A história das relações humanas e comerciais entre o Brasil e o Paraguai pode e deve ser contada a partir de várias perspectivas: a do fluxo corrente e comum entre os diferentes grupos guaranis ao longo da história; a das relações entre os povos das florestas e das águas, que habitaram ou habitam o sul do continente e que estabeleceram relações recíprocas ou conflitivas; a das invasões coloniais espanholas, inglesas, portuguesas, francesas e holandesas a partir do século 15; a das guerras e dos genocídios, em especial contra o povo e os territórios do Paraguai, em 1864; a das independências formais e das transações comerciais capitalistas dependentes a partir do século 19; e a contemporânea, de relações imperialistas e subimperialistas na América Latina e no Caribe. Cada um desses processos compõe a complexa história recente. Uma análise de conjuntura sem vínculos históricos concretos tende a ser repleta de equívocos sobre as condições estruturais dos vínculos atuais.
Por trás das relações econômico-comerciais contemporâneas ou das propagandas conservadoras sobre o “paraíso democrático” de migrar para o Paraguai, a burguesia brasileira, franca aliada dos interesses imperialistas estadunidenses sobre a América Latina e o Caribe, reforça as perversas relações de superexploração da força de trabalho e de ocupação do território. E este processo tem levado a um crescente fluxo migratório entre 2025 e 2026.
Ante isto, a história nos convoca a pensar sobre as motivações da burguesia brasileira e seus pares imperialistas — via Fiesp e demais federações de indústrias do sul do Brasil — da aposta no processo de produção via sistema de maquilas* e os respectivos ganhos econômicos no país vizinho. Em especial, após a vitória da votação brasileira pelo fim da escala 6×1. Trabalhamos com duas premissas sobre a relação geoeconômica e geopolítica atual entre a burguesia brasileira e seus pares políticos atuantes nos ministérios dos dois países, que administram a potencialização das transações econômicas conectadas pelo regime de maquila, a partir de 1997: 1) a vigência da teoria marxista da dependência de Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos, acerca da superexploração e do subimperialismo nas relações econômicas (produtivas-comerciais) lideradas pelo Brasil no Cone Sul; 2) a ocupação territorial do Paraguai pela burguesia brasileira nos últimos dez anos — ver, como exemplo, as matérias veiculadas no site da Fiesp de 2013 a 2024. Como forma de manter e expandir sua hegemonia econômica e política sobre a América do Sul e incidir politicamente a partir de uma nova onda de neocolonização fascista, efetuam-se propagações de “ideias-força verdadeiras” sobre a prosperidade e melhoria dos negócios ao se apostar na mudança para o país vizinho. “Ideia-força” que consolida a fundação de um novo pacto conservador da elite brasileira de se rearticular econômica e politicamente a partir da fronteira paraguaia. A junção entre estas premissas é conformada pelo poder da burguesia brasileira sobre o Cone Sul:
a) na polarização política do Brasil e na dificuldade direta de manutenção do controle cultural a partir de suas dinâmicas históricas, uma vez que a classe trabalhadora, os movimentos sociais organizados e parte da esquerda brasileira ainda resistem à ofensiva neoconservadora no país, somadas à incidência direta do imperialismo estadunidense sobre as economias mais fortes da América Latina;
b) no processo de regulação das maquilas, a partir de 1997, que, na crista da onda do neoliberalismo, potencializou a relação entre os governos e a burguesia brasileira para rearticular um novo pacto de desenvolvimento no território.
Lupo, Buddemeyer, Karsten, Estrela, Guararapes/Riachuelo, Marcopolo (produção de carrocerias de ônibus), JBS e Banco do Brasil, com sucursais em Assunção e Ciudad del Este, são alguns dos capitais brasileiros que utilizam o território e a força de trabalho superexplorada dos/as paraguaios/as — e dos/as brasileiras que têm se deslocado para o país, na promessa de uma vida longe do “comunismo” — como forma de ampliação da concentração e centralização do capital.
Dados relevantes
A população do Paraguai atual é de aproximadamente 6 milhões de pessoas. A população urbana é de um pouco mais de 4 milhões, enquanto a rural chega a quase 2 milhões. Existem 3,5 milhões de pessoas com 15 anos ou mais aptas a trabalhar. E mais de 50% desta população economicamente ativa atua no mercado de trabalho informal.
Entre a população desocupada ou subocupada, encontram-se mais de 240 mil trabalhadores e trabalhadoras.
O salário mínimo no Paraguai em 2026 varia em torno de R$ 2.350, com uma jornada média de trabalho, em especial nas maquilas, de 48 a 50 horas semanais. O período de férias varia de acordo com o tempo de trabalho na empresa: de um a cinco anos, dá 12 dias de férias; de seis a dez anos, dá 18 dias de férias; acima de dez anos, dá 30 dias de férias.
Das 339 empresas em regime de maquila atuando no Paraguai, 230 são brasileiras, ou seja, 68%. 48% destas empresas estão no Departamento Alto Paraná, do qual faz parte a Ciudad del Este. O Brasil é o responsável por 65% das exportações vinculadas a este regime de produção com incentivo fiscal e trabalhista.
Ciudad del Este possui uma população de 325 mil pessoas, quase 50% da população total do Departamento de Alto Paraná, que é de 760 mil habitantes. Além do comércio legal e ilegal inerente à zona da tríplice fronteira e sua vinculação com o sistema de produção vantajoso das maquilas, o trânsito entre os/as trabalhadores/as do Brasil e do Paraguai é corrente e contínuo.
No período de 19 a 22 de novembro de 2025, potencializada pelas promoções de fim de ano, a circulação na fronteira foi a seguinte, segundo a Receita Federal de Foz, divulgada pelo jornal Portaldacidade: 173 mil carros, 107 mil motos e 173 mil entradas e saídas de pedestres. Imagine a circulação legal e ilegal de mercadorias apenas neste período. Multiplique por um ano, ou por um período de cinco anos, e temos toda uma economia política do crime organizado em ação, legitimada por políticas de governo bilaterais que, ao não fiscalizarem, legitimam os diferentes crimes na fronteira. As apreensões efetuadas não chegam nem a 10% do trânsito não vistoriado na fronteira.
Ciudad del Este possui atualmente 26 universidades que ofertam diversos cursos, entre eles, o de medicina. Atualmente, das mais de 45 mil matrículas de medicina no Paraguai, 35 mil são de brasileiros, que pagam, em média, ao longo do período, R$ 2.500 mensais. Mas injetam na economia local uma média mensal de US$ 20 mil entre mensalidades e gastos com alimentação e outras despesas correntes. O curioso é que, assim como as maquilas, as faculdades de medicina estão majoritariamente no Departamento de Alto Paraná, o que faz com que parte dos familiares, ou os próprios estudantes, conjuguem o trabalho intensificado das maquilas, em alguns períodos, com o tempo de estudo e a necessidade de pagamento do curso e da sobrevivência na fronteira. Grande parte dos estudantes de medicina brasileiros no Paraguai trabalha em diferentes frentes, em momentos distintos, para conseguir garantir a graduação em medicina. Entre o estudo formal e o trabalho informal ou precarizado, passam rios complexos de concreção de suas sobrevivências ao longo de seis a sete anos de curso.
A população brasileira atual no Paraguai é de quase 263 mil pessoas. Somente em 2025 foram emitidas 40.600 autorizações de visto, das quais 23.500 foram de brasileiros.
Tecendo análises
Falar de fronteira é dimensionar um tema em que os números formais serão sempre abaixo dos movimentos concretos de violência contra as pessoas e os territórios. A relação entre ganhos de capital e tráficos diversos, de mercadorias, animais e pessoas, é exponencial na fronteira. Superexploração e aliciamento tendem a andar juntos, em especial a partir das jovens oriundas do universo popular indígena e camponês da região.
É mais complexa a relação atual, uma vez que a aliança conservadora de direita entre os governos do Paraguai e dos Estados Unidos abre alas para relações imperialistas diretas no território, o que não implica não haver margem para o subimperialismo brasileiro. Ao fim e ao cabo, há convergências e entrelaces entre estas formas de dominação. No entanto, o acordo firmado entre os Estados Unidos e o Paraguai, no que denominam de “guerra ao tráfico e ao terrorismo”, aponta para uma articulação americana que convoca, na ocupação territorial, a uma ação militar mais densa sobre o Cone Sul.
Ainda no tema da ocupação empresarial brasileira, há, desde 2013, uma política estabelecida pela Fiesp e demais Federações das Indústrias do Sul do País de incentivo à migração de CNPJs brasileiros para o Paraguai. Isto, somado ao protagonismo deste empresariado, de criar uma imagem concreta de ocupação do que denominam “democracia” (que para nós é GOLPE), tem incentivado e fortalecido a mudança de seus “colaboradores” para o Paraguai.
O Paraguai aparece, a partir de 2025, como uma oportunidade geográfica de consolidação de uma integração conservadora protagonizada pelos empresários brasileiros, a partir da junção entre ocupar com capital produtivo e destilar, a partir disto, um ódio de classe e de país, contra todos os movimentos e sujeitos que se coloquem contrários ao projeto de nação fascista.
Isto implica, no médio prazo, uma disputa de narrativa no próprio Paraguai, de uma outra dimensão de território e de Nação, consolidada pelas marcas e não pelos atuais representantes políticos dos nossos Estados nacionais. A camisa verde e amarela, no Paraguai, tem implicado uma ocupação repleta de estigmas históricos sobre a grandeza da força do Brasil, frente às imensas fragilidades indígenas e populares dos paraguaios.
Fiquemos bem atentos/as!
Mas não é somente uma ocupação para a superexploração e o subimperialismo. É uma estratégia bélico-militar-comunicacional de ocupar aquele território a ponto de reconstituir uma ideia de América para esses americanos diretamente vinculados ao capital estadunidense. Uma América, de preferência, sem sua parte latino-caribenha popular: indígena, negra e camponesa.
No dia a dia do trabalho na fronteira, conseguimos ver o ir e vir de uma classe trabalhadora sofrida; em grande parte mulheres e jovens transitando com suas mercadorias para fazer R$ 40, R$ 50 o dia (são chamados/as de laranjas). Mas não conseguimos visualizar, de imediato, o gigantesco mundo da superexploração e do subimperialismo. Nas duas pontas da ponte, abrigam-se dois Estados cujos governos mudam de mãos de tempos em tempos, mas a política se mantém intacta na perpetuação do poder do capital contra o trabalho. A ponte da amizade esconde muitas histórias.
Há uma conexão direta entre a burguesia brasileira e os governos de direita capitaneados pelos Estados Unidos no continente. Nesta conexão, o governo brasileiro tem se posicionado com uma perigosa política de neutralidade. Como se isso nos blindasse das severidades econômicas, políticas e militares dos Estados Unidos contra nossos povos.
Enquanto enfrentamos a ofensiva violenta dos Estados Unidos diretamente sobre a ocupação violenta ou ameaças de maior intervenção na Venezuela e em Cuba, aguardamos apreensivos as eleições no Peru, na Colômbia e no Brasil. E o desfecho do belo levante popular indígena da Bolívia.
O que vivenciamos na tríplice fronteira é uma rota perigosa de colisão da direita brasileira e sul-americana a partir da ocupação real do Paraguai. As cenas dos próximos capítulos serão dadas pela ocupação evangélica e todas as demais teias ideoculturais que acompanham a disseminação dessa política contra os povos do território. A superexploração e o subimperialismo brasileiro se materializam na concreção bélica do fascismo na fronteira. Vamos aguardar para ver como o povo paraguaio reagirá a essa interferência direta. Tempos confusos e conflitivos se avizinham na fronteira sul do continente.
Enfim, neste primeiro quarto do século 21, velhos ventos sopram sobre o continente. A história das ditaduras militares do século passado foi brevemente superada pela redemocratização burguesa no continente. Os tempos atuais são de violência direta sobre os povos e seus territórios. E não se trata mais de uma ameaça, mas de uma ação/intervenção bélica direta. Contra quem? Para quê? Com que armas? Pensemos!
*As maquilas são um regime de produção neoliberal sustentado em incentivo fiscal e trabalhista, coordenado por uma política de integração produtiva e de linhas de montagens diversas, tendo como referência a experiência mexicana e agora a paraguaia.
**Roberta Traspadini é educadora popular, professora do curso de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais da UNILA e professora-ENFF no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe – TerritoriAL (IPPRI/UNESP). Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão Saberes em Movimento, a luta por terra e trabalho na América Latina.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
