A Esplanada dos Ministérios foi palco, na manhã desta quarta-feira (17), de um protesto marcado por simbolismo e indignação. Trabalhadores e trabalhadoras da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) cruzaram os braços em uma paralisação nacional para denunciar a falta de avanços nas negociações do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2026/2027.
Durante o ato em frente ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), os manifestantes distribuíram cerca de 2,5 toneladas de bananas para quem passava pelo local. A fruta, que integra diversas pesquisas desenvolvidas pela empresa, foi utilizada para representar o que a categoria afirma estar recebendo do governo após oito rodadas de negociação sem apresentação de propostas econômicas concretas.
A mobilização também buscava abrir um canal de diálogo direto com o governo federal. Segundo lideranças sindicais, uma audiência com o ministro Carlos Fávaro foi solicitada, mas não ocorreu sob a justificativa de falta de agenda. A decisão ampliou a insatisfação dos trabalhadores.
“Estamos aqui reunindo a nossa base em um dia de paralisação pela luta do nosso acordo coletivo, que ainda não tem nenhuma proposta de cláusulas econômicas ou até mesmo avanços na discussão de cláusulas sociais”, afirmou Jean Kleber de Sousa Silva, presidente nacional do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (Sinpaf).
Banana como símbolo da mobilização
A escolha da banana para a distribuição pública não foi por acaso. Além de ser um alimento presente na mesa da população brasileira, a fruta representa uma das áreas de pesquisa desenvolvidas pela Embrapa e simboliza, para os trabalhadores, a contradição entre a importância estratégica da instituição e a falta de valorização de seus profissionais.
“Distribuímos 2,5 mil quilos de banana para a sociedade no intuito de mostrar a importância do trabalho da Embrapa. As frutas também são objetos de estudo da pesquisa, e hoje trazemos um pleito muito caro, que é o reconhecimento da escolaridade”, explicou Zeca Magalhães, diretor administrativo-financeiro do Sinpaf.
Para a categoria, a distribuição dos alimentos também buscou evidenciar que, enquanto a empresa produz conhecimento, tecnologia e inovação para o campo brasileiro, as reivindicações dos trabalhadores seguem sem respostas concretas.
Entre as principais demandas está o reconhecimento da escolaridade de assistentes e técnicos. Muitos ingressaram na empresa em cargos que exigiam apenas o ensino médio, mas ao longo dos anos concluíram graduações, especializações, mestrados e doutorados, sem que a qualificação obtida fosse incorporada à remuneração.
“A Embrapa é uma empresa de pesquisa e nosso corpo técnico de assistentes e técnicos não é reconhecido pela escolaridade. Temos muitos que têm mestrado e doutorado, temos capacidade, mas não somos reconhecidos”, lamentou Raquel Gasparoto, trabalhadora da Embrapa há 37 anos.
Segundo os trabalhadores, trata-se de uma contradição dentro de uma instituição cuja principal missão é justamente produzir conhecimento científico. Eles afirmam que a qualificação acumulada ao longo da carreira é utilizada no cotidiano das pesquisas, mas não recebe reconhecimento formal na estrutura salarial.

Impasse
Até o momento, a direção da Embrapa tem condicionado avanços nas cláusulas econômicas à aprovação de instâncias superiores, como a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest), vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), e o Conselho de Administração (Consad).
A situação preocupa os trabalhadores porque ocorre em um ano eleitoral, período em que os prazos para formalização de acordos e implementação de reajustes ficam mais restritos. A pauta apresentada pela categoria inclui a reposição da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acrescida de 2% de ganho real, além da recomposição de perdas acumuladas ao longo dos últimos anos.
“É um momento importante para a nossa categoria. Estamos em um ano eleitoral, onde fechar os acordos coletivos ficou com o prazo mais curto, mas estamos na luta e é importante a base estar mobilizada”, ressaltou Jean Kleber.
A paralisação não se limitou a Brasília. Unidades da Embrapa em diferentes regiões do país, como Hortaliças, Cerrados e Semiárido, também promoveram atividades para pressionar a empresa a apresentar respostas às reivindicações dos trabalhadores.
Ana Paula de Queiroz, presidente da seção sindical do Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), destacou a importância da mobilização nacional. “A gente precisa que a Embrapa entenda a importância que isso tem para a vida de cada trabalhador e trabalhadora. Estamos paralisando por essa causa tão importante que é o fechamento do ACT”, afirmou.
Com 43 unidades espalhadas pelo país, a Embrapa é considerada uma das principais instituições de pesquisa agropecuária do mundo. Para os trabalhadores, no entanto, o reconhecimento internacional da empresa não tem sido acompanhado por uma política de valorização de quem atua nos laboratórios, escritórios e campos experimentais.
“Estamos aqui na campanha do nosso acordo coletivo para reivindicar melhores condições de trabalho, salário digno e reconhecimento do esforço dos assistentes e técnicos que precisam ter valorizado o que fazem e o que estudam”, analisou Mirane dos Santos Costa, trabalhadora da sede da empresa.
A ausência de diálogo com o Ministério da Agricultura também foi interpretada pelos manifestantes como um sinal de distanciamento entre a pasta e os profissionais responsáveis por parte significativa da produção científica que sustenta o setor agropecuário brasileiro.
Próximos passos
O Sinpaf afirma que poderá ampliar as mobilizações caso a empresa continue sem apresentar propostas concretas nas próximas rodadas de negociação. Para a entidade, a valorização dos trabalhadores é condição fundamental para garantir o fortalecimento da pesquisa pública agropecuária e a manutenção da capacidade de inovação da Embrapa.
“Não será por falta de luta. Somente a força dos trabalhadores e trabalhadoras é que vai dar rumo às nossas conquistas”, concluiu Jean Kleber.
O Brasil de Fato DF procurou o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para comentar as reivindicações dos trabalhadores da Embrapa e a ausência de audiência com a categoria durante a mobilização, mas até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
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