre Josimo. Recordou sua participação em iniciativas de reflorestamento, recuperação ambiental e implantação de cisternas que contaram com o envolvimento direto de Frei Sérgio. Segundo a parlamentar, basta visitar os assentamentos da região para perceber que o legado do religioso permanece vivo no cotidiano das famílias.
“Cada lote tem alguma referência ao Instituto Padre Josimo”, afirmou, lembrando que muitas melhorias conquistadas pelas comunidades rurais carregam a marca da atuação do frei. Para ela, a solidariedade e a capacidade de servir ao próximo constituem a principal herança deixada pelo homenageado.

Uma semente que continua germinando
Ao final da sessão, uma ideia apareceu repetidamente nos discursos: Frei Sérgio não pertence apenas à memória. Para os presentes, o franciscano permanece vivo nas organizações populares que ajudou a construir, nas políticas públicas que ajudou a conquistar e nas pessoas que formou ao longo de décadas de atuação.
Por isso, a palavra mais repetida durante toda a homenagem foi também a síntese mais precisa do sentimento coletivo presente no plenário da Câmara de Candiota: “Frei Sérgio, presente, presente, semente”.
Assista a íntegra da sessão:
