Do alto da Vila Graciliano Ramos, no bairro Glória, zona sul de Porto Alegre, moradores trocaram o cinza do concreto pelo verde, amarelo e azul da seleção brasileira. Em clima de Copa do Mundo, um mutirão organizado pela Cozinha Solidária Prato Cheio e pelo Levante da VG coloriu uma rua e parte da escadaria da comunidade, reunindo moradores de diferentes idades em torno da arte, do futebol e da convivência comunitária.
Entre pincéis, tintas e bandeirinhas, o espaço se transformou em um ponto de encontro para crianças, adolescentes e adultos. Além da decoração inspirada no torneio, os moradores instalaram um telão para acompanhar os jogos da seleção brasileira e já planejam novas intervenções ao longo das próximas semanas, incluindo a pintura de novos trechos da rua e a criação de um campinho para as crianças da comunidade.
Um dos participantes da ação é o jovem Kevin Silva das Neves, de 19 anos, integrante do Levante da VG. Segundo ele, a proposta surgiu a partir do trabalho já desenvolvido pelo coletivo na comunidade. “A gente já tem o Levante da VG, que trabalha para melhorar a vila. Estávamos fazendo um projeto de muralismo, pintando paredes, fazendo grafites e deixando os espaços mais bonitos. Aí a Cozinha Comunitária trouxe a ideia de pintar a rua para a Copa e nós abraçamos”, relata.
Além do embelezamento do espaço, Neves destaca o caráter coletivo da iniciativa. “O futebol junta bastante as pessoas, e a pintura também. As crianças gostam de participar, de pintar, de brincar. A ideia é deixar a comunidade mais bonita e fortalecer essa convivência.”
O Levante da VG é uma célula local do Levante Popular da Juventude e reúne jovens moradores da comunidade. Apesar do grupo ainda ser pequeno, os integrantes pretendem ampliar as ações nos próximos meses.
A pintura realizada para a Copa foi concluída em apenas uma tarde, mas a intenção é dar continuidade ao trabalho durante todo o torneio. O grupo está arrecadando tintas e materiais para ampliar as intervenções. “Queremos pintar mais muros, fazer mais desenhos e até criar um campinho aqui na rua. As crianças jogam bola o tempo todo e pensamos em colocar goleiras e marcar o campo no chão para elas”, explica Neves.
A mobilização envolveu integrantes da Cozinha Solidária, do Levante Popular da Juventude, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e dezenas de crianças da comunidade.

Além das pinturas, a comunidade também organizou um espaço coletivo para acompanhar os jogos da seleção brasileira. Um telão foi instalado na rua para reunir moradores durante as partidas. “Foi muito bonito. A gente colocou uma lona e um projetor para que todos pudessem assistir juntos. Queremos repetir nos próximos jogos, com mais gente participando”, afirma.
Para a presidenta da Cozinha Solidária Prato Cheio e do Instituto Luísa Helena, Cristiane Silva de Oliveira, o projeto reforça o papel da comunidade na construção de espaços de convivência. “Nós já tínhamos jovens fazendo muralismo aqui. Eles queriam revitalizar a escadaria, que estava bastante apagada. Vimos uma experiência parecida no Rio de Janeiro, levamos a proposta para uma reunião da comunidade e resolvemos colocar em prática”, explica.
Segundo ela, a iniciativa vai além da decoração para a Copa e representa uma forma de ocupação positiva do território. “A gente pretende continuar. Queremos pintar o restante da rua, colocar mais bandeiras e construir um espaço para as crianças jogarem futebol. É um processo de pertencimento da comunidade.”
Oliveira destaca ainda a participação ativa das crianças nas atividades. “Elas são parceiras de tudo. Pintaram os cordões das calçadas, ajudaram em várias partes do trabalho e ficaram muito empolgadas. No final, até tomaram banho de tinta”, brinca.
A liderança também relaciona a mobilização comunitária ao debate sobre qualidade de vida e direitos sociais. Em um dos murais produzidos pelos jovens, e até na pintura da rua aparece a defesa do fim da escala de trabalho 6×1. “As pessoas precisam ter mais tempo para a família e para a convivência. Eu por exemplo sou mãe solo, tenho dois filhos, a escala 6×1 pra mim seria desgastante. Muitas vezes, quem trabalha nessa escala nem consegue assistir a um jogo da seleção porque está dentro de um supermercado ou de um shopping trabalhando”, observa.

