DISPUTA

Governo autoriza entrega de parque linear na RMBH e movimento denuncia risco ambiental

Entidades questionam equilíbrio entre mobilidade, preservação e interesses imobiliários

No audio source provided.
Parque Linear
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou, no último dia 11, a cessão especial da área de aproximadamente 350 mil metros quadrados | Crédito: Reprodução – MPMG

A assinatura da portaria que autoriza a cessão de uso do Parque da Linha Férrea e avenida Parque, entre Belo Horizonte e Nova Lima, gerou reação de movimentos ambientalistas que defendem a preservação da área. O Movimento Parque Ecológico Linear BH criticou a decisão do governo federal e afirmou que o projeto pode representar um retrocesso ambiental, ao priorizar obras viárias em uma região considerada estratégica para o equilíbrio ambiental da capital mineira.

Para a entidade, a proposta apresentada pelos governos federal, estadual e municipais mistura a criação de um parque com intervenções que podem estimular o aumento do fluxo de veículos e favorecer a expansão imobiliária na região do Belvedere e Vila da Serra.

:: Relembre: Moradores denunciam exclusão em processo de criação do Parque Linear entre BH e Nova Lima :: 

“O que o governo Federal assinou foi uma portaria para um retrocesso ambiental que atinge uma Estação Ecológica, da qual faz parte o parque linear, que é corredor da Serra do Curral”, afirmou o movimento nas redes sociais.

A crítica ocorre após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinar, no último dia 11, a cessão especial da área de aproximadamente 350 mil metros quadrados. O espaço, que durante décadas esteve envolvido em disputas sobre sua destinação, será transformado em um parque linear, segundo o governo federal.

O projeto prevê áreas verdes, ciclovia, espaços de lazer e equipamentos culturais. Também está prevista a construção de uma via-parque, com pistas duplas, para melhorar o trânsito na MG-030, ligação entre Nova Lima, Raposos, Sabará e Belo Horizonte.

O investimento estimado para as obras é de R$ 200 milhões, custeados pelas prefeituras de Belo Horizonte e Nova Lima. Segundo a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, a antiga linha férrea também pode permitir, futuramente, a ampliação do metrô para atender a região.

Disputa sobre mobilidade e preservação

Segundo o Movimento Parque Ecológico Linear BH, o projeto não enfrenta a raiz dos problemas de mobilidade da região e pode aprofundar um modelo urbano baseado no transporte individual.

A entidade afirma que o crescimento imobiliário entre Belvedere e Nova Lima provocou o adensamento de condomínios, a redução de áreas verdes e o aumento da dependência dos carros.

“Por décadas, a construção desenfreada entre Belvedere e Nova Lima resultou em um adensamento de condomínios de prédios, destruindo matas, vales e nascentes e gerando o crescimento de uma população que usa veículos particulares individuais”, declarou o movimento.

O grupo também defende que a antiga linha férrea seja utilizada para transporte coletivo, com a retomada do modal ferroviário urbano e turístico, em vez da criação de novas vias para automóveis.

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) informou que as discussões para definir o modelo de governança e execução das obras começam na próxima semana, com participação da Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Em nota, a administração municipal afirmou que a iniciativa está alinhada a um acordo firmado com o Ministério Público e demais envolvidos, prevendo preservação ambiental, proteção do patrimônio histórico, criação de áreas verdes e soluções de mobilidade.

A cessão da área ocorreu durante uma cerimônia do programa federal “Imóvel da Gente”, criado em 2023 para destinar imóveis da União a políticas públicas. Segundo o governo federal, desde janeiro daquele ano, mais de 1,7 mil imóveis federais foram destinados para ações públicas em 625 municípios.

Histórico de mobilização

A área da antiga Linha Férrea é alvo de mobilização há mais de duas décadas. Em 2024, após um acordo judicial que transferiu a guarda provisória do espaço para as prefeituras de Belo Horizonte e Nova Lima, moradores e ambientalistas questionaram a falta de participação nas decisões.

Na época, o Movimento Parque Linear afirmou que entidades que defendem a preservação ambiental não foram incluídas nas negociações.

A ambientalista Jeanine Oliveira, do Projeto Manuelzão, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também alertou, à época, sobre os riscos de priorizar obras viárias em uma área sensível.

“Essa área divide um grande adensamento urbano, tanto dos trabalhadores que atendem aquela comunidade quanto do mercado imobiliário que especula constantemente na região”, afirmou.

A região próxima à Estação Ecológica do Cercadinho também está no centro da discussão. Considerada importante para o abastecimento hídrico de Belo Horizonte, a área abriga nascentes e fragmentos de mata que ambientalistas defendem como prioridade de preservação.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

|

Newsletter