Da solidariedade na enchente à transformação da comunidade
A Cozinha Solidária Prato Cheio surgiu durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. Oliveira conta que a iniciativa começou em maio, quando familiares resgatados de abrigos relataram a falta de refeições adequadas. “Eu trabalhava em uma escola que foi atingida pela enchente e comecei a cozinhar na minha própria casa para enviar marmitas aos abrigos. Depois a comunidade foi se mobilizando, chegaram doações e pessoas ajudando no transporte dos alimentos”, relembra.
Do trabalho emergencial nasceu uma estrutura permanente de apoio social. Atualmente, a cozinha atende moradores da comunidade e de outras regiões do bairro, além de pessoas em situação de rua e usuários de drogas. “Aqui não existe restrição. A gente atende quem está com fome”, resume. Com a ampliação das demandas da população, a iniciativa deu origem ao Instituto Luísa Helena, que hoje reúne diferentes projetos sociais voltados para a comunidade.
Além da distribuição de refeições, o espaço oferece atendimento psicológico e planeja novas atividades para crianças e adolescentes. “A intenção é trazer aulas de jiu-jítsu e também de teatro, que foram pedidos feitos pelos próprios jovens da comunidade. Hoje a cozinha não é mais apenas uma cozinha. Ela se tornou um espaço de acolhimento e de construção de oportunidades”, afirma.

Cinema comunitário transforma a Copa em experiência coletiva na Bom Jesus
Na zona leste de Porto Alegre, o clima da Copa do Mundo também mobiliza a comunidade. Na próxima quarta-feira (24), no jogo do Brasil e Escócia, a Bom Jesus recebe o evento Cultura em Campo, promovido pelo Comitê de Cultura do Rio Grande do Sul, com produção da Agência Compromisso e parceria do Centro de Educação Ambiental (CEA) e da TV da Bonja.
Além da transmissão do jogo da Seleção Brasileira no telão digital do que o grupo diz ser o maior cinema comunitário da América Latina, a programação reunirá debates, apresentações musicais, grafite e atividades culturais voltadas ao fortalecimento das redes comunitárias, da comunicação popular, do protagonismo feminino e da participação social.
A programação começa pela manhã, às 9h, com uma edição do podcast Quebrada em Foco, que discutirá a presença das mulheres no futebol, seus avanços e desafios. No horário do almoço, o músico Léo Monassa, morador da Bom Jesus, fará uma apresentação com releituras de músicas que marcaram diferentes Copas do Mundo. As catadoras de materiais recicláveis da Unidade de Triagem da Vila Pinto, que completa 30 anos de atuação em agosto, também serão homenageadas. A atividade integra ainda o calendário de comemoração do aniversário do CEA.
À tarde, moradores participarão da decoração da rua e da praça dos Anjos com a temática da Copa do Mundo. A programação inclui ainda uma intervenção de grafite com uma artista da comunidade e uma nova edição do podcast Quebrada em Foco, desta vez dedicada ao debate sobre a Política Nacional de Cultura, com representantes do Comitê de Cultura do Rio Grande do Sul.
Para os organizadores, a transmissão coletiva dos jogos vai muito além do futebol. “A Copa do Mundo é o maior evento esportivo mundial e o futebol é o esporte que mais carrega a identidade do povo brasileiro, independentemente da classe social. Por outro lado, o cinema ainda é uma das artes que a população da periferia não tem o hábito de acessar por questões financeiras e porque muitas pessoas ainda não se sentem no direito de ocupar a cidade, vivendo seus momentos de lazer no próprio território”, afirmam os organizadores.
Conforme destacam, o telão digital do CEA já é reconhecido na comunidade como um cinema popular a céu aberto. “Além de contribuir para a democratização da sétima arte por meio da exibição de filmes, conteúdos informativos e jogos, transforma um momento esportivo em uma experiência cultural e de integração social, resgatando a convivência comunitária na periferia”, avaliam.
As exibições no telão já chegaram a reunir mais de 500 pessoas. Segundo a organização, a comunidade se encontra na praça dos Anjos levando cadeiras, chimarrão, churrasqueiras e coolers para acompanhar a programação. “Famílias e vizinhos se reúnem e aproveitam esse momento de integração, pertencimento e ocupação do espaço público.”
Esse sentimento de pertencimento, destacam os organizadores, está diretamente ligado à história de mobilização da própria comunidade. A praça dos Anjos, antes conhecida como praça dos Cavalos, foi revitalizada pelos moradores em 2018, recebeu arborização, melhorias na infraestrutura e novos equipamentos, consolidando-se como um importante espaço de encontro e convivência.
Além disso, a quadra esportiva da praça também foi qualificada por iniciativa do CEA, com a instalação de grama sintética, fortalecendo o local como referência para atividades esportivas, culturais e de lazer.
* Com a colaboração de Ana Estrázulas.
